Ano mais quente prejudica até a produção de cerveja

Ano mais quente prejudica até a produção de cerveja

2015 caminha para ser o ano mais quente da história. Noites com temperaturas altas impedem o resfriamento de cerveja tradicional da Bélgica; já o verão nos EUA foi ruim para a produção de lúpulo

Giovana Girardi

03 Novembro 2015 | 14h45

cantillon

O ano de 2015 se encaminha para ser o mais quente da história, e as altas temperaturas estão prejudicando até mesmo a produção de uma das poucas coisas que ajudam a aliviar o calorão: a cerveja!

Nesta segunda-feira, 2, uma das cervejarias mais tradicionais e badaladas da Bélgica, a Cantillon, publicou em sua página do Facebook que as brassagens tiveram de ser canceladas por conta do outono atipicamente quente em Bruxelas.

Para o mês de novembro a temperatura média à noite costuma ser em torno de 5°C, mas eles estão experimentando quase o triplo disso. “Nós programamos duas produções para esta semana, mas tivemos de cancelá-las por conta da temperatura quente. As noites nesta semana devem ficar em torno de 12°C a 14°C, muito quente para um correto resfriamento”, escrevem os cervejeiros.

“Nós acabamos de iniciar a temporada de já temos de pará-la por uma semana. A tradicional Lambic é também uma vítima do aquecimento global”, dizem.

Lambics são um estilo de cerveja ácido, com fermentação espontânea de micro organismos presentes no ar. O resfriamento do mosto mencionado pelos produtores é uma fase essencial da produção. Trata-se do líquido adocicado resultante da imersão do malte de cevada e outros grãos em água quente. 

De acordo com o livro The Oxford Companion to Beer, referência para fãs da bebida, no caso da Cantillon e de outras produtoras de Lambics, o mosto é transferido para tanques rasos e largos, onde serão resfriados pelo ar noturno. Esse processo também faz com que leveduras e bactérias presentes no ar entrem em contato com o mosto, conferindo a ele notas ácidas e rústicas típicas do estilo.

O forte verão experimentado pelo Hemisfério Norte este ano também já tinha prejudicado a produção de lúpulo, outra matéria-prima fundamental para fazer cerveja. A flor é usada para dar amargor e aroma à bebida e também ajuda em sua conservação.

Nos EUA, foram registrados dias com temperatura acima de 38°C no Vale Yakima, no Estado de Washington, líder na produção da espécie. “O calor está fazendo as plantas murcharem”, disse Paul Corbett, diretor da Charles Faram, comerciante internacional de lúpulo do Reino Unido, ao jornal Financial Times, em reportagem em julho. De acordo com a reportagem, a produção também estava sendo afetada em outras regiões produtores, como Alemanha e Eslovênia.

A Europa e os Estados Unidos sofreram neste ano com ondas de calor durante o verão, mas todo o ano está mais quente do que o normal. Na semana passada, a Noaa (agência americana para oceanos e atmosfera) reforçou que 2015 deve ter as temperaturas mais altas desde que os registros começaram a ser feitos.

O mês de setembro, por exemplo, foi 0,9°C mais quente que a média para o século 20, batendo o recorde para o mês. Também foi o maior aumento acima da média para o mês em todos os 136 anos de registro. O ano de 2015 já tem seis dos 10 meses mais quentes registrados na história: setembro, março, maio, junho, agosto e setembro. E o primeiro semestre deste ano também foi o mais quente desde 1880.

As altas temperaturas seguem uma tendência que vem aparecendo em todo o século 21. Dos 10 anos mais quentes da história, com exceção de 1998, todos estão nos anos 2000. O mais alto até o momento foi 2014, que teve temperatura global de 0,74°C a mais que a média do século anterior, que foi de 14,64°C.

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