Tabelinha nutricionalzinha

Há algo de apaziguador naqueles números; é como se me colocassem no poder da minha alimentação

Leandro Quintanilha,

27 Julho 2011 | 00h15

Eu nunca gostei da tabela periódica. As planilhas do Excel, prefiro admirar à distância. Mas sempre nutri um certo encantamento pelas tabelas nutricionais. Porque há algo de apaziguador naqueles números. É como se me colocassem no poder da minha alimentação.

É como se cada ingrediente, cada componente químico, tivesse uma razão para existir: fazer de mim um consumidor mais saudável. Mas é claro que as calorias (apelidadas de "energia", que lindo), a gordura trans e o sódio estão ali também, para me advertir sobre a periculosidade da lasanha congelada.

Mas é que o meu cérebro tem um jeito próprio de interpretar tabelas nutricionais. É como se as fibras, as vitaminas e os minerais me redimissem de todo o resto. Se é sorvete, há de ter cálcio e proteínas. E massa ainda é massa se tiver 16% de fibras?

Por isso, você pode imaginar o quanto eu fiquei extasiado ao me deparar com a nova Coca Light. Ela, em sua nova lata prateada, esguia, com minerais e vitaminas do complexo B, a Coca Light Plus.

Mas como tudo na vida tem seu lado ruim (em geral, sódio), não houve autoengano o suficiente para que eu acreditasse – por muito tempo – nos efeitos compensatórios desse elixir gasoso contemporâneo. Por causa do sal, do aspartame (hoje mais condenado que radioatividade), dos corantes e aromatizantes que deixam quase tudo o que é industrializado deliciosamente traiçoeiro.

Não bastasse o meu desapontamento com o refrigerante vitaminado sem calorias, sofri um outro baque enquanto admirava a extensa tabela nutricional de um outro ícone da minha alimentação, o Ovomaltine.

A embalagem laranja/reluzente sempre me pareceu um convite para uma vida melhor. Uma vida com oito minerais e dez vitaminas. Uma vida de pele hidratada. Uma vida com 39% das necessidades diárias de ácido pantotênico, que eu nem sei para o que serve. Uma vida em que eu fosse mais alto, mais magro. Uma vida em Paris.

Até que eu me perguntei: "Poxa, 39% das minhas necessidades diárias de ácido pantotênico soam incríveis, mas onde é que eu vou arranjar os outros 61%?" Devo tomar três copos por dia? Se pulo a quarta-feira, tomo seis na quinta? Só me acalmo diante do lançamento do Toddynho Light, com 50% menos calorias, sem prejuízo de vitaminas e ácido fólico. Como diz um amigo, é o diminutivo do diminutivo. Mal posso esperar para ler sua tabelinha nutricionalzinha. Mas, bem, talvez seja melhor eu não atentar para as porcentagens.

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