Após um ano, impacto ambiental da lama da Samarco ainda é desconhecido

Após um ano, impacto ambiental da lama da Samarco ainda é desconhecido

Considerado o maior desastre ambiental do País, um ano depois ainda não se sabe exatamente o real impacto que teve para o ambiente a lama de rejeito de minérios que vazou com o rompimento da barragem da Samarco em Minas Gerais, nem quanto tempo vai levar para conseguir a total recuperação

Giovana Girardi

05 Novembro 2016 | 05h00

Considerado o maior desastre ambiental do País, o rompimento da barragem de rejeitos da Samarco em Mariana (MG) completa neste sábado, 5, um ano com uma incógnita: ainda não se sabe exatamente qual foi a extensão do impacto ambiental nem tampouco quanto tempo será necessário para haver uma recuperação total.

Apesar de esforços de órgãos como Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e Ibama e de universidades e pesquisadores independentes de iniciar coletas e análises logo depois que a lama varreu Bento Rodrigues e atingiu o Rio Doce rumo ao mar e nos meses seguintes, alguns trabalhos foram interrompidos em abril e só estão sendo retomados agora.

Momento em que a lama de rejeitos de minério que vazou da barragem da Samarco chegou ao mar, no dia 22 de novembro. Crédito: Gabriela Biló / Estadão

Momento em que a lama de rejeitos de minério que vazou da barragem da Samarco chegou ao mar, no dia 22 de novembro. Crédito: Gabriela Biló / Estadão

É o caso do impacto no litoral, onde a lama desaguou a partir da foz do Rio Doce. Segundo Roberto Sforza, técnico do ICMBio e chefe da Área de Proteção Ambiental Costa das Algas, uma das unidades de conservação no Espírito Santo que foi atingida pela lama, os estudos tiveram de ser interrompidos por falta de recursos.

Ele explica que quatro expedições oceanográficas foram feitas, duas com navios do ICMBio e duas com embarcações da Marinha, de janeiro a abril, para a coleta de amostras de água, sedimentos, micro-organismos e recursos pesqueiros para identificar possíveis contaminações.

Foi dessas primeiras análises que surgiu o alerta de que peixes e crustáceos estavam contaminados, o que levou à suspensão da pesca. Elas que também mostraram a presença de metais pesados em concentração maior que a recomendada. Mas com o tempo alguns desses indicadores diminuíram e depois de abril não foi possível concluir nem mesmo a análise de material coletado e não foi gerada mais informação sobre o dano ambiental.

“As expedições ocorreram com recursos nossos, remanejados de outros projetos, e de universidades parceiras, com a Federal do Espírito Santo (Ufes), mas quando nosso dinheiro acabou, tivemos de parar”, disse ao Estado. Ele explicou que somente agora, com o termo de ajustamento de conduta em que dinheiro da Samarco vai ser repassado para isso, é que deve ser iniciado um monitoramento contínuo, pelos próximos cinco anos, para ver o tamanho do problema.

Acidente em curso. “A verdade é que hoje, mesmo tendo passado um ano, não temos como dimensionar o dano nem caracterizá-lo em pontos específicos como fauna, vegetação de restinga, água, quantidade de sedimentos depositados no solo marinho”, disse.

“O que sabemos é que os rejeitos que chegaram ao mar se espalharam por toda a plataforma do litoral do Espírito Santo. E que dependendo de ventos, frente fria, correntes marinhas, chegaram a Abrolhos e ao litoral norte do Rio de Janeiro. Mas que efeitos causaram não é sabido nem quanto tempo vai levar para recuperar”, complementou.

Sforza também fez um comentário que vem sendo dito com frequência por quem acompanha a região: “Esse acidente ainda está em curso”.

Ele se refere ao fato de que a maior parte da lama de rejeitos ficou contida nos primeiros 100 km a partir do rompimento da barragem. Dos 35 milhões de metros cúbicos que foram derramados, cerca de 5 milhões chegaram até a foz. A maior parte ficou retida na hidrelétrica de Candonga, ainda em Minas Gerais. “Com a volta do período chuvoso, a gente não sabe o que isso pode significar em termos de recorrência”, afirmou.

É a preocupação também do geólogo marinho Alex Bastos, que coordenou os esforços de coletas e análises na Ufes. “Quando o acidente ocorreu, tínhamos passado por um período de El Niño muito forte, de seca, e o rio não estava com muita água. A maior parte do carregamento da lama e chegada dela no mar foi com um período de estiagem muito forte”, lembrou o pesquisador.

“Agora existem previsões de que o período de chuva neste verão deve ser bem mais intenso que o de 2015. Isso pode ser um problema para a área continental se o rio transbordar com mais lama.”

Uma modelagem feita pelo Ibama sobre os riscos de rompimento de Candonga apontou que num pior cenário, 2 milhões de metros cúbicos poderiam vazar para o ambiente.

Diagnóstico. O estudo, divulgado na semana passada, foi o principal diagnóstico ambiental feito sobre o acidente. Ele avaliou a situação no começo deste ano e depois em setembro nos 100 primeiros km da área afetada em termos de vegetação removida das margens dos rios pela enxurrada de lama, assim como o impacto da deposição de lama de alta espessura no leito do rio.

Logo após o acidente, a vida bentônica, que vive no leito dos rios Gualacho do Norte e do Carmo, os mais próximos a barragem, foi praticamente toda soterrada pela lama.

André Sócrates, diretor substituto de Uso Sustentável da Biodiversidade e Florestas do Ibama, que coordenou o monitoramento, contou que na segunda expedição já foram observados alguns organismos das comunidades bentônicas, o que mostra que os rios mantinham a capacidade de resiliência. “Mas eles ainda devem passar por um longo processo de recuperação”, afirmou.

A chuva, nesse caso, é também um problema, porque vai carregar turbidez de novo para os rios. Por isso, alertou o pesquisador, a recuperação só será possível quando o dano for cessado, ou seja, o rejeito todo for tirado.
Segundo ele, o material tem um comportamento complicado. “Quando seco, parece cimento, mas quando molhada parece uma areia movediça e recuperar isso é muito difícil.”

Também foi medido o retorno espontâneo da vegetação em áreas ainda cobertas com a mais espessa lama. “Tem uma grande regeneração natural já acontecendo na região com espécies nativas mais rústicas, que conseguiram aparecer num ambiente totalmente inóspito. São importantes indicadores de quais espécies podem ser usadas no processo de recuperação florestal”, explicou.

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