Análise: Censo da agropecuária x desmatamento

Análise: Censo da agropecuária x desmatamento

A fronteira agrícola se expandiu no Brasil principalmente no Pará e no Mato Grosso, segundo o censo do IBGE; não dá para relacionar os números com dados espaciais, como o desmatamento, mas vale refletir sobre o fato de os dois Estados também serem líderes de perda da Amazônia e do Cerrado

Giovana Girardi

26 Julho 2018 | 19h12

Os dados preliminares do censo agropecuário divulgados nesta quinta-feira, 26, pelo IBGE abrem espaço para algumas reflexões à luz do embate que voltou a crescer no Brasil entre produção e conservação.

Campo de soja no Mato Grosso, o segundo Estado por onde mais se expandiu a fronteira agrícola no País entre 2006 e 2017. Crédito: Tiago Queiroz

Chama a atenção o dado que mostra por onde a fronteira agropecuária mais se expandiu entre 2006 e 2017. No total, a área ocupada por estabelecimentos agropecuários em todo o País cresceu 5% em relação ao censo de 2006 – ou 16.573.292 hectares. A maior parte disso (77%) ocorreu no Pará e no Mato Grosso.

No Pará, a área agrícola cresceu de 22,926 milhões de hectares em 2006 para 29,678 milhões de hectares em 2017. No Mato Grosso, foi de 48,689 milhões para 54,831 milhões no mesmo período.

Os dados do IBGE são obtidos do mesmo modo que ocorre nos censos populacionais, com entrevistas com os proprietários. São dados auto-declarados e não há cruzamento com satélite ou mesmo com o CAR, o Cadastro Ambiental Rural.

Os dados não são diretamente comparáveis com dados espaciais. Desse modo, não dá para saber exatamente por onde se deu essa expansão. Podem ser áreas de pousio nas propriedades, por exemplo, onde não havia uso recente, mas já estavam abertas.

Mas vale a pena olhar a evolução de outro dado nesse período: o do desmatamento na Amazônia e no Cerrado, biomas que cobrem os dois Estados. Apesar de a taxa de perda, para toda a Amazônia, em 2017 ter sido cerca de metade da observada em 2006, no acumulado a floresta continuou desaparecendo, mesmo que num ritmo mais lento do que o observado até 2004.

O Pará foi o líder de desmate no período, com cerca de 4 milhões de hectares devastados, seguido do Mato Grosso, com pouco mais de 2 milhões de hectares desmatados. O MT perdeu ainda mais 1,8 milhão de hectares de Cerrado.

Não dá para dizer com os dados atuais do IBGE que o avanço da agropecuária se deu sobre a vegetação nativa, mas cientistas que trabalham com geo-dados têm um prato cheio aqui se cruzarem o censo com mapeamento de satélite e com o CAR.