Tendência de sexo entre espécies diferentes se agrava, dizem cientistas

Acasalamento entre espécies distintas pode ocorrer com cerca de 10% dos animais; pinguins são atacados por lobos marinhos

Rachel Feltman, The Washington Post

19 Novembro 2014 | 16h53

Não é bonito, mas é um fato real: pesquisadores registraram vários exemplos de lobos marinhos antárticos tentando fazer sexo com pinguins-reis. Segundo os cientistas que publicaram suas mais recentes observações na revista Polar Biology, esta agressão entre espécies diferentes é uma tendência que está se agravando.

Os cientistas observaram este comportamento pela primeira vez há alguns anos, mas agora relatam que estes exemplos aparentemente ocorrem com maior frequência.

"À primeira vista, pensamos que o lobo marinho estivesse matando o pinguim", disse à BBC Nico de Bruyn, principal autor do recente estudo, em 2008. Mas o incidente, que durou 45 minutos, no fim não teve como ser confundido com uma tentativa de assassinato. De fato, o jovem lobo marinho tentava se acasalar com um pinguim de sexo desconhecido. 

Cientistas pensaram que se tratasse de um caso isolado, realizado como uma agressão, por confusão ou uma brincadeira desastrada. "Honestamente, não julgava que voltássemos a ver novos casos da mesma natureza do de 2006, e com certeza que isto aconteceria outras vezes", disse de Bruyn, pesquisador do Instituto de Pesquisas em Mamíferos da Universidade de Pretória.

Mas agora os cientistas já registraram quatro incidentes do gênero. Cada vez, um lobo marinho persegue, agarra e monta em um pinguim, depois tenta repetidamente fazer sexo com ele. Em uma ocasião, o pinguim perseguido foi morto e devorado após o ataque - desfecho mais observado entre as duas espécies.

O acasalamento entre espécies diferentes não é totalmente incomum, e alguns cientistas avaliam que ocorra com cerca de 10% dos animais. Entretanto, a grande maioria dos casos envolve animais muito semelhantes em composição genética e aparência, podendo dar origem a filhotes híbridos. Às vezes, estes acoplamentos decorrem de confusão de identidade, mas o acasalamento entre espécies diferentes e a hibridação também podem ser instrumentos evolutivos na competição entre espécies pela sobrevivência.

Não é o caso entre pinguins e lobos marinhos: os pinguins estão claramente em perigo, e é improvável que um lobo marinho confunda um pinguim com uma possível parceira fértil.

Pode ser ainda que os lobos marinhos estejam aprendendo este comportamento pela observação de membros de sua espécie, dizem os autores do estudo. Talvez estejam percebendo coletivamente que as aves são alvos fáceis ao procurarem dar vazão à frustração sexual provocada pelos picos sazonais da produção hormonal. Ou então, talvez as fêmeas da sua espécie dificilmente apareçam nestas praias, o que faria com que os jovens machos procurassem uma válvula de escape.

Em outras partes do mundo, as próprias focas podem ser alvos destes ataques. Em 2011, os pesquisadores informaram incidentes de lontras marinhas copulando com filhotes de focas (e então matando-os).

Tradução de Anna Capovilla

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