Estudo analisa riscos do aquecimento global ao litoral do Brasil e alerta para falta de dados

Estudo analisa riscos do aquecimento global ao litoral do Brasil e alerta para falta de dados

Relatório aponta que cidades entre RJ e RN estão entre as mais vulneráveis e alerta que ainda não conhecemos bem como podemos ser afetados; governo federal lança programa de gerenciamento costeiro para aumentar conhecimento

Giovana Girardi

05 Junho 2017 | 06h00

Forte ressaca em 2016 em Santos atingiu canais e bloqueou ruas. Crédito: Mauricio de Souza

Com 60% da população vivendo em áreas costeiras, o Brasil pode enfrentar sérios problemas nas próximas décadas com o aumento do nível do mar e outros eventos decorrentes das mudanças climáticas, como chuvas extremas, tempestades, excesso de ventos e, por consequência, aumento de ressacas.

Relatório que será divulgado nesta segunda, 5, Dia Mundial do Meio Ambiente, pelo Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC), aponta que cidades na faixa litorânea entre Rio de Janeiro e Rio Grande do Norte estão entre as mais vulneráveis a todos os tipos de perigos, como erosão, ressacas, enchentes, temperaturas extremas, infestação de insetos e pragas. Cidades do Sul, de São Paulo e do Ceará também preocupam.

“Todas essas localidades se enquadram nas classes de vulnerabilidade alta ou muito alta, possuem históricos recorrentes de inundações, enxurradas ou alagamentos altamente impactantes para a sociedade e podem se tornar ainda mais vulneráveis no futuro”, afirma o trabalho, que compila os últimos estudos sobre o tema e traz o estado da arte sobre as vulnerabilidades da área costeira.

A análise levou em conta um conjunto de índices que apontam a vulnerabilidade de todos os municípios brasileiros e o risco de ocorrência de quatro tipos de desastres: enchentes/enchentes-rela?mpago, secas/estiagens, escorregamentos e elevac?a?o do nível médio do mar. Segundo o trabalho, só na cidade do Rio há mais de 2 milhões de pessoas expostas a escorregamentos. São 800 mil expostas a secas e estiagens na capital fluminense e outras 650 mil em Fortaleza.

Segundo o relatório “Impacto, vulnerabilidade e adaptação das cidades costeiras brasileiras às mudanças climáticas”, se o aquecimento do planeta for limitado a 2°C até 2080 (a meta do Acordo de Paris é ficar bem abaixo disso até 2100), ainda assim pelo menos 5% da população das áreas costeiras poderia ser afetada. Se o aumento da temperatura for maior, para 4°C, pelo menos 8% seriam afetadas.

Um outro trabalho estima, para as 22 maiores cidades costeiras da América Latina, que inundações promovidas por um aumento do nível do mar de até 20 centímetros até 2050, trariam prejuízos de US$ 940 milhões; já para uma elevação de 40 centímetros, os custos saltariam para US$ 1,2 bilhão.

Faltam dados. Um outro alerta do trabalho é ainda mais contundente. Faltam estudos e dados históricos que permitam estimar com mais precisão como o País pode ser afetado pelas alterações provocadas pelo aquecimento global e como podemos nos adaptar a elas.

Os problemas, no entanto, se fazem cada vez mais presentes, como as erosões e encolhimentos de praias vistos em vários cantos da costa e as ressacas intensas (como as que atingiram Santos e Rio no ano passado).

“Observamos eventos já acontecendo e os governos estão sendo pegos desprevenidos. A adaptação tem de ser reforçada, mas precisamos saber a que adaptar, qual é o problema que tem de enfrentar”, explica José Antonio Marengo, coordenador geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e um dos organizadores do relatório.

Não há, por exemplo, para toda a costa brasileira, um valor médio de quanto já subiu o nível do mar, em parte porque não há uma base de dados históricos de qual era o nível do mar em todos os pontos costeiros em diferentes momento.

“Outro problema é que é uma área muito grande, então os impactos vão ocorrer de diferentes formas”, afirma Suzana Kahn, presidente do Comitê Científico do PBMC.

Para algumas áreas, no entanto, há bastante informação e as projeções são mais seguras, dando um indicativo do tamanho do problema para todo o Brasil. É o caso de Santos, que têm o maior porto da América Latina. A cidade no litoral sul de São Paulo tem testemunhado um aumento do nível do mar em média de 1,2 mm por ano desde a década de 1940. E as ondas também passaram de cerca de 1 metro, em 1957, para 1,3 m, em 2002, período em que houve também aumento da frequência de ressacas.

Projeções considerando o valor venal de imóveis à beira-mar na cidade apontam que os prejuízos até 2100, podem ser de R$ 870 milhões se o nível do mar subir até 36 cm, e superar R$ 1 bilhão de chegar a 45 cm. A administração da cidade se envolveu na realização dos estudos e é uma das poucas do Brasil que já se prepara para o avanço do mar.

Em Recife, o ni?vel do mar entre 1946 e 1988 aumentou 5,6 mm/ano, num total de 0,24 m em 42 anos. A erosa?o costeira e a ocupac?a?o da beira da praia provocaram uma reduc?a?o da linha de praia em mais de 20 m na Praia de Boa Viagem, a a?rea da orla mais valorizada da cidade.

Governo federal lança projeto de gerenciamento costeiro
Durante as comemorações da semana do meio ambiente, será realizada, desta segunda até sexta-feira, em Nova York, na sede da ONU, a Conferência dos Oceanos. Para o evento, o governo federal deve anunciar como meta voluntária a execução de um programa de gerenciamento costeiro aliado à adaptação à mudança do clima.

Segundo Regis de Lima, gerente de zoneamento territorial do Ministério do Meio Ambiente, o Programa Nacional de Conservação da Linha de Costa Brasileira (Procosta) vai desenvolver uma metodologia única para toda a costa nacional que permita definir as bases para que se possa avaliar o nível do mar.

Isso porque hoje no Brasil se trabalha com dados díspares para medir profundidade, dependendo do ponto de vista que se avalia, se do continente (altimetria) ou se do oceano (batimetria). As duas medidas deveriam ser iguais, mas por diferenças de metodologia não são, e isso é fundamental para entender exatamente qual é o nível do mar hoje.

Outra questão não bem resolvida é a linha da costa – a junção entre o mar e o continente. Normalmente fala-se em 8 mil km, mas é muito maior, por causa das reentrâncias do território. Sem a linha exata para referência, não há como fazer projeções mais precisas sobre por onde o mar pode avançar ao longo das próximas décadas. Quais serão os perigos costeiros.

A partir desses dois dados, o terceiro projeto do Procosta será mapear os riscos e vulnerabilidades sociais, econômicas e ambientais da costa. O quarto é desenvolver um guia para obras costeiras.

“Hoje vivemos uma situação de pouco conhecimento. Se uma praia começa a erodir e o prefeito declara calamidade pública, o Ministério da Integração tem de liberar dinheiro sem saber direito como a situação vai se desenvolver. Sem projeto adequado, sem acurácia, estamos jogando dinheiro fora”, alerta Lima.

O mesmo, diz ele, vale para obras como de portos. “Temos de conhecer a linha de costa, projetar como ela estará nos próximos anos, para evitar construções em locais errados, recuar estruturas, proteger manguezais”, diz.

Durante a conferência, o Brasil vai se comprometer a elaborar e executar o Procosta até 2030.

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