Alta do desmatamento projeta temporada de fogo ainda pior na Amazônia neste ano

Alta do desmatamento projeta temporada de fogo ainda pior na Amazônia neste ano

Um grande volume de áreas desmatadas em 2019 que deixou de ser queimado deve se somar aos cortes de 2020, criando acúmulo excessivo de combustível; queimadas em meio à pandemia de coronavírus podem piorar problemas respiratórios

Giovana Girardi

22 de abril de 2020 | 14h18

Correções: 29/04/2020 | 14h45

O aumento constante nos alertas de desmatamento que vem sendo observado desde agosto do ano passado, seguindo a tendência que tinha começado em maio de 2019, indica que a próxima temporada de fogo na Amazônia deve vir ainda pior que a do ano passado, especialmente em terras públicas. Isso tudo em meio à pandemia do novo coronavírus, que já afeta cidades como Manaus e Belém, podendo piorar os problemas respiratórios da população.

É o que estima uma análise feita por pesquisadores do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), publicada nesta quarta-feira, sobre os alertas do sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). 

Queimada em Santo Antonio do Matupi, sul do Amazonas, em 27/8/2019. Crédito: Gabriela Biló / Estadão

O monitoramento em tempo real do Inpe revelou alta de 51% no corte raso da floresta no primeiro trimestre deste ano, na comparação com o mesmo período do ano passado – foram cortados 796 km² entre 1º de janeiro e 31 de março neste ano, ante 526 km² no primeiro trimestre de 2019. 

O Ipam observou que cerca de metade dessa destruição ocorreu em terras sob a guarda da União e dos Estados. Florestas públicas ainda não destinadas, que são alvo de grilagem e respondem por 15% da Amazônia, registraram 33% da derrubada no período. Nos três primeiros de 2019, essa categoria fundiária teve 22% do corte, aponta nota técnica publicada pelo instituto.

Com base no que eles viram ocorrer no ano passado, a expectativa dos pesquisadores é que quando a estação seca chegar à Amazônia, essas árvores derrubadas vão novamente virar combustível para as queimadas. 

Análise anterior feita pelo Ipam, ainda no ano passado, tinha revelado que boa parte do que queimou em agosto de 2019, e que chamou a atenção do mundo inteiro, fazendo o governo enviar as Forças Armadas para a floresta, era material que tinha sido desmatado nos meses anteriores. 

O governo federal, no início da crise, disse algumas vezes que o fogo se devia somente à temporada seca, mas os pesquisadores compararam os índices de chuva com outros anos e viram que a seca do ano passado estava dentro do padrão, o que não explicaria o aumento nas queimadas. 

Já o desmatamento, sim, estava acima do normal: o corte da floresta nos primeiros oito meses de 2019 tinha sido 92% superior à taxa do mesmo período de 2018, segundo dados do Deter. 

A floresta úmida não queima naturalmente, lembra a pesquisadora Ane Alencar, primeira autora do trabalho. Se tem queimada, é porque alguém botou fogo, e não tem melhor combustível para isso que os troncos cortados que foram postos para secar. O fogo é a última etapa desse processo de destruição, limpando a área para eventuais novos usos.

Na nota técnica divulgada nesta terça, o Ipam destaca alguns outros dados da temporada passada de fogo: o número de focos de calor registrados na Amazônia entre 1º de janeiro e 31 de agosto de 2019 foi 81% mais alto do que a média observada entre 2011 e 2018. A maior variação aconteceu nas florestas públicas não-destinadas: 37% a mais, o que indica a ação de grileiros.

Os pesquisadores lembram que a ação do governo de acionar uma Garantia da Lei e da Ordem (GLO) na Amazônia conteve o fogo, que diminuiu em setembro e chegou a menos nível histórico em outubro, mas não a motosserra. O desmatamento continuou subindo até o fim do ano e se manteve em alta no primeiro trimestre.

No acumulado de 1º de agosto de ano passado a 31 de março deste ano a Amazônia já perdeu 5.260 km². O mesmo período de oito meses entre 2018 e 2019 somava 2.661 km² – alta de 97%.

“Sem uma ação preventiva, a temporada de queimadas deste ano poderá ser mais severa. Isso porque um grande volume de áreas desmatadas em 2019 deixou de ser queimado e deve se somar ao desmatamento de 2020, criando acúmulo excessivo de matéria seca de desmatamento. Esse pode ser o estopim de uma nova estação cheia de grandes queimadas, incêndios florestais e muita fumaça no ar”, escrevem os autores.

“A análise dos dados do ano passado demonstra o efeito positivo de ações de fiscalização e controle do uso do fogo na Amazônia, principalmente no período da moratória das queimadas (setembro e outubro de 2019). Elas foram necessárias antes e devem ser mantidas agora, especialmente considerando que quase um terço dos focos de calor registrados em 2019 aconteceu em terras públicas sem destinação – ou seja, efeito de grilagem –, que se intensificou no primeiro trimestre de 2020, num verdadeiro roubo de patrimônio público dos brasileiros”, afirma o grupo. 

“Contudo, ao contrário do que aconteceu em 2019, o esforço em campo deve coibir também o desmatamento, visto que são duas faces de uma mesma moeda. Sem estratégias que mirem ambos os problemas conjuntamente, espera-se pouca efetividade de qualquer plano governamental de controle do fogo na Amazônia”, continuam os pesquisadores.

Eles alertam ainda que um aumento no fogo neste momento, em que a Amazônia, em especial cidades como Manaus, é fortemente impactada pela pandemia de covid-19, a fumaça pode aumentar os casos de problemas respiratórios na população.

 

Correções
29/04/2020 | 14h45

O Ipam corrigiu uma informação da nota técnica. O aumento de 81% nos focos de calor no ano passado em relação à média 2011-2018 é válido para o período até agosto. A reportagem já está atualizada.

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