Carrefour veta compra de carne de área desmatada na Amazônia

Carrefour veta compra de carne de área desmatada na Amazônia

Rede de supermercados assume um compromisso com o desmatamento zero, legal e ilegal da floresta, e vai implementar um sistema de monitoramento sobre frigoríficos e fazendas fornecedores de carne; acordo aumenta pressão sobre desmatadores, mas ainda há brechas que precisam ser resolvidas

Giovana Girardi

25 Agosto 2016 | 03h00

A rede de supermercados Carrefour anuncia nesta quinta-feira, 25, um compromisso com o desmatamento zero da Amazônia. Pelo acordo, alinhavado com a ONG ambientalista Greenpeace, a empresa afirma que vai monitorar sua rede de fornecedores de carne, em especial os que estão no bioma, a fim de bloquear a compra de fazendeiros que tenham colocado gado em área que teve a floresta cortada. O boicote é a qualquer tipo de desmatamento, ilegal e legal.

Gado em fazenda com garantia de origem do Carrefour

Gado em fazenda com garantia de origem do Carrefour

Com o anúncio, as três maiores redes varejistas de alimentos do Brasil (Pão de Açúcar e WallMart fizeram anúncios semelhantes nos últimos meses) passam a trabalhar com políticas de não vender carne proveniente de áreas desmatadas – com uma estimativa de atingir um público consumidor de 3 milhões de pessoas por dia.

As iniciativas reforçam um acordo firmado em 2009 entre o Ministério Público Federal, produtores de gado da Amazônia e os três maiores frigoríficos do Brasil (JBS, Marfrig e Minerva) com este mesmo objetivo. Historicamente, a abertura de novas áreas para a colocação de pasto foi e ainda é o principal motor do desmatamento da Amazônia. Uma ampla pesquisa realizada por pesquisadores independentes do Brasil e dos Estados Unidos no ano passado mostrou que este acordo de sete anos atrás foi uma política importante para ajudar a conter isso.

O trabalho alertou, porém, que ainda há problemas a serem resolvidos, como vazamentos (gente que desmata e consegue comercializar a carne vendendo para frigoríficos menores) e o fato de o monitoramento ainda não abranger a cadeia inteira. Os frigoríficos controlam apenas as fazendas de engorda, das quais eles compram diretamente o gado, mas não a procedência inicial dos bois. Há também produtores que fazem a “lavagem” do gado de áreas desmatadas, passando o rebanho “sujo” para fazendas que estão sob monitoramento.

Paralelamente, o Greenpeace fez uma consulta junto aos sete maiores supermercados do País – efetivamente onde a maioria das pessoas compra carne – para verificar se eles tinham alguma política para a aquisição da carne e se essa política continha mecanismos para garantir que o produto vendido estava livre de desmatamento, trabalho escravo e violação dos direitos indígenas.

Carne ao molho madeira. O relatório “Carne ao Molho Madeira”, lançado em novembro do ano passado, concluiu que nenhuma das redes (as três já citadas e também Cencosud, Grupo Pereira-Comper, Grupo DB e Yamada) atendeu à maioria dos critérios levantados. Na prática, o consumidor pouco consegue saber sobre a origem do produto que está sendo consumido. O WallMart foi o que ficou na melhor posição, com 62% dos pontos atingidos, por já estar, naquele momento, implantando um sistema de monitoramento, mas Carrefour teve apenas 23% e o Pão de Açúcar, 15%.

Na sequência do relatório, uma campanha, que envolveu ações de etiquetagem em lojas do Pão de Açúcar, mobilizou os consumidores, que se manifestaram pedindo uma mudança de comportamento. Com a entrada agora dos três supermercados no Compromisso Público da Pecuária, pelos menos outros 7 frigoríficos localizados no bioma ficam comprometidos com o desmatamento zero.

A estimativa do Greenpeace é que os 3 maiores frigoríficos representam cerca de 70% do abate na Amazônia. Com os novos 7, essa fatia sobe para cerca de 80%. Os problemas identificados anteriormente ainda precisam ser resolvidos, mas aumenta a pressão de mercado sobre eles.

Segundo Paulo Pianez, diretor de Sustentabilidade e Responsabilidade Social do Carrefour, a rede tinha, desde 2010, um compromisso com o desmatamento legal zero, quando foram identificados os fornecedores de carne em todo o País – eram cerca de 45 na época – e foi suspensa a compra daqueles localizados em áreas mais críticas de desmatamento. Mas não chegou a ser criado um sistema de monitoramento.

É isso que está sendo implementado a partir desta quinta. Pianez afirma que hoje a rede tem no total 22 fornecedores de carne, sendo sete deles na Amazônia. “Nós vamos mapear todas as fazendas que fornecem para o frigorífico, traçando um polígono que abrange a propriedade e seu entorno. Esse polígono vai, depois, ser cruzado com a base de dados do Prodes (sistema de monitoramento do desmatamento da Amazônia feito pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – Inpe). Se esse cruzamento sinalizar que pode haver um problema, vamos até a fazenda. Se detectarmos algo, suspendemos a compra até regularizar, podendo suspender o frigorífico”, disse com exclusividade ao Estado.

A expectativa é ter todo o processo concluído até o começo do ano que vem. Pianez reconhece, porém, que essa metodologia ainda não evita os vazamentos ou lavagens, uma vez que não permite um rastreamento completo, como ocorre com os alimentos vendidos no Carrefour com o selo “Garantia de Origem”. Algumas carnes já têm isso, mas elas representam menos de 10% do total comercializado do produto. “Nesses casos compramos o boi inteiro, do nascimento ao abate. É a única que sabemos de fato de onde vem”, afirmou.

Ele ressaltou, no entanto, que a empresa vai buscar formas de ampliar esse sistema. “Temos consciência que esse compromisso com o desmatamento zero é um primeiro passo importante, mas não suficiente. Sabemos que tem buracos para serem controlados. Nosso próximo desafio é descobrir como dar esses próximos passos. A gente acha que pode começar a testar modelos.”

Caminho para transformação. Para Adriana Charoux, da campanha Amazônia, do Greenpeace, que coordenou os trabalhos do “Carne ao Molho Madeira”, é um cenário que está passando por mudanças. “Os supermercados podem ser agentes de transformação, porque são eles que têm possibilidade de impor mais pressão nos frigoríficos. Nosso entendimento é que quanto mais frigoríficos estiverem seguindo a regra, menores serão as chances de vazamentos.”

Mas a ambientalista lembra que boa parte do desmatamento que ainda ocorre na Amazônia, foram quase 6 mil km2 no ano passado, se dá por expansão ilegal da pecuária. “Só vai mudar quando todos os frigoríficos fizerem o controle dos fornecedores indiretos e não só dos diretos”, disse.

O pesquisador Paulo Barreto, do Instituto do Homem e Meio Ambiente (Imazon), que participou do estudo publicado na revista Conservation Letters sobre o acordo dos três grandes frigoríficos no ano passado, também defendeu que uma posição mais firme dos supermercados pode aumentar a pressão sobre os frigoríficos e mostrar que não haverá espaço para carne de desmatamento, mas reforçou que é preciso fechar os buracos. “Há frigoríficos no Tocantins, por exemplo, que não assinaram o acordo e que compram de áreas desmatadas no Pará. O Ministério Público vem tentando incluí-los, mas eles resistem.”

Para ele, o caminho para o controle de toda a cadeia está na chamada guia de transporte animal (GTA), que mostra de onde vem cada animal transportado de um lado para o outro. O Ministério da Agricultura, que controla essa informação, diz que ainda não tem condições de torná-la pública.

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