Reprodução/USP
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USP assina parceria com a ONU e sediará escritório de pesquisa sobre os ODS

Universidade quer tornar o Brasil protagonista e referência em pesquisa e políticas públicas da Agenda 2030

Leonardo Pinto, Especial para o Estado

22 Setembro 2017 | 16h04

Na tarde desta sexta-feira, em Nova York, a Universidade de São Paulo (USP) assinou parceria com as Organizações das Nações Unidas (ONU) para sediar o primeiro escritório regional do Programa Cidades, do Pacto Global – acordo humanitário entre empresas, organizações da sociedade civil e demais instituições de todo o mundo coordenado pela própria ONU. 

Como principal premissa do acordo, a USP será a representante do programa na América Latina e coordenará as ações voltadas aos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que devem ser alcançados até 2030 na região. Esse é um passo importante para o Brasil poder se tornar um dos países mais engajados no cumprimento da Agenda 2030

O reitor da USP, Marco Antonio Zago, e a professora Patricia Iglecias representaram a instituição de ensino em Nova York, onde a ONU realizou no começo da semana sua 72ª Assembleia Geral. O escritório, que terá como prioridade os assuntos relacionados ao desenvolvimento sustentável, será inaugurado em outubro no prédio do Centro de Difusão Internacional (CDI), na Cidade Universitária.

“A ideia é que a USP possa contribuir com municípios e estados deficientes de estrutura e corpo técnico adequado, dando conhecimento científico para que consigam, de fato, apresentar planos e colocar em prática essas ações”, diz Patricia Iglecias, ex-secretária do Meio Ambiente do Estado de Sâo Paulo, em entrevista ao Estado. Patricia é professora de direito ambiental no Largo São Francisco e superintendente dos projetos de gestão ambiental da USP.

Segundo ela, os ODS ainda são pouco explorados no Brasil e por enquanto não causaram impacto nas políticas públicas. “A teoria já está aí, no que consiste cada um dos princípios e objetivos, tudo isso está no papel. O que precisamos é colocar na prática”, afirma. Para a professora, a agenda dos ODS veio e realmente foi divulgada para os municípios e estados, mas de uma forma apenas teórica, sem dizer claramente que tipos de projeto poderiam ser feitos em cada tema.

Gênese do projeto. Desde o lançamento da Agenda 2030, em 2015, os 17 ODS vêm pautando governos e instituições para cumprir metas humanitárias na tentativa de diminuir a pobreza, fome e o impacto da sociedade na gestão dos recursos naturais. O Pacto Global, com sede brasileira na cidade de Curitiba, chegou a realizar programas com os governos do Paraná e Rio Grande do Sul, mas, segundo Patricia, a burocracia e os interesses políticos acabam conflitando com a implementação de planos e políticas públicas. “Os governos mudam, tem a questão da periodicidade dos mandatos e dos partidos de oposição. Mudam-se os planos e as políticas que estão sendo aplicadas”, diz a pesquisadora.

Para ela, a universidade como centro de pesquisas e principal meio de auxílio técnico é o melhor formato de desenvolvimento da agenda. “Com toda a referência em pesquisa que temos, entendemos que o aspecto cientifico não deve ficar para dentro da universidade, mas ser trabalhado junto à sociedade, com os governos, ONGs e setor privado”, diz Patricia. “Quando vimos a possibilidade de trazer o escritório ao Brasil, vislumbramos a possibilidade de tornar a agenda mais palpável”, afirma.

Patricia conta que as primeiras conversas começaram em fevereiro, na Austrália. Ela visitava o país para uma pesquisa sobre gestão de resíduos sólidos. Em meio aos estudos, teve a oportunidade de conhecer o escritório do Secretariado Internacional do Programa Cidades, do Pacto Global, na universidade Royal Melbourne Institute Technology (RMIT), em Melbourne. “Eles se interessaram em desenvolver um trabalho conjunto. A ideia da ONU nessa agenda 2030 é ter os poderes público e privado e a academia trabalhando juntos. E fazer isso a partir da academia, com aspecto científico, mais neutro, fica mais fácil unir esses focos de interesse”, explica.

Do lado da ONU, o interesse em ter a USP como vetor da América Latina ocorreu pela eficiência e influência em pesquisas. “É uma excelente universidade que tem os mesmos valores que nós. O projeto de ter alunos e professores engajados a desenvolver projetos para ajudar municípios e estados nos chamou atenção. É uma combinação perfeita”, diz Elizabeth Ryan, diretora do Programa Cidades do Pacto Global das Nações Unidas, em entrevista ao Estado. Elizabeth diz que espera que, com essa experiência, outras universidades pelo mundo possam adotar escritórios e realizar trabalhos semelhantes.

Para a diretora, as universidades são importantes atores para ajudar o mundo a realizar os 17 ODS por causa de sua neutralidade e independência de seus acadêmicos, que têm conhecimento profundo e capacidade para colocar as metas em prática. A pesquisadora diz que os pesquisadores do RMIT, única experiência mais próxima do escritório que a USP sediará, já desenvolveram pesquisas altamente empíricas que ajudaram Melbourne a se tornar uma das cidades-modelo em políticas públicas, pautadas pelos ODS.

Pesquisa. A previsão é de que o escritório regional da ONU no Centro de Difusão Internacional, da USP, seja o grande catalisador que reunirá a pesquisa científica sobre os temas humanitários da ONU na América Latina. A ideia é que municípios e estados levem ao escritório suas demandas e problemas que as pesquisas podem ajudar a resolver. Programas de pós-graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado terão parceria com agências de fomento e haverá intenso intercâmbio de pesquisadores dos países do continente.

A Fapesp, instituição de apoio à pesquisa ligada ao governo do estado de São Paulo, deve ser umas das parceiras do escritório. Editais específicos para áreas de interesse regional, a fim de ajudar a desenvolver políticas públicas relacionadas ao desenvolvimento sustentável do estado, devem ser abertos depois que o escritório estiver em pleno funcionamento a partir de outubro. 

O projeto prevê também o estabelecimento de sub-escritórios regionais em regiões estratégicas no Brasil e em outros países. “Vamos aproveitar trabalhos que já estão sendo feitos pela ONU em outros pontos, ligar todas essas ações e replicá-las quando derem certo”, diz Patricia. A pesquisadora afirma que, antes, tudo era feito de forma separada. Agora o escritório coordenará essas ações e criará um canal de comunicação entre todas elas. “Sem todo esse processo, não conseguiríamos tocar o projeto somente da Cidade Universitária”, diz.

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