‘A Amazônia é brasileira, mas é de interesse universal’, diz prefeito de Manaus

‘A Amazônia é brasileira, mas é de interesse universal’, diz prefeito de Manaus

Para Arthur Virgílio, do PSDB, o Brasil 'não ganhou o direito de abusar' dos ânimos estrangeiros com enfrentamento em relação à Amazônia. Ele recusa o garimpo e a mineração em terras indígenas e pede políticas que visem o desenvolvimento sustentável

Giovana Girardi

05 de setembro de 2019 | 20h27

MANAUS – “Sou a favor de uma Amazônia que seja definidamente brasileira, mas que seja uma Amazônia que reconheça que ela é de interesse universal. Não podemos negar isso.” A frase é do prefeito de Manaus, Arthur Virgílio (PSDB), que abriu nesta quinta-feira, 5, Dia da Amazônia, um fórum para discutir o desenvolvimento das cidades da região. O tema principal pelo qual ele foi instado a se posicionar, porém, foi a crise ambiental do governo brasileiro que tem a floresta no foco das preocupações mundiais.

Em entrevista exclusiva ao Estado, ele disse que discorda da postura de enfrentamento. “Não é mais uma questão de ‘o petróleo é nosso’, a ‘Amazônia é nossa’. Ela é nossa. Mas não é porque é nossa que vou tratá-la mal, com desdém.” Para ele, houve um desgaste diplomático a ponto de poder gerar enfrentamentos e boicotes caso a situação do desmatamento piore.

O prefeito de Manaus, Arthur Virgílio (PSDB), na abertura do Fórum das Cidades Amazônicas. Crédito: Alex Pazuello / Semcom

“O mundo não toleraria que o seu principal ativo para enfrentar o aquecimento global fosse destruído para trocar por atividades agropastoris. O Brasil tem de entender que, além de ele ser estrategicamente importante por ser o dono da Amazônia, é um país que não é uma potência militar. Não ganhou o direito de abusar. Eu se fosse presidente não abusaria de forma alguma. Temos de vencer pela habilidade diplomática, pelo convencimento.”

Leia a seguir a íntegra da entrevista.

Qual é o objeto do fórum, o que esperam trazer de resposta para o desenvolvimento das cidades amazônicas?
Não acredito em desenvolvimento que não seja sustentável. Acredito que possam até ocorrer espasmos de crescimento, mas não que realmente se mantenham de pé ao longo dos tempos. Mas evitei falar de cidades, porque há uma coisa maior do que isso neste momento. Os problemas que a Amazônia enfrenta vêm da incompreensão de tantos que acham que a Amazônia é secundária e não compreendem que ela é a região mais importante do País, a mais estratégica, potencialmente a mais rica do País, que pode criar e gerar o maior montante de riquezas para os brasileiros todos e não apenas para os amazônidas. Entendo que temos de resolver as pendências todas pela diplomacia e não pela desavença, e que se deve procurar trabalhar em parcerias com entes não-nacionais, com outros países que estejam dispostos a investir em pesquisa, em benefícios nossos, deles. Sou a favor de uma Amazônia que seja definidamente brasileira, mas que seja uma Amazônia que reconheça que ela é de interesse universal. Não podemos negar isso. A gente vê o que dá quando provoca.

Esse interesse não é de hoje. Mas o problema das queimadas acabou colocando a Amazônia no foco como fazia tempo que não ocorria.
Tinha uma discussão nos anos 60 de que havia muita cobiça internacional. Não digo que hoje não haja cobiça, mas acredito que há uma preocupação muito maior com o aquecimento global e quero despertar, em quem puder, o interesse em parcerias econômicas saudáveis. O governo brasileiro não aceitar determinado dinheiro, é direito dele, mas esse dinheiro me interessa. Eu posso fazer muita coisa com aquilo, com a parte que couber à minha cidade, que é a sétima maior do País. Não é mais uma questão de “o petróleo é nosso”, a “Amazônia é nossa”. Ela é nossa. Mas não é porque é nossa que vou tratá-la mal, com desdém. Não é porque ela é nossa que vou deixar à míngua os institutos de pesquisa, que eu vou simplesmente perder as oportunidades de desenvolvimento de bioeconomia de biojoias, de cosméticos, de remédios que vêm dessa mata prodigiosa que nós temos.

Como o sr. vê a questão das terras das indígenas em relação ao desenvolvimento?
Fala-se em não demarcar mais terras indígenas, mas devemos tratar os índios como eles merecem, como nossos antepassados, como sócios de um processo de desenvolvimento. Como pessoas que conhecem profundamente as florestas e seus mistérios. Como pessoas que têm uma carga de civilização de pelo menos 10 mil anos nas costas para transmitir para nós todos. Eles podem ser parceiros dos PhDs e dos empresários na exploração racional e sustentável da Amazônia.

O garimpo é uma possibilidade?
Sou completamente contra. É um atraso. Garimpo traz prostituição, assassinato, banditismo. Agora com as gangues das drogas, o garimpo também deve estar trazendo essas facções criminosas. Não me interessa. Mas não pode extrair minério? Pode, mas há técnicas para extrair ouro, por exemplo, que são minimamente lesivas à natureza. Com alta tecnologia. Temos de buscar os parceiros acertados para fazer isso e não uma atividade que é sonegadora, que é predatória e que é desumana como é o caso do garimpo.

O ministro Onyx Lorenzoni esteve na terça-feira, 3, em encontro com os governadores da Amazônia aqui em Manaus e disse que o governo federal vai começar o trabalho para regularizar a mineração em terras indígenas. O sr. concorda?
Acho que há tanta terra para começar, vai começar logo pela terra dos índios? Por que criar mais um problema internacional quando a gente sabe que é um tema sensível ao exterior? Não existem terras que não são dos índios e que podem perfeitamente ter minérios trabalhados lá com alta tecnologia e com mínimo de lesão ou lesões reparáveis no meio ambiente?

Eles dizem que as terras indígenas estão sobre as melhores jazidas.
Se isso for de fato uma realidade contestada – eu como amazônida, como pessoa com muita vivência aqui, não tenho essa constatação –, eu entenderia que deveria ter um entendimento com os índios e não por cima dos índios. Nós temos de respeitá-los. Eu me sinto responsável por uma herança de dez mil anos nas minhas costas. Eu me sinto obrigado a procurar ser sábio, à medida em que eu tenho 10 mil anos de cultura por trás mim, além dos 350 anos de cultura misturada com a da Europa. Eu não entendo por que abrir contencioso com os índios. Para que tanta confusão, tanta discórdia? Por que a gente não procura unir os brasileiros em torno de um projeto nacional verdadeiro? Que contemple todo mundo? Sem ódio nem rancor com ninguém? A eleição passou, outras virão, darão esse resultado ou outro.

Como o sr. vê a política do governo federal para a Amazônia?
Até o momento não disse a que veio. Precisa de mais.

Mas o sr. acredita que as mensagens passadas pelo presidente, que fez críticas às ações de fiscalização, podem ter contribuído para colocar a Amazônia no foco das atenções internacionais?
Eu diria que foi o antagonismo entre o presidente e setores do G-7, que num primeiro momento trouxeram intranquilidade para todos, mas num segundo momento acabou me trazendo tranquilidade, porque finalmente a ficha caiu. O G-7 reconhece a importância da região, como principal anteparo aos efeitos ruins do aquecimento global. O governo não tem como não entender isso.

O sr. acredita, então, que essa crise acabou tendo um lado positivo?
Entendo assim e gostaria que o presidente Bolsonaro entendesse assim também. Acredito que não há mal que venha sozinho, sempre traz o bem. Todo esse desentendimento diplomático, esse desgaste dos dois lados… Porque o G-7 também cometeu um erro grave de não ter chamado para a reunião o governo brasileiro. Seria mais democrático. E o governo errou quando saiu com sete pedras na mão, com “recuso isso, recuso aquilo”. Eu entendo que a diplomacia deve prevalecer sobre o dissenso. Por isso busco o consenso.

Mas como está a situação da região hoje?
É dramática. O desemprego colabora com isso. O crescimento econômico tende a diminuir os focos de queimada. Quando o presidente fala, e eu sei que ele não faz isso de má fé, mas quando fala em estimular o garimpo, ele está estimulando uma atividade que é sonegadora, que é predatória, estimula a prostituição, o banditismo e que a essa altura já deve ser dominada pelas facções de tráfico de drogas que infernizam a vida das cidades brasileiras.

O desmatamento que ocorre na região tem a ver com a pobreza?
Não. Mas eles conseguem com a pobreza mão-de-obra para isso, com desempregados. O desemprego não ajuda a economia em nenhuma circunstância. A solução é enfrentar o desmatamento. Ter como objetivo o desmatamento ilegal zero.

Mas então o sr. admite que seja possível ainda fazer o desmatamento legal?
Digo para ter isso aqui (aponta para o banco de madeira onde está sentado), que é feito com madeira certificada. Precisa passar por uma tramitação, que autorize a fazer isso com a contrapartida de reflorestamento. Não é só chegar lá, tirar a madeira, fazer esse banco e vender. Existe um desmatamento legal que é pequeno, não arranha a floresta.

O sr. está se referindo à exploração legal de madeira, não ao desmatamento em fazendas para a abertura de pasto, dentro do permitido no Código Florestal, por exemplo?
Isso. Você se expressou melhor do que eu. Nem pensei no Código Florestal. Entendo que temos pouquíssimos lugares onde cabe a pata do boi. No sul do Pará foi um desastre.

Como é a relação de Manaus com as ONGs?
É respeitosa de ambas as partes, muito boa. Algumas são mais próximas e as reconheço como muitos úteis. Outras são mais afastadas. Mas entendo que não dá para negar o peso e o valor do terceiro setor. É uma forma de expressão de milhões de brasileiros. Umas podem se desvirtuar, outras podem desenvolver um papel muito nobre no desenvolvimento de regiões que precisem de desenvolvimento sustentável. E muitas acabam ocupando o lugar que muitas vezes o poder público não chega e cabe ao poder pública controlar, mas não cercear as boas iniciativas.

O sr. vê riscos de intervenção, de boicote?
O governo retrocedeu com sabedoria. E o retrocesso, quando é a favor do bom-senso, a gente aplaude. A gente critica quando se tem a vontade de continuar errando. Mas acho que haveria boicote. Houve um desgaste diplomático. Mas se houvesse um desmatamento muito grande, que eu espero que não aconteça nunca, o mundo não toleraria que o seu principal ativo para enfrentar o aquecimento global fosse destruído para trocar por atividades agropastoris. Argumentam que a China faz isso. Faz. Lamento. Para alimentar 1,4 bilhão de bocas, faz. Mas quem é que para a China? A ONU para a China? Quem é que para a China ou os Estados Unidos, altamente emissores de CO2? Quem para a Rússia, que é altamente poluidora? O Brasil tem de entender que além de ele ser estrategicamente importante por ser o dono da Amazônia, é um país que não é uma potência militar. Não ganhou o direito de abusar. Eu se fosse presidente não abusaria de forma alguma. Temos de vencer pela habilidade diplomática, pelo convencimento.

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