Chor Sokunthea/Reuters
Chor Sokunthea/Reuters

Projetos de hidrelétricas ameaçam o rio Mekong, no sudeste asiático

Caso sejam instaladas, usinas podem prejudicar população de 65 mi e causar perda US$ 476 mi/ano para a pesca na região

Gustavo Bonfiglioli, com agências - Especial para o Planeta,

25 Outubro 2010 | 22h07

Com nascente no Planalto Tibetano, o Mekong é décimo terceiro rio mais extenso do mundo. Percorre 4 mil quilômetros, passando por China, Birmânia, Tailândia, Laos, Camboja e Vietnã, onde desemboca em delta no Mar da China Meridional. Nestes países, cerca de 65 milhões de pessoas dependem do rio como principal fonte de água e alimento.

 

No mesmo Mekong, uma das bacias hidrográficas com maior biodiversidade do planeta e mais de 1200 espécies de peixes identificadas, onze usinas hidrelétricas estão previstas para serem construídas, sob aprovação dos governos do Laos e do Camboja (nove no Laos e duas no Camboja). A China, que já construiu quatro usinas no rio, também pretende construir mais quatro - incluindo a já iniciada Nuozhadu.

 

Na última semana, a Comissão do Rio Mekong (MCR, na sigla em inglês), organização integrada por representantes da Tailândia, Laos, Camboja e Vietnã (Birmânia e China entram como “parceiros de diálogo”), submeteu um relatório que recomenda a não-construção de nenhuma hidrelétrica no curso do rio nos próximos dez anos.

 

O documento, chamado “Avaliação Estratégica Ambiental” (SEA, em inglês), indica uma perda de até US$ 476 milhões por ano para a pesca na região, caso as usinas sejam construídas. As populações que vivem à beira do rio seriam as mais afetadas, em países como o Laos e o Camboja, que já são dos mais pobres da Ásia. Os projetos comprometeriam os recursos hídricos de dezenas de milhões de pessoas.

 

"Os principais projetos podem resultar em graves e irreversíveis danos ambientais, prejuízos na saúde a longo prazo e na produtividade dos sistemas naturais e perdas de diversidade biológica", aponta um dos trechos do relatório. Os projetos também cortariam a rota de migração do bagre gigante do Mekong, um peixe ícone da cultura do rio, bloqueando as áreas de desova, localizadas no norte da Tailândia e do Laos.

 

O baixo Mekong sofreu, no início deste ano, sua pior estiagem em 50 anos. O rio, na época do ano, tem habitualmente um caudal de até 500 metros cúbicos por segundo, mas estava com 250. Na ocasião, a maior responsabilizada pelos países do sudeste asiático foi a China, que construiu quatro hidrelétricas no rio, incluindo Xiaowan, que tem a mais alta represa do mundo: 292 metros de altura. Em abril, as autoridades chinesas rejeitaram as críticas, ao anunciar que a seca é “um processo natural” do Mekong. O país constrói desde 2006 sua próxima hidrelétrica, Nuozhadu, que deve ficar pronta até 2017.

 

Apesar disso, o governo do Laos também vislumbra a possibilidade de construir suas hidrelétricas, que poderia alavancar a economia do país, que vive em pobreza crônica, através da venda de energia para os vizinhos Vietnã e Tailândia. Ambos fazem parte dos chamados “Novos Tigres Asiáticos”, grupo de países que tiveram grande crescimento industrial a partir da década de 80, e têm grande demanda energética.

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