Brasil ‘causa’ no final da conferência do clima em Marrakesh

Brasil ‘causa’ no final da conferência do clima em Marrakesh

Delegação brasileira foi acusada de estar 'causando' no fechamento da cúpula da ONU para implementar o Acordo de Paris, mas acabou destravando tema que pode abrir o caminho para ajudar a aumentar ambição das metas dos países para o combate ao aquecimento do planeta

Giovana Girardi

19 Novembro 2016 | 11h31

MARRAKESH – Eram cerca de 23h (horário local) quando a plenária de negociadores que iria concluir os trabalhos de duas semanas da Conferência do Clima da ONU em Marrakesh voltou a se reunir.

A delegação brasileira se movimentava agitada, debatendo enfaticamente junto a mesa diretora, onde estavam o presidente da conferência, o ministro de Relações Exteriores do Marrocos, Salaheddine Mezouar, e a secretária-executiva da Convenção do Clima da ONU, Patricia Espinosa. A imprensa brasileira presente no evento ouviu ao longo do dia que o Brasil estava “causando”.

Embaixador José Antonio Marcondes de Carvalho é o chefe dos negociadores brasileiros

Embaixador José Antonio Marcondes de Carvalho é o chefe dos negociadores brasileiros

A cúpula tinha o objetivo de iniciar o processo de implementação do Acordo de Paris, que entrou em vigor no último dia 4 muito antes de ser definido exatamente como ele vai funcionar. Assim como ocorrem com leis, que precisam ser regulamentadas, o acordo também tem de ser, e alguns assuntos previstos no texto estavam sendo deixados de lado na definição de como vai se dar esse processo de implementação.

Para o Brasil, que liderava uma posição de países como Estados Unidos, União Europeia, países africanos e países-ilhas, uma questão importante era não deixar de fora uma discussão sobre tempos comuns das metas de cada país.

Antes de irem a Paris, as nações que fazem parte da Convenção do Clima foram convidadas a apresentar suas contribuições nacionais – quanto podem internamente fazer para reduzir suas emissões de gases de efeito estufa. Cada um fez isso de um jeito, com prazos diferentes para suas metas. O Brasil e os EUA, por exemplo, colocaram metas de redução já para 2025, outros países só para 2030. Para o Brasil, é interessante que haja revisão a cada cinco anos.

Para fins de comparação e também para aumento de ambição, é importante que todos estejam nos mesmos termos. Mas é preciso, antes, debater quais vão ser esses termos, ou, no jargão diplomático, os tais “tempos comuns”. O Acordo de Paris previa que isso deveria ser feito já na primeira reunião após sua entrada em vigor, mas a questão tinha sido deixada meio de lado.

É possível dizer que é apenas uma “tecnicalidade”, um debate quase maçante para qualquer pessoa “normal” que não esteja absolutamente enfronhada nessas negociações. Verdade. Ali dentro, porém, é o que define se alguma coisa vai para frente ou não. E os arranjos são acalorados.

Já na hora que parecia estar resolvida a questão – acomodou-se o tema em um grupo de discussões –, e Mezouar bateu o martelo do “então está decidido”, a Bolívia pediu a palavra. Não concordava que houvesse um avanço nesse ponto específico, mas não em outros. Índia apoiou. Brasil voltou a pedir mais cinco minutos para tentar chegar a um consenso.

Quase trinta se passaram. Ao voltar à mesa, Mezouar decretou que não havia consenso. Brasil voltou a apelar por mais uma tentativa. O negociador Felipe Ferreira pediu “humildemente” que houvesse mais cinco minutos para negociar. O Brasil chamou a Índia de lado, invocando a união do Basic – grupo que reúne Brasil, África do Sul, China e Índia e que costuma negociar junto. Deu certo, Índia capitulou e Bolívia não insistiu mais.

Após a decisão, o embaixador José Antonio Marcondes de Carvalho, chefe dos negociadores brasileiros, saiu da sala para fumar. A reportagem o encontrou sozinho sob o frio noturno típico de deserto do Marrocos. Ele estava visivelmente aliviado, e, enquanto contava o que tinha acabado de acontecer, ia sendo cumprimentado pelos delegados dos mais variados países que começavam a ir embora. Alguns mais efusivos, como um italiano, outros mais reverentes, como um japonês. Todos agradecendo o trabalho.

Não é a primeira vez que o Brasil destrava uma situação como essa, apesar de num primeiro momento parecer que o País estava é travando a negociação. Esse papel da diplomacia nacional é bem conhecido nas conferências do clima, mas é bem interessante de ver em ação.

Aida mais em uma conferência que era para ser a conferência da ação, mas, na prática, foi só o primeiro passo para criar os caminhos de como de fato vai ser essa ação.

* A repórter viajou a Marrakesh a convite do Instituto Clima e Sociedade