Estudo revela o dobro de aves em risco de extinção

Estudo revela o dobro de aves em risco de extinção

Levantamento usou novas tecnologias de mapeamento geoespacial para investigar o risco a 586 espécies de áreas sensíveis, como a Mata Atlântica; pela Lista Vermelha, 108 estavam em algum grau de risco, mas o trabalho classificou assim pelo menos 210. Veja fotos das aves

Giovana Girardi

10 Novembro 2016 | 16h52

Tecnologias geoespaciais aplicadas para avaliar a degradação de habitats e, consequentemente o risco de extinção de espécies, revelam que mais aves estão ameaçadas do que se considerava anteriormente pela Lista Vermelha de Espécies, elaborada pela União Internacional para a Conservação da Natureza).

Rabo-branco-mirim (Phaethornis idaliae) é uma das espécies avaliadas no estudo. Crédito: Luiz Freire

Rabo-branco-mirim (Phaethornis idaliae) é uma das espécies avaliadas no estudo. Crédito: Luiz Freire

O levantamento da IUCN é hoje considerado a fonte de referência científica em todo o mundo sobre riscos à biodiversidade e é usado para embasar políticas de conservação, mas pode não estar mostrando o cenário mais atualizado das ameaças.

É o que pondera um grupo de pesquisadores da Universidade Duke, dos Estados Unidos, e do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), de Nazaré Paulista (SP), que publicou nesta quinta-feira (10) um estudo na revista Science Advances.

“Infelizmente, dados geoespaciais importante não entram explicitamente ou eficientemente neste processo”, escrevem os autores na publicação. Foi isso que eles buscaram incorporar. Usando sensoriamento remoto de fina escala, os pesquisadores, liderados por Stuart Pimm, da Escola de Ambiente da Duke, conseguiram observar de modo mais sofisticado desmatamentos e mudanças na cobertura do solo de áreas florestais.

“Por melhor que a Lista Vermelha seja, seu processo de avaliação é de 25 anos e não faz uso dos avanços nas tecnologias geoespaciais que colocaram ferramentas poderosas nas nossas mãos”, comentou Pimm, em comunicado à imprensa.

Eles avaliaram 586 aves florestais endêmicas de seis dos mais ameaçados e biodiversos locais do planeta: a Mata Atlântica no Brasil, a América Central, os Andes ocidentais da Colômbia, Madagascar, Sumatra e Sudeste Asiático. Pela Lista Vermelha, 18% (ou 108) dessas espécies estão ameaçadas (sendo 15 criticamente em perigo, 29 em perigo e 64 são vulneráveis).

Com as imagens de satélite, o novo trabalho pôde calcular melhor a real área de ocorrência das espécies, concluindo que pelo menos 210 delas deveriam estar em uma categoria de risco maior do que a IUCN as coloca porque seu habitat está menor do que se imaginava. Do total, 189 hoje são classificadas como simplesmente não ameaçadas.

O trabalho também avaliou a situação de aves que deveriam estar se recuperando em áreas protegidas e concluiu que menos de 10% de seus habitats estavam realmente protegidos.

Mata Atlântica. Para a Mata Atlântica, a pesquisa identificamos 27 espécies de aves que potencialmente deveriam estar em uma categoria de ameaça maior do que elas estão. Dessas 23 são atualmente listadas como não ameaçadas, mas, de acordo com os pesquisadores, 18 delas deveriam ser classificadas como vulneráveis e 5 como em perigo.

Eles destacam um passarinho conhecido como “saudade de asa-cinza” (T. condita), endêmico do Estado. Hoje ele é classificado como vulnerável, mas, para os pesquisadores, deveria estar como criticamente ameaçado, por conta de seu habitat fragmentado, pequena população e vulnerabilidade às mudanças climáticas. “É uma das aves menos conhecidas e raramente observadas”, escrevem.

O pesquisador Clinton Jenkins, ligado ao IPÊ, citou também o chororó-cinzento (Cercomacra brasiliana). “É endêmico da Mata Atlântica e tinha originalmente uma área de ocorrência de 100 mil km². Descobrimos que mais de 97% dessa área não tem florestas adequadas para a espécie. Ainda assim, ela não aparecia listada como em risco”, disse ao Estado.

“Nossa sugestão é que este estudo seja visto como uma forma de melhorar a Lista Vermelha para que possamos ter um entendimento mais acurado das ameaçadas. Não quer dizer que ela estivesse errada ou com falhas quando foi desenhada. Com certeza usou as melhores ferramentas e a ciência disponível na época, mas não se atualizou nas últimas duas décadas”, completou.

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