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Secretário assassinado em Altamira estava ameaçado de morte

Luiz Alberto Araújo combatia o desmatamento na região

André Borges e Rafael Pezzo, O Estado de S.Paulo

14 Outubro 2016 | 11h02

BRASÍLIA E SÃO PAULO - O secretário de Meio Ambiente e Turismo de Altamira, no Pará, Luiz Alberto Araújo, morto a tiros na noite desta quinta-feira, 13, estava ameaçado de morte, em função de suas ações de combate ao desmatamento na região. 

A informação foi confirmada ao Estado por Zelma Campos, secretária do Meio Ambiente de Brasil Novo (PA), município vizinho de Altamira. Luiz Alberto Araújo, de 54 anos, foi alvejado por nove tiros quando chegava com a família no condomínio onde morava, no bairro de Buriti, na periferia do município. Os disparos foram dados por dois homens, que usavam uma moto. O secretário morreu no local.

Zelma Campos, que foi secretaria do Meio Ambiente de Altamira, conhecia Luiz Alberto Araújo. "Ele sempre comentava que estava sofrendo uma pressão muito forte, por conta de suas ações de combate ao desmatamento na região e da implantação do Cadastro Ambiental Rural (CAR)", diz Zelma. "Nos falávamos frequentemente. Ele dizia que essa tensão estava muito forte ultimamente."

Segundo Zelma, a situação se agravou após serem intensificadas as ações de um programa contra o desmatamento apoiado pela comunidade internacional. No fim de 2010, o Ministério do Meio Ambiente firmou um projeto com a Delegação da União Europeia para o Brasil, com aporte de 4,9 milhões de euros (R$ 17,13 milhões), em três anos, para serem aplicados em São Félix do Xingu, município vizinho a Altamira. À época, Luiz Alberto Araújo era secretário de Meio Ambiente de São Félix e ficou encarregado de tocar as ações do chamado "Pacto Municipal para a Redução do Desmatamento".

Nos últimos meses, Araújo atuou na campanha para reeleição do prefeito Domingos Juvenil (PMDB), que foi reeleito. O secretário estava no cargo em Altamira havia cerca de três anos. 

"Isso tudo causa muita tensão entre nós. Há uma agenda muito pesada para ser cumprida na área do desmatamento. Aqui na nossa região, o Ministério Público Federal imputa essa missão ao município. Temos a obrigação de cumpri-la, mas não temos todos os instrumentos para isso", desabafa Zelma.

Segundo a secretária do Meio Ambiente de Brasil Novo, a morte de Luiz Alberto Araújo elevou a tensão entre os secretários dos municípios que compõem o Plano de Desenvolvimento Regional Sustentável (PDRS) do Xingu: Altamira, Anapu, Brasil Novo, Gurupá, Medicilândia, Pacajá, Placas, Porto de Moz, Pacajá, Senador José Porfírio, Uruará e Vitória do Xingu. O plano tem a missão de apoiar políticas públicas na região. 

"Temos um grupo que dialoga diariamente. Todos estamos numa apreensão muito forte com a gestão ambiental dessa região. É momento triste e muito preocupante para nós", disse Zelma. 

A Polícia Civil está investigando o caso. O Instituto Socioambiental (ISA), organização que possui um escritório em Altamira, declarou que o secretário foi parceiro das causas na região e que atuava no apoio às populações ribeirinhas e em suas reivindicações. "A sua gestão foi caracterizada pela isenção e a rigidez na aplicação da legislação ambiental. A cidade de Altamira perde um excelente gestor, que lutou pelo cumprimento das condicionantes urbanas da hidrelétrica de Belo Monte", declarou o ISA. "O secretário esteve à frente na luta pela instalação do saneamento urbano e no licenciamento do aterro sanitário da cidade. Luiz Alberto conseguiu articular a realização de Cadastro Ambiental em áreas tradicionalmente reticentes à intervenção do Estado, fazendo a sua parte na luta contra o desmatamento que aflige o município."

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