Herton Escobar / Estadão
Herton Escobar / Estadão

Redução do desmate na Amazônia pode ter salvo até 1.700 vidas

Primeiro estudo a mostrar relação entre queimadas e saúde estima que fumaça diminuiu 30% nos últimos anos

Giovana Girardi, O Estado de S. Paulo

16 Setembro 2015 | 14h40

Atualizada às 19h

Além de proteger a biodiversidade e conter a emissão de gases de efeito estufa, a forte redução do desmatamento que ocorreu na Amazônia nos últimos dez anos teve efeito positivo também na saúde. É o que aponta estudo realizado por pesquisadores da Inglaterra, dos Estados Unidos e Brasil publicado nesta quarta-feira, 16.

A pesquisa, publicada no periódico Nature Geoscience, é a primeira a mostrar a relação entre desmatamento e saúde. A ideia é que se a perda florestal foi menor, significa que houve menos queimadas e, portanto, menos fumaça contendo material particulado e outros poluentes prejudiciais à saúde, como monóxido de carbono (CO) e óxidos de nitrogênio.

Trabalhando com imagens de satélite, medições no solo, modelos de circulação atmosférica e cálculos que relacionam poluição e doenças, os autores concluíram que, com menos queimadas, diminuiu em até 30% a camada de fumaça. Com isso, de 400 a 1.700 mortes podem estar sendo evitadas anualmente na América do Sul.

A abrangência do benefício se dá, explica o físico Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo, e um dos autores do estudo, porque a fumaça, que é gerada principalmente no sudoeste da Amazônia (onde está o chamado arco do desmatamento), se transporta junto com vapor d’água para todo o continente.

Segundo ele, no auge do desmatamento, que atingiu mais de 27 mil km² na Amazônia, em 2004, era possível ver claramente do espaço uma grossa camada de fumaça sobre a região. Hoje a taxa anual está em cerca de 5 mil km², uma redução de mais de 80%. Ainda é possível ver pelos satélites, mas a espessura já é bem menor.

Os pesquisadores, liderados por Dominick Spracklen, da Universidade de Leeds, no Reino Unido, analisaram a profundidade da camada de fumaça por imagens de satélite e com sensores localizados no solo durante a temporada seca no sudoeste da Amazônia, entre agosto e outubro no período de 2001 a 2012. “Em anos com altas taxas de desmatamento, a atmosfera estava muito mais poluída se comparada a anos com baixo desmatamento. Com a forte queda, os níveis de poluentes associados também diminuíram”, diz Artaxo.

Essas observações foram depois combinadas com modelos atmosféricos de circulação global. A fumaça gerada na Amazônia vem parar, por exemplo, no Sudeste do Brasil. Considerando a densidade populacional, Artaxo estima que os maiores benefícios da redução das queimadas foi sentido nessa parte do Brasil. “Mas claro que no entorno a melhora também é visível. “Há 20 anos, quando ia, por exemplo, para Alta Floresta (MT), voltava para o hotel cheirando a queimada, como se estivesse do lado de uma fogueira. Hoje não é mais assim”, conta o físico.

"A pesquisa demonstra que há vários benefícios positivos para a redução desmatamento. Reddington e colegas eloquentemente ilustram como a redução de fogo para desmatar em todo o Brasil diretamente produz co-benefícios para a saúde humana. Embora a frequência dos incêndios no Brasil também seja afetado pelas condições climáticas, mudanças nas atividades humanas dentro da região pode ter efeitos positivos importantes tanto sobre o ecossistema quanto sobre a saúde humana", comenta Christine Wiedinmyer, da Noaa (Centro Nacional para Pesquisa Atmosférica dos EUA), em uma artigo que acompanha a pesquisa.

Artaxo defende, por isso, que o Brasil foque nos próximos anos em zerar o desmatamento total, não somente o ilegal, como propôs o governo federal. Pelo Código Florestal brasileiro, proprietários de terra têm de preservar 80% de suas terras se elas estiverem na Amazônia e 20% nos demais biomas. O que abre a possibilidade para que eles desmatem no resto. "Reduzir para desmatamento zero é fundamental para o país. Porque também vai salvar vidas", afirma.

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