Desmatamento na Amazônia, mesmo com pandemia de coronavírus, continua em disparada

Desmatamento na Amazônia, mesmo com pandemia de coronavírus, continua em disparada

De acordo com o Deter, do Inpe, de janeiro a abril deste ano já foram perdidos 1.202 km² de florestas, valor 55% superior ao observado no mesmo período do ano passado, de 773 km². Desde agosto, a alta já é de 94%

Giovana Girardi

08 de maio de 2020 | 11h08

O processo de desmatamento da Amazônia parece seguir alheio ao caos nos sistemas de saúde dos Estados da região com a pandemia do novo coronavírus. Os alertas de corte raso de floresta feitos pelo sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), voltaram a apresentar alta no mês de abril, em relação ao mesmo mês do ano passado. Foram derrubados 405,61 km² de floresta entre 1º e 30 de abril, ante 247,39 km² no mesmo período de 2019, uma alta de 64%.

Em 2019, a motosserra começou a cantar mais alto a partir de maio e isso se seguiu pelos dois meses seguintes, o que fez com que a taxa de desmatamento oficial da Amazônia (entre 1º de agosto de 2018 a 31 de julho de 2019) fosse a mais alta em dez anos, em uma alta de quase 30% em relação ao ano anterior. Pelo ritmo atual dos cortes, que se mantêm intensos desde agosto, a expectativa é que a taxa oficial seja ainda mais alta neste ano.

De 1º de agosto a 30 de abril, foram desmatados 5.666 km², alta de 94% em relação ao período anterior. Crédito: Deter / Inpe

De acordo com o Deter, de janeiro a abril deste ano já foram perdidos 1.202 km² de florestas, valor 55% superior ao observado no mesmo período do ano passado, de 773 km². Abril dá sequência a um recorde batido no primeiro trimestre de 2020 – que trouxe no consolidado o desmatamento mais alto dos últimos dez anos. Já se forem observados os dados desde 1º de agosto, quando começa a ser considerado o ano do desmatamento, a intesificação do processo de desmatamento fica ainda mais evidente.

O corte raso atingiu até 30 de abril 5.666 km² – valor impulsionado principalmente pelos meses de agosto e setembro do ano passado, que registraram um desmate intenso. Entre agosto de 2018 e abril de 2019, os alertas haviam indicado 2.914 km² desmatados. O aumento é de 94%.

O aumento ocorre ao mesmo tempo em que coordenadores de fiscalização do Ibama foram exonerados após uma operação que destruiu equipamentos de garimpeiros. O assunto foi um dos temas de conversa entre o presidente Jair Bolsonaro e o ex-ministro Sergio Moro flagrados na tela do celular do presidente. Também está em curso neste momento o debate para a aprovação no Congresso de uma medida provisória sobre regularização fundiária, a MP 910, apelidada de MPda grilagem.

O Deter é um sistema de alertas em tempo real, que servem para orientar a fiscalização em campo. Apesar de ser uma ferramenta ágil, ela não é extremamente precisa e acaba não vendo tudo, principalmente quando há muitas nuvens. Mas é um indicador do que está ocorrendo em campo. O Prodes, o outro sistema do Inpe que traz a taxa oficial do desmatamento, em geral confirma a tendência apontada pelo Deter.

No ano passado, foram os indicativos trazidos pelo Deter que mostraram que o primeiro ano da gestão Bolsonaro estava vendo uma retomada preocupante do desmatamento, o que acabou levando à queda do então diretor do Inpe, Ricardo Galvão. As queimadas que chamaram a atenção de todo o mundo em agosto revelaram que havia uma quantidade enorme de floresta previamente derrubada que naquela ocasião pegava em fogo. Em novembro, o Prodes bateu o martelo: o desmatamento havia subido quase 30% no ano.

“Há uma inegável trajetória de aumento no desmatamento novamente em 2020, com ritmo ainda mais acelerado do que 2019. A nova taxa oficial dos dados do Prodes deverá ultrapassar, e muito, os 10 mil km² observados no ano passado”, afirmou, por meio de nota, Mauricio Voivodic, diretor executivo do WWF-Brasil. Ele afirma que, se na taxa anterior ainda havia uma parcela de responsabilidade do governo Temer (pelos meses de agosto a dezembro de 2018), “o novo e impressionante recorde que se avizinha é de exclusiva responsabilidade do governo Bolsonaro”.

Voivodic pontua ainda que a MP-910 agrava esse cenário. “Ao legalizar terras griladas, ou seja, desmatadas em anos anteriores, o governo dá  um claro sinal de leniência para os atuais desmatadores. Se aprovada, a MP910 será o grande motor por trás de futuros recordes de desmatamento”, diz.

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