Municípios da Amazônia que elegeram Bolsonaro no 1º turno são os que mais desmatam em 17 anos

Municípios da Amazônia que elegeram Bolsonaro no 1º turno são os que mais desmatam em 17 anos

Cruzamento de dados do TSE com os do Inpe mostram que onde a floresta mais desapareceu, no chamado arco do desmatamento, o candidato do PSL teve mais votos. Municípios onde há mais comunidades tradicionais e indígenas optaram por Haddad

Giovana Girardi

26 Outubro 2018 | 05h00

Os municípios que historicamente mais desmataram a floresta amazônica coincidem com aqueles em que o candidato Jair Bolsonaro (PSL) foi o primeiro colocado no primeiro turno da eleição na Amazônia Legal. A constatação foi feita por um grupo de pesquisadores que trabalham com geoprocessamento de dados.

Eles cruzaram os dados de votação do Tribunal Superior Eleitoral com os do Prodes – o programa do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que fornece as estatísticas anuais oficiais de desmatamento da Amazônia. Foi avaliada toda a série histórica disponível na escala de município, de 2000 a 2017. O levantamento foi encaminhado com exclusividade ao blog Ambiente-se.

Mapa no alto mostra o aumento de desmatamento entre 2010 e 2017; abaixo, quem ficou em primeiro lugar em cada município no primeiro turno. Crédito: Adriana Paese

Bolsonaro venceu em 37,36% dos municípios da Amazônia Legal, enquanto Fernando Haddad (PT) ficou em primeiro em 62,63% dos municípios. No cruzamento com os dados do Prodes, é possível ver uma coincidência entre o avanço da motosserra e a intenção política.

Onde a floresta mais desapareceu nos últimos 17 anos, no chamado arco do desmatamento, é onde Bolsonaro teve mais votos. É nesses locais onde há uma economia agrícola mais consolidada, com gado e agricultura. Municípios localizados mais no interior da região, onde as taxas de preservação ainda são mais altas e há mais comunidades tradicionais e indígenas optaram por Haddad.

“No período avaliado, a área total desmatada neste período nos municípios que elegeram o PSL foi de 154,4 mil km² – maior que o Estado do Ceará. Já a área total desmatada, de 2000 a 2017, nas cidades que elegeram o PT foi de 96,7 mil km², aproximadamente um Estado de Pernambuco”, relata o ecólogo Ricardo Machado, professor da Universidade de Brasília.

O cruzamento de dados foi liderado pela bióloga Adriana Paese, que tem uma empresa de geoprocessamento. Ela calculou que a média do aumento do desmatamento nos municípios pró-PSL foi duas vezes e meia maior do que o observado nos municípios pró-PT – 543,69 km² contra 203,2 km². O valor é o resultado da soma de tudo o que foi desmatado em todas as cidades dividido pelo número de cidades.

Especialistas que trabalham com a evolução do uso da terra na região vêm alertando para os riscos de aumento de desmatamento na região se algumas das promessas que Bolsonaro fez ao longo da campanha de fato se concretizem. Um cálculo com base em modelagem computacional feito pelo Inpe estimou que a perda da floresta pode mais que triplicar se a governança ambiental no Brasil for enfraquecida.

O cruzamento de dados atual indica que Bolsonaro ganha onde há gente praticando desmatamento de modo amplo e intensivo, ao arrepio da lei, por anos. É onde também estão concentradas as principais ações de fiscalização do Ibama, com medidas duras para combater os crimes ambientais.

O candidato disse diversas vezes que quer acabar com o que chama de “indústria da multa” do instituto, fala que pode ter ecoado junto aos anseios desses municípios, além de ter dito que iria fundir o Ministério do Meio Ambiente ao da Agricultura – decisão que vem sendo reavaliada.

Viaturas do Ibama e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) sofreram ataques no último fim-de-semana, o que motivou o envio da Força Nacional para a Região Norte. Fiscais em campo também relatam que vêm percebendo um aumento da animosidade e da agressividade. Não raramente escutam que Bolsonaro “vai acabar com o poder” deles.