Tataraneto refaz o caminho de Darwin pelo Rio de Janeiro

O cientista lamentaria a perda da biodicersidade, mas celebraria o fim da escravidão, diz Randal Keyes

Herton Escobar, de O Estado de S. Paulo,

26 Novembro 2008 | 20h16

Charles Darwin ficaria horrorizado com a destruição da mata atlântica brasileira, que ele conheceu quase intocada, em 1832, e que hoje está reduzida a apenas 7% de suas florestas originais. Também ficaria chocado com a segregação social do Rio de Janeiro, ainda que se sentisse aliviado - e muito - com o fim da escravidão.   A opinião é de seu tataraneto, o conservacionista Randal Keynes, que está pela primeira vez no Brasil, refazendo os passos de seu tataravô pelas florestas tropicais fluminenses - ou o que sobrou delas. Darwin passou três meses no Rio de Janeiro, entre abril e julho de 1832, e fez uma expedição de 15 dias sobre sela de cavalo e lombo de mula até Conceição de Macabu, no norte do Estado.   No caminho, coletou plantas, animais, insetos e se impressionou - da pior maneira possível - com o tratamento dos escravos nos engenhos e cafezais. "Ele odiava o escravagismo", relata Keynes. "Essa foi sua outra grande experiência no Brasil, além da biodiversidade."   Keynes conversou com o Estado em meio a uma festa com feijoada na Fazenda Itaocaia, em Maricá, um antigo engenho escravocrata, no qual Darwin também almoçou e descansou.   Qual foi a importância do Brasil e do Rio de Janeiro para Darwin?   Foi imensa. O Brasil foi o primeiro lugar em um continente que ele visitou na expedição do Beagle. Foi aqui, no Rio, que ele viveu sua primeira experiência em uma floresta tropical ‘completa’. Ele adorava ir e voltar da mata, mergulhar no seu silêncio, na sua incrível diversidade de plantas, insetos e animais.   Ele já pensava sobre a teoria da evolução quando estava aqui?   Não. Naquela época ele ainda acreditava na ‘verdade literal’ do Gênese. Ele não tinha a menor idéia de que poderia desenvolver uma teoria na qual as espécies mudam no tempo.   Ele era um criacionista, então?   De certo modo, sim. Ele teve uma experiência muito importante no Brasil, que foi presenciar, de fato, a riqueza e a diversidade da vida nas florestas tropicais - coisa que ele só conhecia dos livros. Isso lhe deu um novo senso sobre a força criativa da natureza, que é o que dá origem à biodiversidade e que, mais tarde, se tornaria a base de sua teoria.   Pelo que o senhor está vendo aqui, qual seria a reação dele hoje, fazendo a mesma expedição?   Ele certamente ficaria chocado com o tanto da mata atlântica que foi perdido e com a biodiversidade reduzida que existe nas matas secundárias que substituíram as plantações de café e cana-de-açúcar. Ele também prestaria muita atenção na segregação entre ricos e pobres, e ficaria muito preocupado com isso. Porém, ficaria muito satisfeito ao saber que a escravidão foi abolida e que as pessoas de origem africana se integraram plenamente à sociedade. Ficaria certamente muito contente de ver essas pessoas aqui hoje, não mais vivendo como escravos, mas dançando sua capoeira para nós e se orgulhando dessa tradição.   O senhor esperava uma recepção tão calorosa e numerosa aqui?   Confesso que não. Estou emocionado com as boas-vindas, com o interesse das pessoas por Darwin e com o orgulho que elas sentem pelo fato de ele ter estado aqui. É muito bom ver os professores ensinando seus alunos sobre a evolução e sobre o mundo natural. Estou muito impressionado com a visão positiva que as pessoas têm de Darwin aqui.   Ainda assim, o embate entre criacionismo e evolução continua forte. O senhor acredita que essa discussão se resolverá um dia?   Tomara que sim, mas não tenho esperanças reais de que isso aconteça. Isso mostra o quão difícil ainda é para os seres humanos aceitarem suas raízes animais e sua relação com o mundo natural.

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