‘Morto’ em 137 km, Rio Tietê tem leve melhora

‘Morto’ em 137 km, Rio Tietê tem leve melhora

Monitoramento em 302 pontos de rios e córregos que compõem a bacia hidrográfica apontou uma redução de 11,5% da mancha de poluição entre agosto do ano passado e julho deste ano; mas após 23 anos de ações para limpeza, ainda resta grande mancha de poluição com qualidade ruim ou péssima

Giovana Girardi

22 Setembro 2016 | 03h00

Capivaras em meio a monte de lixo na altura da barragem da Penha. Tiago Queiroz / Estadão

Capivaras em meio a monte de lixo na altura da barragem da Penha. Tiago Queiroz / Estadão

Após 23 anos de ações que buscam a despoluição do Rio Tietê no Estado de São Paulo, um trecho de 137 km permanece com qualidade da água ruim ou péssima. Nessa mancha de poluição – um pouco maior que distância entre São Paulo e Taubaté –, o rio está praticamente morto.

O número, que será divulgado nesta quinta-feira (23) pela Fundação SOS Mata Atlântica, apresenta uma leve melhora em relação à situação do ano passado, mas ainda é pior que o período anterior à crise hídrica.

O monitoramento, realizado em 302 pontos de coleta d’água em rios que compõem as bacias hidrográficas do Alto e Médio Tietê, apontou uma redução de 11,5% da mancha de poluição entre agosto do ano passado e julho deste ano.

No auge da crise hídrica, entre setembro de 2014 e agosto de 2015, o trecho em que o rio foi considerado morto tinha mais que dobrado de tamanho em relação ao período anterior, chegando a 154,7 km. Em parte por causa da estiagem e em parte porque houve uma redução das obras de saneamento.

Apesar da redução recente de 17,7 km, a mancha anaeróbica (sem oxigênio) ainda supera em 92% a menor extensão de poluição já obtida no rio – de 71 km entre 2013 e 2014. Naquele período, o trecho em que o índice de qualidade da água varia entre ruim e péssimo se concentrava entre Guarulhos e Pirapora do Bom Jesus. Agora os 137 km vão de Itaquaquecetuba a Cabreúva (veja mapa abaixo).

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De acordo com Malu Ribeiro, coordenadora da Rede das Águas, o retorno das chuvas ajuda a diluir a mancha de poluição, principalmente na região mais próxima à cabeceira do rio, mas também carrega para dentro dele um volume maior da chamada poluição difusa, em especial na região metropolitana e no médio Tietê.

Ocupação de mananciais. Isso está diretamente ligado, explica a ambientalista, à cobertura vegetal das margens dos rios – ou à falta dela. “Pela primeira vez na história do monitoramento (que é feito desde 1993) estamos associando a qualidade da água não somente à questão do saneamento básico, que ainda não está boa, mas também ao uso do solo no entorno”, afirmou Malu ao Estado. A presença de vegetação no formato de mata ciliar protege rios e córregos do lixo carregado pela chuva e de erosão.

Segundo ela, no período analisado, houve um aumento da ocupação de áreas de manancial por movimentos de moradia “Perdemos áreas protegidas estratégicas com essas ocupações. Se houve algum ganho de aumento do tratamento de esgoto para o Estado, acabamos perdendo essa vantagem com as ocupações. Com elas vem o desmatamento e o despejo de lixo e esgoto nos corpos d’água.”

Ainda de acordo com Malu, as ocupações se deram de maneira generalizada em toda a faixa entre as rodovias Fernão Dias e a Ayrton Senna. “Pipocaram ocupações irregulares, talvez por reflexo da crise. O poder público precisa prestar atenção nisso.” Ela lembrou também as ocupações no entorno da represa Billings, como a que tomou o Parque dos Búfalos. Segundo ela, a qualidade da água ali, que tinha ido de boa a regular no ano passado, agora caiu para ruim.

O monitoramento apontou ainda piora da qualidade da água na zona leste e na região de Guarulhos, que tem sistema próprio de saneamento. Já na bacia do Piracicaba, que passou recentemente por um processo de restauração florestal, a água melhorou de qualidade. Foi essa ação que permitiu elevar de 13 para 30 o número de pontos com qualidade boa no monitoramento atual.

Malu destacou ainda piora da qualidade da água na zona leste e na região de Guarulhos, que tem sistema próprio de saneamento. Para ela, nesse ritmo, nem em mais 20 anos terá se alcançado a despoluição do rio. No início do projeto de limpeza, em 1993, a mancha ‘morta’ se estendia por um trecho de 530 km, de Mogi das Cruzes até o reservatório de Barra Bonita. No fim de 2010, ao término da segunda etapa do Projeto Tietê, adotada como marco zero para o monitoramento das etapas atual e futuras, o trecho de rio morto compreendia uma extensão de 243 km, de Suzano até Porto Feliz.

Sabesp. Por meio de nota, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) afirmou que o processo de despoluição do Rio Tietê é gradual e depende não apenas das ações da companhia, mas também de outros municípios, como Guarulhos.

“Com a crise hídrica em 2014 e 2015, a Sabesp foi obrigada a aumentar o investimento em produção de água e teve de reduzir o ritmo em obras de saneamento. Outro efeito da maior seca da história foi a baixa do nível dos rios, o que dificultou a diluição do esgoto”, afirma a empresa.

Segundo a Sabesp, nas duas primeiras fases de despoluição do rio (1992-2008), “o esgoto gerado por uma
população de 8,5 milhões de pessoas passou a ser tratado”. Ainda segundo a nota, quando o programa teve início, o sistema de saneamento então existente era capaz de remover apenas 19% da carga orgânica dos esgotos gerados na Região Metropolitana de São Paulo. “Todo o resto ia para os rios da Bacia do Tietê. Hoje, 87% do esgoto são coletados e 68%, tratados. A terceira fase do Projeto Tietê foi iniciada em 2010 e está em andamento.”

A empresa afirmou também que uma das principais obras do projeto é a ampliação da Estação de Tratamento de Esgotos (ETE) Barueri e prometeu a entrega da primeira fase para fevereiro do ano que vem. Segundo a Sabesp, a ETE terá capacidade para tratar 11 mil litros por segundo, contra os 9.500 atuais. A segunda e última fase da ampliação foi prometida para maio, ampliando a capacidade de tratamento para 16.000 litros.

Guarulhos. Já o Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae) de Guarulhos disse que está em andamento uma parceria público-privada para atingir 100% de tratamento do esgoto da cidade.

“De janeiro de 2001 a abril de 2016 foram executados 493,13 quilômetros de redes coletoras e 60.166 ligações de esgoto. Além disso, o Saae entregou os subsistemas de tratamento São João, Bonsucesso e Várzea do Palácio – cujas Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs) entraram em operação, respectivamente, em 2010, 2011 e 2014. Juntos, os três subsistemas respondem por 50% dos esgotos do município; ou seja, a capacidade total instalada é de 50%. O índice de tratamento equivalente a essa capacidade será atingido ao longo do tempo, com o processo de interligação dos sistemas domiciliares ao sistema público. Para tratar 100% dos esgotos, são necessárias obras complementares. Para a realização das quais o Saae estabeleceu em 2014 uma parceria com a iniciativa privada, na modalidade concessão administrativa (PPP)”, disse a empresa por meio de nota, sem informar exatamente quanto é tratado hoje.

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