Eleição de Trump pode abalar combate ao aquecimento global

Eleição de Trump pode abalar combate ao aquecimento global

Ele já chamou o problema de embuste e disse que abandonaria o Acordo de Paris para o combate às mudanças climáticas. Entenda como na prática ele pode afetar os compromissos assumidos pelos países para reduzir suas emissões de gases de efeito estufa e colocar o mundo num rumo perigoso de aquecimento

Giovana Girardi

09 Novembro 2016 | 11h50

Negacionista declarado do aquecimento global, o qual diz ser um embuste, o candidato Donald Trump afirmou em campanha que “cancelaria” o Acordo de Paris. Agora eleito, como de fato o presidente Trump vai agir sobre a questão climática?

Trump em discurso após a vitória: Washington Post / Ricky Carioti

Trump em discurso após a vitória: Washington Post / Ricky Carioti

É a pergunta que ecoa hoje nos corredores da Conferência do Clima da ONU que está sendo realizada em Marrakesh. É a dúvida que martela na cabeça de todas as pessoas que entendem o tamanho da ameaça que as mudanças climáticas representam para a humanidade em seus mais diferentes aspectos – econômico, social, ambiental – e sabem o quanto ter os Estados Unidos embarcados na luta contra o problema é imprescindível.

O país é hoje o segundo maior emissor de gases de efeito estufa e, historicamente, foi o que mais contribuiu para o problema, que já é sentido inclusive pelos próprios americanos, que vÊm sofrendo com enchentes e secas históricas.

Sim, Trump de fato pode tirar os Estados Unidos do compromisso fechado por 196 países de conter o aquecimento global a menos de 2°C até o final do século. Mas não imediatamente. Pelas cláusulas do Acordo de Paris, uma vez que ele entrou em vigor (o que ocorreu no último dia 4), nenhum país que o ratificou pode se retirar com menos de um ano de permanência. E mesmo se o fizer, a renúncia só terá efeito três anos depois. Ou seja, os Estados Unidos estão presos ao acordo pelo menos até a próxima eleição.

Foi esse um dos motivos pelos quais Barack Obama se apressou para ratificar o documento em tempo recorde, ainda em seu mandato à frente da Casa Branca, o que abriu o caminho para que mais 102 outros países o fizessem também.

Na prática, porém, nada impede que Trump não cumpra as metas que foram estabelecidas por Obama, de reduzir entre 26% e 28% das emissões até 2025, com base nos valores de 2005. O Acordo de Paris, assim como ocorreu com o Protocolo de Kyoto (o tratado climático anterior, que só incluía países ricos), não prevê sanções para quem não agir de acordo com seus compromissos. E o temor é sobre como isso pode impactar o humor dos outros países.

O cenário lembra o que ocorreu com o Protocolo de Kyoto. Os Estados Unidos, comandados então pelo democrata Bill Clinton, concordaram com o tratado fechado em 1997. Mas na gestão seguinte, George W. Bush não o ratificou, o que acabou minando sua eficácia. Nos anos que se seguiram, a resistência do americano em agir contra o aquecimento global acabou afastando também a adesão de outras nações, em especial a China.

Ano após ano, as conferências do clima travaram no mantra: “enquanto eles não fizerem, eu não faço também”. E foi apenas quando os dois países resolveram anunciar que estavam juntos comprometidos a combater o problema (em novembro de 2014 Obama e Xi Jinping lançaram conjuntamente suas metas para redução de gases de efeito estufa), é que começou a se acreditar que se desenhava um momento favorável que poderia levar ao Acordo de Paris, um ano depois.

Reação de outros países. Há o temor de que a China possa recuar também se Trump o fizer, mas não quer dizer que necessariamente isso vai ocorrer. O país é um dos que já está agindo mais rapidamente para mudar sua matriz energética. O consumo de carvão no país vem caindo há três anos, em parte porque houve uma redução de sua taxa de crescimento, mas principalmente porque o país está expandindo as fontes alternativas e aumentando sua eficiência energética.

De acordo com o relatório divulgado pelo Instituto de Análise Econômica e Financeira de Energia (Ieefa) no último sábado (5), as instalações de energia solar no país triplicaram nos últimos dois anos (até junho, sendo novos 20 gigawatts nos primeiros seis meses do ano) e há expectativa de dobrar novamente até o final de 2018.

Na semana passada, o principal negociador climático da China, Xie Zhenhua, se manifestou contrário aos planos de Trump de abandonar o Acordo de Paris. Questionado por jornalistas sobre como a China se relacionaria com uma então eventual administração Trump na questão climática, ele disse: “Se eles resistem a esta tendência (de crescimento econômico com proteção ambiental), eu não acho que eles terão apoio de seu povo, e o progresso econômico e social de seu país também será afetado”, disse Zhenhua, conforme noticiou o jornal inglês The Guardian.

“Acredito que um líder político sábio deve assumir políticas que estejam em conformidade com as tendências globais”, complementou.

Logo após sair o resultado da eleição, líderes europeus também se manifestaram contra uma eventual saída dos Estados Unidos. Os presidentes da Comissão Europeia e do Conselho da União Europeia enviaram uma carta a Trump em que pedem que o país e o bloco continuem atuando juntos em questões internacionais delicadas, como migrações e mudanças climáticas.

“Felizmente, a parceria estratégica entre União Europeia e Estados Unidos é ampla e profunda – desde os nossos esforços conjuntos para reforçar a segurança energética e lidar com as alterações climáticas, passando por fazer face às ameaças à segurança nos vizinhanças orientais e meridionais da Europa, até as negociações do Acordo Transatlântico – não devemos poupar esforços para assegurar que os laços que nos unem continuem fortes e duradouros”, escreveram os líderes.

Há dúvidas também sobre como países que dependem de petróleo e carvão e que hoje já são mais resistentes a medidas rumo a uma economia de baixo carbono vão se comportar. Na Rússia, por exemplo, o resultado da eleição foi aplaudido no parlamento. Se os Estados Unidos pararem de agir no combate às mudanças climáticas, o país talvez se sinta à vontade para não fazer nada também. Com isso, o esforço para reduzir de modo significativo as emissões de gases de efeito estuda pode ficar bastante comprometido.

Apelo. Na Conferência do Clima, em Marrakesh, organizações da sociedade civil fizeram um apelo para que os Estados Unidos não abandonem os esforços internacionais, mas também tentaram contemporizar o impacto que isso pode ter sobre os demais países.

“Donald Trump está para se tornar uma das pessoas mais poderosas do mundo, mas ele não pode mudar as leis da física. Ele tem de reconhecer a realidade da mudança do clima porque ele tem uma responsabilidade diferente agora de proteger a saúde e o bem-estar das pessoas”, afirmou o norte-americano Alden Meyer, da União dos Cientistas Preocupados.

Ativista chora durante protesto contra o presidente eleito Donald Trump na Conferência do Clima em Marrakesh. Crédito:  Mosa'ab Elshamy / AP Photo

Ativista chora durante protesto contra o presidente eleito Donald Trump na Conferência do Clima em Marrakesh. Crédito: Mosa’ab Elshamy / AP Photo

“Espero que o Trump que vai assumir a presidência seja diferente do Trump candidato. Que ele seja mais responsável como se mostrou no pronunciamento desta manhã e que ele cresça”, complementou.

Ele opinou que talvez Trump possa atrasar ações que já vinham sendo tomadas por Obama para descarbonizar a economia, mas não deve pará-las. “Houve apoio dos dois partidos para investimento em energia limpa, assim como em impulsionar os investimentos em resiliência climática. Os planos de infraestrutura que ele apresentou na campanha são oportunidades para injetar um novo momentum a essas iniciativas anteriores.”

A diplomata costa-riquenha Christiana Figueres, que liderou a Convenção do Clima da ONU até o começo deste ano, optou pela racionalidade. “Além das políticas nacionais, a modernização do sistema de energia e da infraestrutura básica é uma coisa para a economia, para os empregos e para o crescimento dos Estados Unidos”, afirmou.

“Agora que a campanha eleitoral já passou e as realidades da liderança se instalam, espero que Trump perceba que a mudança climática é uma ameaça para o seu povo e para países inteiros que partilham mares com os EUA, incluindo o meu próprio. O Acordo de Paris sobre as alterações climáticas tornou-se lei tão rapidamente porque há um interesse nacional significativo de cada país em buscar uma ação climática agressiva e esse fato não muda com as eleições americanas”, declarou Hilda Heine, presidente das Ilhas Marshall, um dos países que podem ser afetados mais rapidamente com o aumento do nível do mar.

Do Brasil, o secretário executivo do Observatório do Clima, Carlos Rittl, defendeu que a agenda climática deixou de depender de apenas um país, como no passado. “O Acordo de Paris já tem 102 ratificações, além da americana, e esses países não vão esperar pelos EUA para agir, porque isso é interesse deles. Uma economia inteira baseada em energias renováveis está em movimento no mundo, e representa uma fatia crescente do PIB e da geração de empregos nos próprios EUA. As convicções pessoais de Trump terão, em alguma medida, de se enquadrar a essa realidade”, afirmou por meio de nota à imprensa.

Os próximos dias da Conferência do Clima vão dar o tom do que realmente vai acontecer.

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