40% do País apresenta nível moderado ou alto de ameaça aos corpos hídricos

40% do País apresenta nível moderado ou alto de ameaça aos corpos hídricos

As principais ameaças às águas no País são as mudanças climáticas, as mudanças no uso do solo, a fragmentação de ecossistemas e a poluição, de acordo com relatório do Painel Brasileiro de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos

Giovana Girardi

08 de agosto de 2019 | 16h01

Anos de seca prolongada nas regiões Sudeste (na foto, o sistema Cantareira) e Centro-Oeste levaram a uma perda estimada de R$ 20 bilhões na receita agrícola em 2015. Crédito: Sergio Castro / Estadão

Cerca de 40% do território nacional apresenta níveis de ameaça aos corpos hídricos que vão de moderado a elevado. E o Estado de São Paulo é o que está em pior condições. É o que mostra um relatório divulgado nesta quinta-feira, 8, pelo Painel Brasileiro de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos.

O trabalho, que considerou pesquisas científicas realizadas nos últimos anos sobre o assunto, mostra que as principais ameaças às águas no País são as mudanças climáticas, as mudanças no uso do solo (como desmatamento), a fragmentação de ecossistemas e a poluição.

A região Sudeste, que abriga 58% da população e apenas 13% da disponibilidade de água do País, apresenta um cenário delicado. Pelo levantamento, quase 70% do território de São Paulo está em situação crítica por conta do adensamento populacional e o intenso uso da terra associado à agricultura.

O indicador usado para fazer essa análise é o impacto sobre a biodiversidade que vive nesses ambientes aquáticos. Segundo o trabalho, o Brasil abriga mais de 3 mil espécies de peixes de água doce. Só na Bacia Amazônica estima-se que haja mais espécies de peixes do que em todo o oceano Atlântico.

Mas essa biodiversidade está em risco: 10% das espécies de peixes continentais estão sob o risco de extinção e 30% do total de espécies da fauna ameaçada no Brasil compreendem peixes e invertebrados de água doce. Estima-se que até 2050, a Bacia Amazônica e o extremo sul do País terão uma perda de mais de 25% nas espécies aquáticas.

“Consideramos 23 ameaças (como desmatamento, uso de fertilizantes, presença de hidrelétricas, segurança hídrica, espécies invasoras, perdas no sistema, ocorrência de secas e inundações) à biodiversidade”, explicou ao Estado Aliny Pires, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e coordenadora do estudo.

“Se a gente pensa que uma água de qualidade depende de que todo o sistema aquático esteja funcionando adequadamente, se a água não está boa para a biodiversidade, também não estará adequada para o consumo humano”, afirmou a pesquisadora.

“A biodiversidade ajuda a indicar a qualidade daquele ecossistema. Quando dizemos que em 40% das águas a biodiversidade está ameaçada, isso também indica que 40% das águas estão ameaçadas como um todo. É uma questão integradora”, complementou o pesquisador Vinicius Farjalla, da UFRJ e também autor do trabalho.

“Não se olha só para a qualidade ou para a quantidade de água. Quando se olha de maneira mais integrada – é daí que vem o conceito do sustentável –, temos de trabalhar com todos esses componentes. A biodiversidade é mais um grande indicador do uso sustentável, da qualidade daquele ambiente de maneira mais integrada”, disse.

Gráfico do relatório Água, Biodiversidade, Serviços Ecossistêmicos e Bem-estar Humano no Brasil do BPBES

De acordo com o trabalho, cerca de 98% dos municípios do Nordeste já reportaram eventos de seca. E no Sul do País, 92% dos municípios já reportaram eventos de inundação.

Aliny lembra, porém, que mesmo em regiões onde a quantidade de água não é um problema aparente, como os Estados amazônicos – que respondem por 68% da disponibilidade hídrica do País para 7% da população, a situação não é tão simples, já que há altas taxas de perda no fornecimento.

Impactos econômicos

Feita em conjunto por 17 pesquisadores de diversas instituições do País, a avaliação aponta que se por um lado os recursos hídricos são fundamentais para a economia brasileira, por outro, cenários de escassez já trazem prejuízos significativos.

O relatório aponta que o País ganhou mais de R$ 15 bilhões por ano, entre 2004 e 2016, com os investimentos realizados em saneamento, incluindo a promoção do turismo e a redução com gastos em saúde. A pesca esportiva movimenta até R$ 3 bilhões por ano no País. Só os recursos pesqueiros sustentam cerca de 300 mil pescadores artesanais.

Nossos recursos hídricos são fundamentais para a energia do País. A matriz elétrica depende de cerca de 65% da produção hidrelétrica.

A agricultura irrigada e a pecuária são os principais usuários dos recursos hídricos do País, consumindo, respectivamente, cerca de 750 mil e 125 mil litros de água por segundo. A maior parte (85%) da produção agropecuária depende da água das chuvas, originada em 40% na evapotranspiração da Amazônia.

O estudo destaca ainda que somente no ano passado, o Brasil exportou 84 milhões de toneladas de soja, o que corresponde a 8,4 trilhões de litros de água.

Por outro lado, a seca recente que afetou as regiões Sudeste e Centro-Oeste, por exemplo, provocou uma perda de cerca de R$ 20 bilhões na receita agrícola em 2015, um recuo de quase 7% em relação ao ano anterior.

Para o futuro, levando em conta o aumento da demando por crescimento da população, as perdas do sistema e impactos climáticos, se não houver investimentos em infraestrutura, faltará água para 74 milhões de pessoas até 2035, com impacto em vários setores produtivos, em especial a indústria, que pode sofrer 84% das perdas econômicas previstas.

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