Qualidade do tratamento e foco do programa são questionados

Para especialista, única estação que funciona efetivamente é a de Alegria, no Caju

Felipe Werneck,

22 Março 2012 | 18h35

 O especialista Paulo Canedo, professor de recursos hídricos da Coppe/UFRJ, questiona não apenas os números apresentados pelo governo, de milhares de litros de esgoto tratado por segundo, mas a qualidade do tratamento no Rio.

Segundo ele, a única estação que funciona efetivamente é a de Alegria, no Caju, ainda assim “mal e porcamente”. “A situação é absolutamente ridícula. Deveriam assumir e encarar a realidade. Não adianta tapar o sol com a peneira. Pode ser que o esgoto tratado seja tão ruim quanto entrou.”

Consultor do Banco Mundial em projeto de saneamento realizado no Espírito Santo, Canedo diz que lá o critério exigido é a qualidade do resíduo que sai da estação. “Aqui (no Rio) sequer falam nesse assunto.” Outro problema é o lodo - só na estação de Alegria, 40 toneladas de lodo que resultam por dia do processo de tratamento precisam ser descartadas no aterro sanitário de Gramacho, que está saturado e a prefeitura promete fechar até o meio do ano.

 

Canedo lembra que a estação de Sarapuí, quando foi inaugurada, em 2000, “tratava” apenas água do rio, por falta de ligações com as redes. “Não tinha esgoto nenhum. São meias verdades. Essa numerologia não tem valor. O sistema não funciona porque não tem rede coletora. E metade da culpa é dos municípios.”

Para Canedo, o inimigo número um é o esgoto doméstico não tratado, depois vem o nível do tratamento. “Tem que melhorar muitíssimo para ficar muito ruim. É uma barbaridade. Não tem um rio limpo na zona urbana. Nossa condição sanitária é medíocre. Tanto é que o governo considera a baía um organismo semimorto.”

O nome Programa de Despoluição da Baía de Guanabara é charmoso, avalia o professor, porém tecnicamente inconveniente. “Não se trata de despoluir a baía, mas os rios que chegam lá. Se parar de sujar, há uma autorrecuperação.” Na opinião dele, o que se deve fazer é concentrar tudo em coleta de esgoto. “Qualquer outra coisa é firula.” O especialista também aponta como problema a falta de regulação no setor de saneamento. “Qualquer jogo que se joga sem regra e sem juiz vira zona.” Sobre o presidente da Cedae, Wagner Victer, Canedo diz que é “o melhor que a que a empresa já teve”, e completa a frase: “isso não é um elogio a ele, é só uma crítica à Cedae, porque apesar de ruim ele foi o melhor.”

LUTA - O arquiteto e professor de ciência política Manuel Sanches coordenou o grupo de 14 pessoas que idealizou o PDBG, mas ficou pouco tempo no cargo executivo. Ele diz que o objetivo inicial era bem mais amplo, com vários outros componentes e uma visão sistemática do problema. “Foi uma luta para tratar o PDBG como um programa ambiental, e não apenas de saneamento. De certa forma, fomos um exemplo para a criação dessas carteiras no BID. Mas o programa agarrou-se à parte sanitária, que sozinha não vai resolver o problema.”

Sanches ficou na coordenação do PDBG somente até 1993, quando se desentendeu com o então governador Leonel Brizola. Segundo ele, o motivo foi o pedido de dispensa de licitação para contratação de uma empresa, no valor de US$ 5 milhões, sob o argumento da notória especialização. “É assim que o sistema funciona em obras públicas, com pressão de empreiteiras sobre políticos, e vice-versa”, diz Sanches. “Mas eu não queria servir de boi de piranha. Como servidor público, não podia fazer aquilo. Não cabia, havia normas que impediam. Tanto que a licitação não foi feita depois que eu saí.”

O professor conhece os problemas que resultaram da condução do programa pela Cedae, mas avalia que ele superou o principal obstáculo: ser abandonado de vez ao longo do processo. “O PDBG passou por seis governos e nenhum pode dizer que é dono dele, todos fizeram alguma coisa. A questão não é saber se deu certo ou não, mas que levou vinte anos e não quatro, como estava previsto. Está incompleto, mas por outro lado resiste. E, por incrível que pareça, o BID vai botar mais dinheiro”, diz Sanches, que lamenta a falta de mobilização da sociedade para defender o programa e cobrar resultados. “Teria avançado mais rápido.”

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