Semi-árido tem saída até contra a fome

Imagem de desolação é substituída por alternativas para a população

Giovana Girardi,

02 Julho 2008 | 17h14

A imagem da caatinga passada pela literatura e pelos filmes é quase sempre um cenário de desolação, terra de êxodo, seca, pobre, sem muita chance de sobrevivência. Estudos recentes, porém, vêm mostrando que esse estigma não poderia estar mais errado. Se "o sertanejo é antes de tudo um forte", como frisou Euclides da Cunha, o bioma, o único exclusivamente brasileiro, também o é.    Biomanta ajuda a resgatar áreas degradadas  Matas podem arder em fornos de siderúrgicas  Projetos evitam o desperdício de água  Bioma em pé rende US$ 20 bi  59% da vegetação sofreu transformação  Referência mundial  Unir sustentabilidade e preservação é desafio  Área protegida beneficia a pesca  Criação de reserva privada colabora com biodiversidade  Incentivo para conservar  Florestas de eucalipto substituem campos  Muito além da Amazônia   Galeria de fotos   Os biomas brasileiros  "Cumprimento das legislação pelos proprietáros rurais não é o suficiente para preservação"  "É mais fácil lutar por um ecossistema com a ajuda da sociedade"   Considerado o semi-árido mais biodiverso do mundo, em meio a sua vegetação resistente à falta d’água estão soluções que podem combater a fome e até fazer frente ao processo de desertificação que ameaça a caatinga.   "Algumas dessas alternativas nós já conhecemos há anos, mas ainda faltam incentivos para a domesticação dessas plantas e sua produção em larga escala. Tudo que é retirado da mata é feito de modo extrativista, sem controle", comenta o pesquisador Iêdo Bezerra Sá, da Embrapa semi-árido.   Um exemplo são as plantas forrageiras, como os mais diversos tipos de cacto, que conseguem sobreviver sem água por vários meses e podem servir de alimento para o gado. De modo geral, a população conhece essa propriedade, mas o uso não é expandido. No lugar, tentou-se implantar espécies exóticas, como o capim africano.   "Muita gente vem para cá com novas tecnologias para resolver o problema da caatinga, mas o que têm de ser replicadas são as técnicas de convivência com o semi-árido", defende o secretário-executivo da Associação Caatinga, Rodrigo Castro.   A botânica Ana Maria Giulietti, especialista em biodiversidade da caatinga da Universidade Estadual de Feira de Santana, na Bahia concorda. "A melhor maneira de resolver os nossos problemas é usar nossas próprias plantas. Temos várias frutas saborosas e nutritivas, como o umbu, o cajá e o caju. E ainda a batatinha da serra, que é uma delícia em saladas , mas o povo se acostumou só com arroz, feijão e farinha", diz a pesquisadora.   "Estão enchendo o Nordeste de mamona, por causa dos biocombustíveis, mas essa nem é uma planta brasileira. Em compensação temos aqui umas 40 espécies da mesma família com um óleo tão bom ou até melhor, mas ninguém está pesquisando esse potencial", critica ela.   Ana Maria está colaborando com o Programa de Biodiversidade do Ministério da Ciência e Tecnologia, que procura determinar as condições de cada espécie na natureza. Já foram registradas pelo menos 932 espécies de plantas diferentes, sendo 318 endêmicas, o número total, porém, pode ser superior a 1,5 mil. Entre elas estão as árvores que perdem completamente as folhas durante a seca, a tradicional mata branca, mas há também florestas verdes, em especial nas regiões de montanha, que trazem um pouco de umidade para a região.   Ao longo do trabalho, os pesquisadores averiguaram, por exemplo, as condições da sempre-viva, uma florzinha extraída até quase a extinção para a confecção de enfeites que eram exportados. "Ela ocorre em único trecho da Chapada Diamantina e foi fonte de renda da região de Mucugê nas décadas de 70 e 80, mas hoje há poucos exemplares. Só que há um mercado enorme, temos de aprender a cultivá-la." O mesmo vem acontecendo, segundo ela, com o capim-dourado do Tocantins, tradicional na confecção de bolsas.

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