Após ‘década perdida’, mundo terá de quadruplicar esforços para conter aquecimento

Após ‘década perdida’, mundo terá de quadruplicar esforços para conter aquecimento

'Em 2010, o mundo pensava que teria 30 anos para cortar pela metade suas emissões. Hoje sabemos que isso deve acontecer em dez anos para minimizar os efeitos das mudanças climáticas', alertam pesquisadores

Giovana Girardi

04 de março de 2020 | 13h01

Em meio ao aumento de ocorrência de eventos extremos, como as fortes chuvas que atingem o Sudeste do Brasil desde o início do ano, cientistas alertam que o mundo teve uma “década perdida” na tentativa de combater as mudanças climáticas

E agora os países terão agora de quadruplicar seus esforços, em um tempo ainda menor, para conseguir cumprir as metas estabelecidas pelo Acordo de Paris, de limitar o aquecimento do planeta a menos de 2°C até o fim do século, com ambição de não passar de 1,5°C.

Emissões globais precisam cair 7% ao ano, em média, para aquecimento ficar em 1,5°C; no Brasil, maior parte das emissões é ligada à agropecuária. Crédito: Marcos Brindicci / Reuters

Em um comentário publicado nesta quarta-feira, 4, na revista Nature, um grupo internacional de 15 cientistas, do qual faz parte o pesquisador especialista em economia energética Roberto Schaeffer, da Coppe/UFRJ, analisou as ações desempenhadas desde 2010 para limitar as emissões de gases de efeito estufa e concluíram que elas foram insuficientes.

“Em 2010, o mundo pensava que teria 30 anos para cortar pela metade suas emissões. Hoje sabemos que isso deve acontecer em dez anos para minimizar os efeitos das mudanças climáticas”, escrevem os autores. 

Se todos os países tivessem, em 2010, iniciado medidas efetivas para atingir um nível de emissões compatível com os 2°C de aquecimento até 2100, as reduções de emissões deveriam ter sido de cerca de 2% ao ano, em média, até 2030, calculam os pesquisadores.

Em vez disso, dizem, as emissões cresceram. Entre 2008 e 2018, houve alta de 14% nas emissões anuais.

Consequentemente, os cortes necessários agora são de mais de 7% ao ano para colocar o planeta no rumo de ficar apenas 1,5°C mais quente do que antes da Revolução Industrial. Para ficar em 2°C, esse corte terá de ser de 3%.

“A janela de oportunidade para cortar pela metade as emissões também encurtou drasticamente. Em 2010, eram 30 anos, agora são 10 anos para 1,5°C e 25 anos para 2°C”, alertam. 

Eles ressaltam, também, que apesar de a redução de tempo para alcançar os 2°C não parecer tão grande, o conhecimento científico atual é enfático ao dizer que um mundo mais quente do que 1,5°C terá consequências muito mais danosas do que se imaginava anteriormente, o que torna imperativo aos países a continuarem perseguindo o menor aumento de temperatura possível.

“Se a comunidade internacional tivesse levado mais a sério os seus compromissos assumidos já desde  Paris em 2015, o esforço hoje para manter o mundo hoje dentro de uma trajetória compatível com um mundo de 1,5ºC seria muito menor, e provavelmente muito mais factível também”, disse Schaeffer, em comunicado à imprensa.

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