Frederico Arzolla
Frederico Arzolla

Uma nova espécie de árvore para a Serra da Mantiqueira

Acima dos 1.700 m, em local de difícil acesso e castigado por ventos e tempestades, vive uma população de 'Ocotea mantiqueirae'

Giovana Girardi, O Estado de S. Paulo

21 Setembro 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Bioma mais ameaçado do País, com somente cerca de 12% de remanescentes florestais, mas também um dos mais estudados pela ciência, a Mata Atlântica ainda guarda surpresas. No alto da Serra da Mantiqueira, onde o acesso é difícil e as ventanias e tempestades castigam, um grupo de pesquisadores do Instituto Florestal (IF) descobriu uma nova espécie de árvore.

Árvores, pelo seu porte, não passam exatamente despercebidas por aí, então o achado de uma nova espécie sempre chama a atenção. Mas, verdade seja dita, a floresta onde ela vive, conhecida como alto montana está entre as menos desbravadas da Mata Atlântica justamente pela dificuldade de acesso. A descoberta, portanto, tem um quê de aventura.

Da família das canelas, a Ocotea mantiqueirae foi vista pela primeira vez em 2005 pelo engenheiro agrônomo Frederico Arzolla, pesquisador científico do IF. Ele estava explorando a área da Fazenda São Sebastião do Ribeirão Grande, da Votorantim Celulose e Papel, em Pindamonhangaba, durante pesquisas do seu doutorado. “Foi um misto de acaso com o fato de estar em um local pouco estudado”, conta.

A fazenda se distribui ao longo da altura da Serra da Mantiqueira, dos 800 m aos 1.900 metros de altitude. Para chegar ao alto, foram cinco horas de caminhada, se agarrando em troco de palmito e em samambaias. A partir dos 1.500 metros de altitude, começa a transição entre floresta montana, que ainda tem árvores muito altas, como as que cobrem a Serra do Mar, para uma vegetação alto-montana, com árvores com no máximo 10 metros de altura e dossel mais baixo.

“A partir dos 1.700 metros, essa espécie predomina, numa pena mancha com essa característica de dossel mais baixo e ralo. São vários troncos finos, entre 18 e 50 cm de circunferência, que formam um tipo de moita. Mas tudo isso é um mesmo indivíduo”, descreve. “Pelo tronco, até parece que é um indivíduo jovem, mas as moitas têm 1 metro de diâmetro, o que indica que são muito antigos”, continua o pesquisador, que nunca tinha visto a espécie.

Como seu foco era a ecologia de paisagem, Arzolla só coletou frutos da árvore e trouxe de volta para São Paulo. O taxonomista do IF João Baitello percebeu logo de cara que aquilo poderia ser uma espécie nova, mas as investigações só foram retomadas a partir de 2011.

Era necessário fazer mais coletas, especialmente das flores da árvore. A O. mantiqueirae tem a peculiaridade de ter indivíduos de apenas um sexo – macho ou fêmea – ao contrário da maioria das outras espécies de árvores, que são hermafroditas, têm flores do dois sexos no mesmo indivíduo. A identificação ficou a cargo de Baitello, que precisou do repertório completo para diferenciar a arvorezinha de outras do mesmo gênero e bater o martelo de que se tratava mesmo de uma nova espécie. “É um feito achar uma nova espécie de Mata Atlântica, não tenha dúvida”, resumiu.

De volta ao campo, os pesquisadores tentaram achar a espécie em outros pontos da Mantiqueira igualmente com vegetação alto-montana, mas que fossem de mais fácil acesso, como no Parque Estadual de Campos de Jordão. A O. mantiqueirae, porém, parece ser bem rara e só existir naquele trecho da fazenda. Por ocorrer num único lugar, em uma população tão pequena, já foi classificada como “em perigo de extinção”.

 

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