Aquecimento global tornou onda de calor na Europa mais provável, dizem cientistas

Aquecimento global tornou onda de calor na Europa mais provável, dizem cientistas

A probabilidade de ocorrência de ondas de calor como essa de agora ou até piores é mais de duas vezes maior hoje por causa das mudanças climáticas do que seria se a humanidade não tivesse alterado o clima

Giovana Girardi

27 Julho 2018 | 18h08

Homem descansa em banco de parque em Bruxelas sob temperatura de 35°C em 23 de julho. Crédito: Eric Vidal/Reuters

O verão com temperaturas extremas é notícia em tudo quanto é canto da Europa. Faz muito calor na Escandinávia – e também até no Ártico. O sul do continente está atipicamente úmido e tempestades na França deixaram estragos. Incêndios na Grécia deixaram ao menos 80 mortos. E o calor também está além do normal na América do Norte, no Japão, na Índia, no Paquistão. Diante deste quadro, aquela dúvida clássica volta a atormentar: isso tem algo a ver com o aquecimento global?

É uma pergunta que, em geral, recebe uma resposta ponderada de climatologistas: existe uma variabilidade natural do clima de um ano para o outro, mas as mudanças climáticas devem tornar os extremos como estes cada vez mais frequentes.

Frente à nova onda de calor, um grupo de pesquisadores europeus fez uma força-tarefa para buscar atribuições ao que está acontecendo especialmente no norte do continente. O resultados foram lançados na manhã desta sexta-feira, 27.

De acordo com as estimativas deles, a probabilidade de ocorrência de ondas de calor como essa de agora ou até piores é mais de duas vezes maior hoje por causa das mudanças climáticas do que seria se a humanidade não tivesse alterado o clima.

“A lógica que a mudança climática segue é inevitável – o mundo está se tornando mais quente, e ondas de calor como essa estão se tornando mais comuns”, disse Friederike Otto, vice-diretor do Instituto de Mudança Ambiental da Universidade de Oxford, em comunicado à imprensa.

Vista de termômetro marcando 39°C em jardim em Kamp-Lintfort, na Alemanha. Crédito: Sascha Steinbach / EFE

“O que antes era visto como um clima excepcionalmente quente se tornará comum. Em alguns casos, já aconteceu. É algo para o qual a sociedade pode e deve se preparar – mas também não há dúvida de que podemos e devemos restringir a crescente probabilidade de todos os tipos de eventos climáticos extremos, limitando as emissões de gases de efeito estufa da forma mais rápida possível”, complementou.

Registro histórico
Os cientistas chegaram a essa conclusão ao compararem as temperaturas atuais com registros históricos em sete estações meteorológicas no norte da Europa – duas na Finlândia, uma na Dinamarca, na Irlanda, na Holanda, na Noruega e na Suécia –, cujos dados podem ser acessados em tempo real. Essas estações também tem séries históricas digitalizadas remontam ao início do século 20, o que facilita a comparação.

Não é um trabalho que passou por revisão de pares, os próprios autores avisam, mas como as mudanças de probabilidade são baseadas nas observações do passado e em modelos climáticos, eles dizem estar confiantes de que se trata de um resultado robusto. O dado também é preliminar, visto que o auge do verão costuma se dar em agosto.

“Descobrimos que para a estação meteorológica no extremo norte, no Círculo Ártico, a atual onda de calor é extraordinária – sem precedentes no registro histórico”, afirmou Geert Jan van Oldenborgh, pesquisador do Instituto Real de Meteorologia da Holanda (KNMI), também no comunicado à imprensa.

Apesar de ser uma descoberta impressionante, diz, para a região é mais difícil quantificar o aumento da probabilidade de ocorrência de outros eventos como esse porque as temperaturas no verão variam muito de ano para ano no extremo norte.

“Mas para as três estações mais ao sul – Holanda, Dinamarca e Irlanda –, o registro histórico nos permite fazer esse cálculo e ele mostra que a mudança climática em geral aumentou mais de duas vezes as chances de ocorrência da atual onda de calor.”

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