Ayuriko Nakao/Reuters
Ayuriko Nakao/Reuters

‘Temos dificuldade em explicar a biodiversidade'

Harrison Ford, ator e vice-diretor do Conselho Diretor da Conservação Internacional, fala sobre a postura ambiental dos EUA

Herton Escobar - Enviado especial a Nagoya, O Estado de S. Paulo

29 Outubro 2010 | 11h18

Após quase 20 anos de militância ambiental, o ator Harrison Ford está convencido de que o futuro da espécie humana depende, inevitavelmente, da sua capacidade de coexistir em harmonia com todas as outras espécies do planeta. Não apenas por uma questão de respeito, mas de pura sobrevivência.

 

"A biodiversidade e os ecossistemas fornecem uma série de serviços ambientais gratuitos que nos afetam no curto e no longo prazo. Temos de valorizar esses serviços, atribuir valor monetário a eles, e perceber que degradar esses serviços é uma insensatez. Inclusive do ponto de vista econômico", disse Ford ao Estado, em Nagoya, onde ocorre a décima Conferência das Partes (COP 10) da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB).

 

Falta, agora, convencer o resto da humanidade.

 

O astro das séries Guerra nas Estrelas e Indiana Jones, que há 15 anos também é vice-presidente do Conselho Diretor da organização Conservação Internacional (CI), disse que não se sente muito à vontade tendo de usar seu status de celebridade para passar uma mensagem que, na verdade, deveria ser passada por biólogos, economistas e outros especialistas no assunto. Mas veio à conferência assim mesmo conversar com ministros e chamar atenção para a necessidade urgente de preservar a biodiversidade do planeta.

 

Os EUA não são signatários da CDB nem do Protocolo de Kyoto, os dois tratados internacionais mais importantes da área ambiental. Como o senhor se sente com relação a isso?

 

Os EUA são o país que mais contribui para a conservação da biodiversidade no mundo, então é irônico, até estranho, que não sejamos parte da convenção. Dezessete anos atrás o presidente Bill Clinton assinou o tratado e o encaminhou ao Congresso, para ser ratificado, mas o Congresso não tomou nenhuma ação. Durante a administração Bush, mais uma vez, nada foi feito. E agora o presidente Obama também não fez do tratado uma prioridade, algo que ele precisa fazer e que estamos pedindo para que ele faça. Por enquanto, participamos como observadores e provedores de conhecimento.

 

Mas ele pelo menos conhece a convenção? Tem interesse no assunto? Qual é sua sensação com relação à postura dele?

 

Minha impressão é que ele quer fazer a coisa certa, mas ainda não colocou isso como uma prioridade. A minha obrigação como cidadão é inspirar outros cidadãos, de modo que eles pressionem o presidente a mostrar liderança política e fazer aquilo que precisa ser feito. O que acontece nas florestas tropicais afeta todo o planeta. Estamos falando de um problema global, que precisa de uma solução global, e a participação dos EUA é crítica nesse sentido.

 

Mesmo não sendo parte da convenção, então, o senhor acha que os EUA está fazendo a sua parte frente a esse desafio?

 

Está fazendo parte da sua parte. Poderia fazer muito mais.

 

E quanto ao povo americano? O senhor acha que as pessoas nos EUA têm consciência da importância da biodiversidade?

 

Acho que elas têm consciência da crise ambiental do planeta de uma forma geral, mas ainda temos dificuldade em explicar o que é exatamente a biodiversidade. Estamos um pouco atrasados no esforço de passar essa informação para o público geral, de que a natureza fornece serviços essenciais que não podemos comprar com nossos dólares.

 

O senhor tem se tornado mais otimista ou mais pessimista com relação ao futuro do planeta nos últimos anos?

 

Nem otimista nem pessimista, apenas reflito sobre o assunto. Tivemos muitas pequenas vitórias desde que eu entrei para a Conservação Internacional, afetamos positivamente as vidas de muitas pessoas e muitas comunidades. Conseguimos proteção para muitos ecossistemas terrestres e marinhos. Mas nós sozinhos não somos suficientes para lidar com um problema dessa escala. Acho que há uma sensação geral de que a comunidade ambientalista não conseguiu exercer todo o impacto necessário. Somos todos muito bem intencionados, mas estamos abordando o problema espécie por espécie, e não conseguimos criar a comoção nem o engajamento necessários na sociedade para que ela, por sua vez, exija uma ação mais efetiva de suas lideranças políticas sobre esse assunto.

 

Na questão das mudanças climáticas essa mobilização social foi conquistada, apesar das dificuldades, mas não na biodiversidade. Por quê é tão difícil convencer as pessoas da importância desse tema?

 

Acho que é uma transição que tem de ser feita entre algo que as pessoas podem ver e sentir para algo que está na base do mundo natural, menos tangível, que é a biodiversidade. De qualquer forma, uma grande parte do esforço de mitigação das mudanças climáticas envolve a preservação de ecossistemas saudáveis. Então, se pudermos ter mais áreas protegidas, dermos tempo à natureza para se recompor, será bom para todos.

 

Qual é a sua principal preocupação atualmente?

 

O crescimento populacional e a pressão que isso coloca sobre os recursos naturais. Hoje temos mais de 6 bilhões de pessoas no mundo e, em alguns anos, teremos 9 bilhões. Se continuarmos usando os recursos naturais da maneira como usamos hoje, vamos precisar de duas Terras a mais para obter a comida e água necessárias para o nosso sustento. É insustentável. Entender a urgência desse problema é algo crucial.

 

O que o senhor pode dizer sobre o Brasil?

 

Posso dizer que o investimento que o Brasil tem feito para desenvolver uma economia verde é fantástico e que o país tem mostrado liderança e dado contribuições importantes em muitas situações. Eu já estive lá e fiquei muito impressionado com o que vi.

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