Em meio ao coronavírus, desmatamento da Amazônia foi única coisa que não parou em março

Em meio ao coronavírus, desmatamento da Amazônia foi única coisa que não parou em março

Os alertas de desmatamento da Amazônia tiveram uma alta de 30% em março, ante o mesmo mês no ano passado, passando de 251,42 km² para 326,51 km²; no acumulado de oito meses, aumento foi de quase 100%

Giovana Girardi

10 de abril de 2020 | 18h29

Com a maior parte da economia parada no Brasil nas últimas semanas, como forma de evitar o colapso do sistema de saúde durante a pandemia de covid-19, uma atividade não se intimidou com o novo coronavírus. Os alertas de desmatamento da Amazônia tiveram uma alta de 30% no mês de março ante o mesmo mês no ano passado, passando de 251,42 km² para 326,51 km². Os dados são do sistema Deter do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que traz orientações para a fiscalização do Ibama sobre onde a motosserra está ativa.

O Deter não serve como dado definitivo do destamento porque, por ser uma análise mais rápida, às vezes é também meio míope, principalmente por causa da presença de nuvens, particularmente mais comuns nessa época do ano, quando ainda chove bastante na região. Mas o sistema é um indicativo do que vai deve ser revelado depois pelo Prodes, que traz o número oficial de quanto foi a devastação da floresta no período de agosto de um ano a julho do ano seguinte.

O fogo é usado para limpar áreas desmatadas para a colocação de pasto ou agricultura. Crédito: Araquém Alcântara / WWF-Brasil

No ano passado, foram os indicativos trazidos pelo Deter que mostraram que o primeiro ano da gestão Bolsonaro estava vendo uma retomada preocupante do desmatamento, o que acabou levando à queda do então diretor do Inpe, Ricardo Galvão. As queimadas que chamaram a atenção de todo o mundo em agosto revelaram que havia uma quantidade enorme de floresta previamente derrubada que naquela ocasião pegava em fogo. Em novembro, o Prodes bateu o martelo: o desmatamento havia subido quase 30% no ano.

Agora o Deter indica que no acumulado de 1º de agosto de ano passado a 31 de março deste ano a Amazônia  já perdeu 5.260 km².  O mesmo período de oito meses entre 2018 e 2019 somava 2.661 km² – alta de 97%. Como já vem ocorrendo nos últimos anos, o Pará lidera o desmatamento, com 42% da perda acumulada. O Estado teve uma alta expressiva em março, passando de 32,7 km² no ano passado para quase 121,8 km² neste ano, uma elevação de 272%.

Evolução dos alertas do Deter

Na quinta-feira, ao Estado, o governador do Pará, Helder Barbalho (MDB), disse que pediu apoio ao federal imediato. “É um volume assustador de desmatamento. Se não houver uma medida drástica e imediata de fiscalização, não haverá mais tempo. Vamos ter um ano de 2020 pior que o ano passado”, disse.

Na ocasião, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, alegou o que já vinha dizendo desde o ano passado, que os dados do Deter são apenas uma referência. Até hoje ele não apresentou aos técnicos do Inpe as supostas inconsistências que ele diz ter encontrado.

Com o início da temporada seca a partir do fim de maio, em geral o corte raso da floresta cresce ainda mais. A não ser que a fiscalização se torne muito mais efetiva, nos próximos meses, a taxa anual deve ser ainda pior que a do ano passado.

 

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