Projeto recupera bacia hidrográfica do Rio das Velhas, em MG

O chamado Projeto Manuelzão é um programa de extensão da Universidade Federal de Minas Gerais

Ana Bizzotto, especial para o Estado,

10 Maio 2009 | 21h23

Pescador por hobby, João Pereira se alegra com a volta do peixe ao Rio das Velhas, principal afluente do São Francisco. A situação testemunhada por ele em sua fazenda, que fica a 800 metros da margem do rio, na cidade de Baldim (MG), era bem diferente há dois anos. “Não dava nem para chegar perto do rio por causa do mau cheiro. Antes eu só via peixe morrer e agora encontro peixes como o dourado e o curimatã”, comemora.

 

Um dos principais incentivadores da recuperação da bacia hidrográfica do Rio das Velhas é o Projeto Manuelzão, programa de extensão da Universidade Federal de Minas Gerais que concilia o trabalho científico com a mobilização social de empresas, governos e sociedade civil. Neste mês, o projeto organiza a Expedição pelo Velhas 2009 - Encontros de um povo com sua bacia, que teve início na sexta-feira e se estenderá até 6 de junho com atividades culturais, navegação, educação ambiental, oficina, debates e mini-expedições com a participação de moradores.

 

Participantes da Expedição Manuelzão desce o rio das Velhas no alto da Cachoeira das Andorinhas, em Ouro Preto (MG), onde fica a nascente do rio. Divulgação

 

O objetivo é integrar as diferentes culturas da região e incentivar na população a ideia de pertencimento à bacia. “O Rio das Velhas nos deu régua e compasso para fazer um movimento amplo de mudança. Mas esse movimento precisa dar o passo seguinte e ser feito em escala internacional, pois não temos força para mudar aqui se a situação não mudar no resto do mundo”, afirma o fundador e coordenador do Projeto Manuelzão, Apolo Heringer Lisboa. Ele considera que foram alcançados bons resultados, mas muito ainda precisa ser feito. “Temos de avançar na gestão do solo e na educação ambiental de políticos e empresários. Não basta promover educação ambiental apenas para a população.”

META 2010

 

Em 2003, o projeto organizou a Expedição Manuelzão desce o Rio das Velhas, que percorreu os 804 quilômetros do curso d'água e mobilizou moradores dos 51 municípios da bacia para a importância de recuperar o rio. A iniciativa resultou na Meta 2010, que estabeleceu o objetivo de navegar, nadar e pescar no Rio das Velhas, em sua passagem pela Região Metropolitana de Belo Horizonte, até o ano que vem. Em termos técnicos, isso significa conseguir que o rio alcance a classe II, estabelecida pela resolução do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) para águas destinadas ao consumo humano, recreação, irrigação e pesca.

 

Participantes da Expedição Manuelzão desce o rio das Velhas fazem rapel na cachoeira das Andorinhas, em Ouro Preto (MG), onde fica a nascente do rio. Divulgação

 

A meta foi assumida pelo governo de Minas Gerais como um programa estruturador considerado prioritário pelo Estado. De acordo com o secretário de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais, José Carlos Carvalho, os investimentos do governo estadual e dos municípios para a recuperação da bacia somam R$ 1,4 bilhão. Desse total, R$ 600 milhões já foram investidos e R$ 800 milhões serão aplicados até 2010, principalmente na instalação de estações de tratamento de esgoto (ETEs) em cidades da bacia.

 

“Com esses investimentos, Belo Horizonte vai se tornar a primeira capital do país com capacidade instalada de 100% para o tratamento de esgoto”, afirma Carvalho, que ressalta a importância de manter ações permanentes de mobilização e saneamento, mesmo depois que a meta for atingida. “A expedição é importante para mostrar o que está sendo feito e incentivar a população a continuar cobrando desse e dos próximos governos que o rio continue vivo.”

 

Segundo a coordenadora do programa Rede das Águas da Fundação SOS Mata Atlântica, Malu Ribeiro, os estados de Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul estão mais avançados que o governo federal em ações para a gestão integrada de bacias hidrográficas. Exemplo disso é o grande número de comitês e subcomitês de bacia, que reúnem representantes sociedade civil, municípios e órgãos estaduais. “Inspirado por essas três experiências, o governo adotou um sistema nacional. É um avanço, pois a decisão, em vez de tomada no gabinete, passa a ser compartilhada”, afirma a coordenadora.

 

Os canoeiros Rafael Bernardes, Ronald Carvalho (Roninho) e Erick Wagner em ação durante a Expedição Manuelzão desce o rio das Velhas, em 2003. Divulgação

 

De acordo com Lisboa, o Projeto Manuelzão ganhou muita legitimidade em seus 12 anos de trabalho, e um indicador disso é ter sido um dos organizadores do I Seminário Internacional Sobre Revitalização de Rios. Reunidos em Belo Horizonte em setembro de 2008, representantes da França, Inglaterra, Estados Unidos, Alemanha, Minas Gerais e São Paulo relataram experiências de recuperação de seus rios.

 

Entre as ações do Manuelzão está o programa de biomonitoramento, que avalia a presença de espécies de invertebrados bentônicos e peixes nas águas do Rio das Velhas. “Nas áreas onde foi iniciado o tratamento do esgoto, constatamos um aumento do número de espécies de peixes e o reaparecimento dos invertebrados. É um indicador que representa a melhoria da qualidade da água, explica o biólogo do projeto, Carlos Bernardo Mascarenhas Alves.

A constatação desses resultados por parte dos moradores da bacia chega ao projeto via internet. “Recebemos todo dia e-mails de pescadores do baixo e médio curso do rio com relatos e fotos dos peixes que eles pegaram”, diz o coordenador da Expedição pelo Velhas 2009, Marcus Vinícius Polignano. Adeptos da pesca amadora como o senhor João Pereira estabelecem contato por meio da rede social Amigos do Rio, criada no site do projeto (www.manuelzao.ufmg.br), e comprovam por meio de suas histórias que a volta dos peixes ao rio não é apenas lenda de pescador.

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