Satélites não detectam ‘mato denso’

Pequenos incêndios e corte ilegal de madeira reduzem a quantidade de carbono na Amazônia, de acordo com pesquisadores

Valéria França , ESPECIAL PARA O ESTADO

29 Agosto 2014 | 18h58

 SÃO PAULO - Considerada um espécie de pulmão do mundo, a floresta amazônica tem papel importante no processo de contenção do aquecimento global. A região concentra 35% de todo o estoque de carbono em florestas do planeta. Um grupo de cientistas britânicos e brasileiros descobriu que esse estoque é menor do que se pensava, porque a conta do carbono era feita com a floresta intacta.

Além das áreas desmatadas, há outras que estão degradadas, mas numa escala bem menor, que não é visível nas imagens de satélites monitoradas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). São regiões onde acontecem incêndios acidentais e extração de madeira.

Os pesquisadores recolheram amostras de plantas em 225 pontos que estavam nessas condições. Ao analisarem o material, concluíram que essas atividades causam a perda de 54 milhões de toneladas de carbono, equivalente a 40% das perdas produzidas pelo desmatamento. Para se ter uma ideia, seria o mesmo que ter 50 milhões de carros a mais circulando por ano no País.

"O levantamento calcula as emissões referentes a degradação florestal, que são muitas vezes negligenciadas pelas metodologias internacionalmente reconhecidas”, diz a bióloga Joice Ferreira, do Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) da Amazônia Oriental, uma das pesquisadoras. “O mais importante é alertar as autoridades para este problema, que deve ser monitorado com mais intensidade.”

As análises das amostras recolhidas foram combinadas com as das imagens do Inpe desde 1988, quando o Brasil começou a monitorar a floresta. Os pesquisadores estudaram áreas que do alto até parecem intactas. Só que foram transformadas em espécie de mato denso, cheio de árvores e cipós, por incêndios acidentais ou pelo corte ilegal de madeira. A biodiversidade foi totalmente abalada. A retirada de uma árvore de alto valor econômico, como um mogno ou um ipê, causa danos a muitas árvores ao redor.

“O Brasil avançou muito a vigilância do desmatamento. A cada ano, por exemplo, há um evento em Brasília para discutir os índices anuais”, diz Luiz Aragão, do Inpe, biocientista especializado em ecossistemas tropicais. “Mas pouco se fala dos incêndios ou da exploração ilegal da madeira. ”

O monitoramento do desmatamento da Amazônia foi fundamental para diagnosticar o tamanho do problema. A partir dele, o governo traça políticas mitigadoras. “Acho importante chamar a atenção para o fato de que há diferentes formas do governo atuar no controle dos desmatamentos. Uma delas é o incentivo para usar os recursos naturais de forma sustentável e evitar a necessidade de expansão de áreas e, assim, novos desmatamentos.”

Melhorar o acesso da população a novas técnicas que contribuam para uma agricultura sustentável estão entre as ações possíveis. “O caminho é produzir mais com menos recursos ambientais”, diz Marina Grossi, do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS). O Pais já tem tecnologia para medir gases de efeito estufa, estoque de carbono e a evolução do desmatamento. “Agora precisa usar isso a favor de uma economia mais sustentável.”

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