Fezes de antas podem regenerar florestas degradadas na Amazônia, revela estudo

Fezes de antas podem regenerar florestas degradadas na Amazônia, revela estudo

Pesquisa feita em áreas afetadas por queimadas mostra que o maior mamífero terrestre da América do Sul tem uma predileção por florestas abertas, ajudando a dispersar sementes que podem colaborar com a recuperação da mata no futuro

Giovana Girardi

28 de fevereiro de 2019 | 17h15

Em uma fazenda no norte do Mato Grosso, em área de transição entre o Cerrado e a Amazônia, um pesquisador caminha olhando para o chão. Toda vez que acha um montinho, ele se abaixa e coleta. O alvo são fezes de anta, mais de uma centena de amostras, que depois seriam lavadas e peneiradas em busca de sementes.

Estudo revela preferência de antas por áreas florestais mais abertas, o que pode ajudar na recuperação dessas áreas. Crédito: Raimundo Quintino / Ipam

A cena foi acompanhada pela reportagem do Estado em agosto de 2016 (confira na reportagem Um laboratório a céu aberto das transformações da Amazônia). A ideia dos pesquisadores ligados ao Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) era checar o papel das antas na regeneração de florestas. O animal perambula pela região em trilhas abertas por humanos e parecia ter também uma predileção por áreas degradadas por fogo.

Após a análise de 163 amostras de cocô, das quais foram retiradas 130 mil sementes de 24 espécies, e a observação de imagens captadas por armadilhas fotográficas espalhadas em 150 hectares da fazenda, os pesquisadores concluíram que de fato as antas se movimentam mais por áreas de vegetação menos densa e podem colaborar com a recuperação dessas áreas. Os resultados acabam de ser publicados na revista Biotropica.

O papel de dispersor de sementes do maior herbívoro da América do Sul já era bem conhecido, mas essa preferência pelas áreas degradadas, não. “Achamos que esse é um diferencial das antas. Elas têm a capacidade de frequentar várias áreas e transpor longas distâncias. Podem ir de uma matriz (mais íntegra, que guarda as características para a manutenção do ecossistema) para um pasto ou uma floresta degradada e levam sementes grandes”, explica o biólogo Lucas Paolucci, da Universidade Federal de Lavras e primeiro autor do trabalho.

“Macacos de grande porte também são bons dispersores, talvez até espalhem mais sementes, mas eles precisam das árvores, então não passam de uma área para outra”, complementa o pesquisador.

O trabalho foi realizado na fazenda Tanguro, da Amaggi (empresa da família do ex-ministro da Agricultura Blairo Maggi), onde o Ipam realiza desde 2004 experimentos com fogo para investigar quanto a floresta é resiliente a queimadas e qual é o impacto desses incêndios na temperatura, na umidade do ar, no fluxo de água e de gases de efeito estufa, no regime de chuvas e na biodiversidade com as mudanças na paisagem.

Lá há algumas parcelas de mata que são queimadas anualmente pelos pesquisadores e outras em que isso ocorre a cada três anos. As coletas de fezes ocorreram nas duas áreas e também em pontos de floresta preservada. Os cientistas, então, estimaram a dispersão de sementes pelas antas em cada uma. O resultado foi, respectivamente, de 11.057 sementes por hectare/ano; 8.587 sementes por ha/ano; e 2.950 sementes por ha/ano.

Imagens das câmeras também sugerem que as antas frequentam áreas queimadas duas vezes mais que as florestas fechadas, sem distúrbio. “As antas realmente preferem as áreas abertas para deixar suas fezes. Imaginamos que talvez porque ali as plantas sejam mais palatáveis e o local é mais quente e iluminado. Isso mostra que elas podem contribuir de forma decisiva na regeneração natural da floresta degradada”, afirma Paolucci.

A relação entre a quantidade de fezes e o surgimento de novas plantas, porém, ainda não foi medido. O impacto desse comportamento deve ser objeto de um novo estudo da equipe liderada por Paulo Brando, do Centro de Pesquisa Woods Hole, nos EUA. O que o estudo atual já mostrou é que, entre as sementes dispersadas pelas antas, há uma predominância das chamadas espécies de clímax – quando a floresta atinge seu estágio mais maduro.

É o caso da goiaba-de-anta (Bellucia grossularioides), do jatobá (Hymenaea courbaril), da mamorana-de-terra-firme (Eritheca globosa), do murici-da-mata (Bysonima crispa) e da fava-orelha (Enterolobium schomburgkii).

A presença delas ocorre numa proporção de cerca de 120 vezes a mais que as espécies pioneiras – as primeiras a nascerem num processo de regeneração. “Isso é importante porque uma das limitações para a recuperação de florestas é justamente a dificuldade de recompor as espécies de clímax, que não costumam chegar às áreas mais degradadas”, explica o pesquisador.

Além disso, foram encontradas nas fezes coletadas sementes de quatro espécies nativas que não são registradas nos 150 hectares da área de estudo, o que “sugere o potencial delas de aumentar a diversidade de sementes em florestas degradadas”, escrevem os autores no trabalho.

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