Setor busca versão 'clean' de produtos domésticos

Apesar do marketing 'verde', efeito na qualidade da água ainda é pequeno

Andrea Vialli,

21 Março 2009 | 17h54

Detergente biodegradável. Amaciante de roupas concentrado. Sabão em pó livre de fosfato. Atenta ao potencial de mercado de produtos menos poluentes, a indústria de produtos de limpeza doméstica começou, de uns tempos para cá, a oferecer atributos ecológicos. A tendência, no entanto, é incipiente e ainda não trouxe melhorias para a qualidade da água.

A Química Amparo, fabricante do sabão em pó Ypê, anunciou no ano passado o lançamento de produto livre de fosfato, o Ypê Premium. Na formulação do novo sabão , a empresa substituiu o componente conhecido pela sigla STPP (tripolifosfato de sódio) por zeólito, um mineral que desempenha a função de coadjuvante na limpeza, mas com menor impacto ambiental.

O STPP presente no sabão em pó, apesar de facilitar a limpeza, vai para o esgoto e desemboca nos rios e lagos, sendo responsável por um efeito conhecido como eutrofização - a proliferação de algas na água, que consomem o oxigênio e provocam mortandade de peixes. "Tirar o fosfato do sabão em pó foi uma inovação e uma tentativa de se antecipar à legislação. O mercado está reagindo bem", diz Waldir Beira Júnior, diretor da Química Amparo.

Até 2005, o STPP respondia por até 15% da formulação dos sabões em pó comercializados no País. A resolução 359/05 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) impôs a redução gradativa do componente nos produtos de limpeza, sem bani-lo. Países como Japão e Holanda já baniram a substância.

Sem remover o fosfato de suas marcas de sabão em pó, a multinacional Unilever resolveu atacar em outra frente: lançou no mercado um amaciante de roupas concentrado, sob a marca Comfort. Segundo a empresa, a embalagem de 500 mililitros do produto tem rendimento semelhante à de 2 litros.

Na prática, possibilita uma economia de 79% de água na formulação e redução pela metade do consumo de água na hora de enxaguar a roupa. "O uso deste produto envolve uma grande mudança de hábito entre as consumidoras, assim como ocorreu na Europa, Ásia e Estados Unidos", afirma Priya Patel, diretora de Marketing da área de Higiene e Limpeza da Unilever.

Outra multinacional do ramo de produtos de limpeza, a Reckitt Benckiser, também está atenta à tendência. Fez o lançamento de um detergente em tabletes, o Finish, para lavar louça em máquina que também promete poupar água. Segundo a empresa, a lavagem de louça na máquina gasta seis vezes menos água do que a manual.

Marketing

Para especialistas, a tendência do mercado de oferecer produtos que poupam água ou livres de substâncias poluentes é válida. Mas apesar do marketing "verde" da indústria, os efeitos reais para a qualidade da água ainda são muito pequenos.

"As empresas ainda não perceberam a real oportunidade de mercado dos produtos menos poluentes. O que vemos são ações isoladas da indústria, que são válidas, mas ainda muito incipientes", afirma Hélio Castro, superintendente da Unidade de Produção de Água da Sabesp.

Castro afirma que a eliminação do fosfato do sabão em pó em grande escala seria fundamental para resolver o problema da eutrofização, o que reduziria substancialmente os custos com tratamento de água.

"No Japão, o consumidor exigiu da indústria que eliminasse o fosfato dos produtos de limpeza. Por aqui, falta consciência ao consumidor", diz Castro. "O preço determina o consumo. É só olhar as periferias e ver como se vendem detergentes caseiros, aqueles coloridos. Ninguém sabe o que tem lá dentro."

Para os fabricantes, a consciência até começa a aparecer, desde que não custe mais caro. "O consumidor busca desempenho e não quer pagar a mais pelo atributo ecológico", diz Beira Júnior, da Química Amparo.

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