Projetos de geoengenharia voltam a ser cogitados para coibir aquecimento global

Com o impasse acerca de um acordo legalmente vinculante em Cancún, soluções de geoengenharia voltam a ser consideradas

Gustavo Bonfiglioli, Especial para O Estado

24 Novembro 2010 | 13h28

Espelhos gigantes no espaço rebatem parte dos raios de volta para o Sol. Nuvens artificialmente cheias de água do mar reforçam a barreira antirradiação. Oceanos com proliferação intensa de fitoplâncton após a adição de ferro na água capturam carbono da atmosfera. Caríssimas e mirabolantes, as tecnologias de intervenção humana no planeta com o fim de mitigar os efeitos do aquecimento global mais parecem roteiros de ficção científica saídos de Hollywood.

 

Apesar disso, algumas dessas técnicas, batizadas de geoengenharia, já são realidade, como a captura e enterro de carbono debaixo da terra e do mar. Outras são objeto de pesquisa financiada por grandes instituições como a Nasa, a Royal Society, o Parlamento Britânico e o American Enterprise Institute (AEI) – e alvo de controvérsia por causa dos efeitos colaterais para o planeta.

 

Veja também

 

Moratória para pesquisa é polêmica

 

Espelhos no espaço têm alto custo

 

Em outubro, na última Convenção da ONU sobre Biodiversidade (COP-10), em Nagoya, no Japão, após pressão intensa de ambientalistas que temem o passivo ambiental decorrente dos projetos, foi definida uma moratória para a aplicação da geoengenharia. A proibição não abrange as pesquisas, que também são criticadas por conta das verbas altas destinadas a essas invenções.

 

Os custos da geoengenharia são altos. Variam de US$ 27 bilhões, no caso da fertilização dos oceanos, a US$ 5 trilhões para projetos espaciais como o dos espelhos gigantes– valor maior que o do PIB do Brasil no ano passado, de R$ 3,143 trilhões. Mas o custo ambiental é o maior entrave para a aplicação e até para a continuidade das pesquisas.

 

Clique na imagem abaixo para ver infográfico com cinco dos principais megaprojetos de geoengenharia:

 

 

Estudos

 

O oceanógrafo John Shepherd, da Royal Society, escreveu um relatório sobre geoengenharia e é defensor ferrenho das pesquisas na área. Mesmo assim, ele não descarta o risco de dano ambiental: “É aceitável a preocupação de que algo pode dar errado, mas eu não acredito que a geoengenharia seja tão prejudicial para o meio ambiente como o efeito estufa está sendo para o mundo. Nós ainda sabemos muito pouco sobre os possíveis impactos, e é por isso que fazemos as pesquisas.”

 

Opositores e defensores da geoengenharia parecem concordar que o conhecimento sobre seus possíveis efeitos no planeta é pequeno. “É um buraco negro. É mexer com algo que você não conhece, ou conhece pouco”, afirma Arnaldo Alves Cardoso, doutor em Química pela Universidade de São Paulo.

Alguns críticos consideram que os projetos de alta tecnologia são mais um expediente usado por governos e empresas para deixar de tomar medidas que de fato cortem as emissões de carbono.“É outra tentativa velada para achar uma alternativa que evite a redução de emissões”, diz o físico da USP Paulo Artaxo.

 

Artaxo afirma que algumas das alternativas estudadas pelas empresas são arriscadas demais para o planeta. “Semear nuvens para que elas reflitam radiação prejudica as plantas, que precisam dessa luz para fazer a fotossíntese. Isso pode prejudicar a produção de alimentos.”

 

Shepherd salienta que as tecnologias de adaptar o mundo ao efeito estufa são parte de um esforço pela redução de emissões. “A visão da Royal Society é a de que a redução de emissões ainda é a principal prioridade. Mas isso não é fácil e nós temos que considerar as adaptações.”

 

Soluções caseiras

 

 A geoengenharia não contempla apenas megaprojetos de alta tecnologia. Ela prevê também soluções simples, como pintar de branco o teto das construções ou os pavimentos, para aumentar a capacidade de refletir a luz do sol. Um estudo feito pelos cientistas Hashem Akbari e Surabi Menon, do Lawrence Berkeley National Laboratory, da Universidade de Berkeley, na Califórnia, calcula que, se as prefeituras das cem maiores cidades do mundo pintassem os tetos de branco e utilizassem concreto no lugar de asfalto, seria possível compensar a emissão de 44 bilhões de toneladas de gás carbônico.

 

Porém, a maioria dos projetos não é caseira e propõe transformações radicais no planeta. É o caso, por exemplo, da fertilização dos oceanos com ferro, o que pode modificar o pH dos mares e prejudicar ecossistemas marinhos, segundo estudo da ONG sueca Swedish Society for Nature Conservation.

Na opinião do consultor em energia alternativa Sérgio Trindade, ex-integrante do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU, é preciso entender bem como funciona cada tecnologia e analisar suas possíveis consequências negativas. “Alguns políticos e instituições tratam essas alternativas como se fossem produtos em um supermercado”, compara o engenheiro químico, co-laureado com o Nobel da Paz por seu trabalho no IPCC. Para Trindade, é indispensável consultar e respeitar as comunidades que dependem das áreas que possam ser afetadas pelos projetos.

 

Captura de carbono

 

 

Shepherd avalia que a estocagem subterrânea de carbono, empregada em países como Noruega e Canadá, é a alternativa de geoengenharia mais segura à disposição atualmente. A técnica de Captura e Sequestro de Carbono (CCS, na sigla em inglês) não foi incluída no rol da moratória definida na COP em Nagoya, embora exista o risco de vazamento.

 

O pesquisador é otimista quanto ao possível dano ambiental. “É claro que pode acontecer, mas seria muito em longo prazo. Até lá, espera-se que a tecnologia em energias renováveis já tenha se desenvolvido para diminuir ou cessar a demanda pela CCS.” /COLABOROU KARINA NINNI, ESPECIAL PARA O ESTADO

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