Filipe Araújo/Estadão
Filipe Araújo/Estadão

Recuperação da camada de ozônio pode não estar ocorrendo fora dos polos

Estudo revela declínio da concentração do gás nas partes mais baixas da estratosfera, nas áreas onde vive a maior parte da humanidade

Fábio de Castro, O Estado de S.Paulo

06 Fevereiro 2018 | 06h00

SÃO PAULO - A camada de ozônio que protege a Terra, evitando que ela receba um nível excessivo de radiação ultravioleta, está em franca recuperação sobre os polos, mas o mesmo não acontece sobre o resto do planeta, segundo um novo estudo.

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Depois da proibição do uso dos produtos químicos aos quais era atribuído o declínio da camada de ozônio, ela começou a se recuperar, especialmente nos polos. 

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Mas, de acordo com um artigo publicado nesta terça-feira, 6, na revista científica Atmospheric Chemistry and Physics, da União Europeia de Geociências, a recuperação não está acontecendo na parte inferior da camada de ozônio em latitudes mais baixas - exatamente onde se concentra a maioria esmagadora da humanidade. A causa ainda é desconhecida.

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O ozônio é uma substância que se forma na estratosfera, a região da atmosfera que fica acima de 10 quilômetros e abaixo de 50 quilômetros de altitude. O gás é produzido nas latitudes tropicais e naturalmente distribuído por todo o planeta. Uma grande parcela do ozônio se concentra na parte mais baixa da estratosfera.

A camada de ozônio absorve a maior parte da radiação ultravioleta emitida pelo Sol. Se essa radiação atingisse a superfície da Terra sem essa proteção, causaria danos ao DNA das plantas, animais e humanos. Os efeitos sobre a saúde humana incluem catarata e câncer de pele.

Na década de 1970, os cientistas descobriram que a quantidade global de ozônio na estratosfera estava em declínio por causa da ação de determinados produtos químicos fabricados pelo homem, como o CFC, utilizado na refrigeração e em aerossóis. O efeito era mais concentrado sobre a Antártica, onde se formou um buraco na camada de ozônio. Em 1987, foi assinado o Protocolo de Montreal, que baniu o CFC. Os resultados começaram a aparecer recentemente, com sinais claros da recuperação da camada de ozônio sobre a Antártica. 

Nas partes mais altas da estratosfera, também houve também claros sinais de recuperação em latitudes mais distantes dos polos. Mas o novo estudo mostra que um inesperado declínio do ozônio na parte mais baixa da atmosfera está impedindo a recuperação da camada nas latitudes mais baixas, entre os paralelos 60 Norte e 60 Sul.

"O ozônio tem declinado seriamente, em nível global, desde a década de 1980, mas, embora a proibição do CFC tenha levado à recuperação sobre os polos, o mesmo não acontece nas latitudes mais baixas", disse uma das autoras do estudo, Joanna Haigh, do Imperial College London (Reino Unido). "O dano potencial em baixas latitudes pode é muito pior do que nos polos. O declínio no ozônio é menor do que o que foi registrado nos polos antes do Protocolo de Montreal, mas a radiação ultravioleta é muito mais intensa nessas regiões e há muito mais gente morando lá."

As causas do declínio do ozônio na parte baixa da estratosfera não estão claras, segundo os cientistas. Uma das hipóteses levantadas é de que as mudanças climáticas estão alterando os padrões de circulação da atmosfera, carregando mais ozônio para longe dos trópicos.

Outra possibilidade, segundo eles, é que as chamadas "substâncias de vida extremamente curta" (VSLS, na sigla em inglês), que contêm clorina e bromina, podem ser responsáveis pela destruição do ozônio na baixa estratosfera. Os VSLSs incluem produtos químicos utilizados em solventes e em agentes desengordurantes.

"A descoberta de um declínio no ozônio em baixas latitudes é uma surpresa, já que nossos melhores modelos atuais de circulação atmosférica não preveem esse efeito. As VSLS podem ser a variável que faltava nesses modelos", afirmou outro dos autores do estudo, William Ball, da ETH Zurich (Suíça).

Segundo o cientista, pensava-se que as VSLS não persistiriam na atmosfera tempo o suficiente para alcançar a estratosfera e afetar o ozônio. Mas será preciso realizar mais pesquisas para compreender o que está acontecendo.

Para realizar a análise, a equipe desenvolveu novos algoritmos para que permitiram criar uma robusta e longa série temporal, a partir da combinação de esforços de várias equipes internacionais que trabalharam para conectar os dados de diferentes missões de satélites realizadas desde 1985.

"O estudo é um exemplo de esforço internacional orquestrado para monitorar e compreender o que está ocorrendo com a camada de ozônio. Muitas pessoas e organizações trouxeram novos dados, sem os quais a análise não seria possível", disse Ball.

A pesquisa teve participação de cientistas de diversas instituições da Suíça, Reino Unido, Estados Unidos, Suécia, Canadá e Finlândia e incluiu dados reunidos por missões de satélite da Nasa e de outras agências espaciais.

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