Em meio à polarização, entidades do agronegócio abandonam coalizão com ambientalistas

Em meio à polarização, entidades do agronegócio abandonam coalizão com ambientalistas

A Coalizão Brasil, Clima, Florestas e Agricultura perdeu entidades-chave do agronegócio, como a Sociedade Rural Brasileira (SRB), a Abiove e a Unica; 'Estado' apurou que saída ocorreu a pedido do ministro Ricardo Salles, que disse ver 'incoerência' no grupo

Giovana Girardi

03 de dezembro de 2019 | 17h54

Em meio ao aumento da polarização entre ruralistas e ambientalistas no País, a entidade criada justamente para tentar encontrar consensos entre as duas áreas sofreu importantes baixas nesta semana.

A Coalizão Brasil, Clima, Florestas e Agricultura, que reúne mais de 200 membros do setor produtivo, da academia e da sociedade civil, perdeu seis entidades-chave do agronegócio brasileiro como a Sociedade Rural Brasileira (SRB), a Associação Brasileira Indústrias Óleos Vegetais (Abiove) e União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica).

Salles, quando era secretário de Meio Ambiente de São Paulo, com a então deputada Tereza Cristina e o governador Geraldo Alckmin na posse da direção da SRB em março de 2017. Secretaria de Agricultura de São Paulo

Segundo André Guimarães, um dos facilitadores da coalizão e diretor executivo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), a saída foi definida nesta segunda-feira em reunião do conselho da Coalizão, e a explicação dada pelas entidades é que elas veem “assimetrias” entre a forma como elas agem e como a Coalizão age.

“Vejo isso como um reflexo da polarização que está do lado de fora. A Coalizão influencia a sociedade, mas também é influenciada por ela”, disse Guimarães no início da tarde desta terça-feira em plenária da Coalizão. Ele afirmou,

Conforme o Estado apurou com ao menos duas pessoas, porém, a saída das entidades teria ocorrido para atender a um pedido feito pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, insatisfeito com o posicionamento da Coalizão, que chegou a fazer neste ano algumas manifestações duras sobre como o aumento das queimadas e do desmatamento da Amazônia prejudica a imagem do agronegócio.

Salles já foi diretor da SRB e recebeu apoio da entidade quando foi indicado ao ministério. Ao Estado, ele não confirmou nem negou a ligação com a saída das representantes do agro. “Eu comentei a incoerência da Coalizão se dizer representante do agro e ao mesmo tempo esforçar-se para falar mal do agronegócio brasileiro no exterior”, disse.

Quando questionado sobre exemplos disso, respondeu: “Basta entrar no site do Observatório do Clima. Lá tem inúmeros exemplos”.

O Observatório do Clima, rede de ONGs ambientalistas, é um dos membros da Coalizão e tem posicionamentos próprios e independentes. A reportagem pontuou isso para o ministro, mas não obteve mais respostas dele. Salles está em Madri chefiando a delegação brasileira na Conferência do Clima da ONU.

A SRB, a Abiove e a Unica foram procuradas pela reportagem, mas não se manifestaram até a publicação deste texto.

Guimarães afirmou que a Coalizão continua funcionando normalmente e que encara as saídas de modo natural. “Alguns saem, outros entram. A Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne) aderiu, a Marfrig também. A JBS está voltando. Mas o mais importante de tudo é que a Coalizão hoje é imprescindível”, disse.

Luiz Cornacchioni, outro cofacilitador da Coalizão e diretor executivo da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) – que também representa várias entidades do setor – disse que elas continuam a bordo da estratégia de tentar promover consensos.

“Não temos medo de protagonismo. E essa é a casa do protagonismo, do exercício de consensos. Parte gigante do agronegócio está com a gente. Nossa função é manter as pontes em pé e nosso intuito é construir um país sustentável”, complementou Marcello Brito, presidente da Abag.

Brito e Guimarães têm publicado vários artigos na mídia ecoando a campanha “Seja Legal com a Amazônia”, lançada pela Coalizão neste ano. Há duas semanas, quando foram divulgados os dados que mostraram alta de 29,5% no desmatamento da Amazônia entre agosto do ano passado e julho deste ano, eles escreveram no Estado: “A destruição ambiental não interessa à sociedade. É importante deixar claro que o setor produtivo, a academia e as organizações ambientais estão juntos na certeza de que a região precisa de segurança e respeito às leis.”

Contratempos

A Coalizão nasceu em 2015, às vésperas da Conferência do Clima que estabeleceu o Acordo de Paris para o combate às mudanças climáticas. Seguindo uma onda de relativo equilíbrio que reinava naquela época entre as forças do agronegócio e o movimento ambientalista – o que permitiu que o País estabelecesse metas de redução de emissões de gases de efeito estufa nos vários setores da sociedade – o grupo foi criado para promover o diálogo.

Logo ficou claro que chegar a consensos não era tão simples assim e houve rumores de que o grupo poderia ser desfeito. Ambientalistas pediam posicionamentos mais duros e entidades do agro recuavam.

Mesmo assim, o grupo chegou a fazer manifestações importantes pedindo o cumprimento do Código Florestal, a manutenção do zoneamento da cana-de-açúcar, que impedia o plantio da cultura na Amazônia, e a moratória da soja. Neste ano, lançou a campanha Seja Legal com a Amazônia, de combate à ilegalidade na região e o “roubo de terras públicas”.

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