Prioridade ainda é a mudança do clima, diz chefe do Greenpeace

Em visita ao Brasil, o sul-africano Kumi Naidoo falou com exclusividade ao Estadão

Entrevista com

Afra Balazina, AE

17 Março 2010 | 21h57

O sul-africano Kumi Naidoo entrou na luta contra o apartheid aos 15 anos e chegou a ser preso e exilado por causa do ativismo social. Agora, aos 44 anos, ele continua militando, mas principalmente na área ambiental.

 

Como diretor executivo do Greenpeace Internacional, ele esteve por 15 dias no Brasil neste mês. Conheceu a Amazônia e se encontrou com os presidenciáveis José Serra (PSDB), Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva (PV). Em meio à agenda cheia, ele conseguiu um tempinho para falar ao Estado:

 

A prioridade para o Greenpeace neste ano continuam sendo as mudanças climáticas?

Sim. Como o trabalho não foi feito na Conferência do Clima de Copenhague, a urgência é ainda maior. De acordo com cientistas, temos 65 meses restantes até 2015, quando as emissões de gases-estufa têm de chegar a um pico (e depois disse deve cair). Isso é muito pouco tempo. O fato de não termos conseguido um tratado justo, ambicioso e legalmente vinculante em Copenhague significa que perdemos um tempo que não temos. Devemos lembrar que o presidente George Bush, que era um negacionista (a respeito das mudanças climáticas) segurou o mundo todo por oito anos. E, tristemente, Barack Obama quer se mover mais, porém o Senado não está disposto a avançar.

 

Quais são as outras questões importantes para a ONG?

Enquanto continuamos com as mudanças climáticas como alta prioridade iremos também focar em proteger florestas, oceanos, trabalhar para a criação de reservas marinhas. Também continuamos a trabalhar para promover a agricultura sustentável e contra os alimentos geneticamente modificados.

 

O senhor está preocupado com o futuro do Painel do Clima da ONU (IPCC), após terem sido apontados erros no relatório do grupo?

Estamos preocupados. Mas o que estamos vendo são os últimos chutes de um cavalo moribundo. O que temos é uma indústria de combustíveis fósseis com muita influência sobre governos poderosos, muito dinheiro e lobistas que sabem manipular a mídia - e assim por diante. Mas, em substância, as conclusões do IPCC são sólidas. Na verdade, com base no que o IPCC disse em 2007, o que temos visto no mundo é ainda pior. Não esperávamos que a plataforma Antártica se quebrasse.

 

Qual é o perigo de não acreditar no aquecimento global e em seus impactos danosos?

Eu venho da África, onde perdemos milhões de pessoas por doenças relacionadas ao HIV/Aids. E até o presidente chegou a contestar a ciência (Jacob Zuma teve um filho fora do casamento, o que demonstraria que ele não é adepto do sexo seguro). E agora, na África, como resultado do atraso, perdemos muitas vidas e devemos garantir que isso não ocorrerá novamente, com as mudanças climáticas. Por que dessa vez a perda de vidas será significantemente maior.

 

Quem, em sua opinião, deveria ocupar o cargo de secretário executivo na Convenção do Clima da ONU no lugar de Yvo de Boer, que deixa o posto em julho?

Acho que seria uma boa escolha para o cargo o ex-ministro do Meio Ambiente da África do Sul, Martinus van Schalkwyk, que é o atual ministro do Turismo e teve um papel positivo nas negociações até agora. Mas não está confirmado, é só um boato. Seria importante ter uma pessoa de um país em desenvolvimento no cargo, já que ele foi quase sempre ocupado por pessoas de países desenvolvidos. É preciso mandar uma mensagem de que as mudanças climáticas não são algo que está sendo impulsionado somente pelos países ricos, mas pelos desenvolvidos e aqueles em desenvolvimento.

 

Qual é sua expectativa para a COP 16, em Cancún, no México?

Há uma diferença entre nossa expectativa e nossa reivindicação. Nós queremos que eles façam o trabalho que não realizaram em Copenhague, que é entregar um acordo justo, ambicioso e legalmente vinculante. Mas até o secretário Yvo de Boer disse que considera difícil um acordo neste ano. Nada é impossível. Se tivermos a mesma vontade política que houve para salvar os bancos durante a crise econômica, quando foram mobilizados trilhões, podemos entregar esse trabalho. Nossos políticos precisam acordar e parar de jogar um pôquer político com o futuro das nossas crianças. Mas também depende dos cidadãos mandar uma mensagem clara de que desejam um acordo forte. Vamos continuar mantendo a pressão em Cancún. E, se houver outro fracasso, será um fracasso de liderança política e não um fracasso da sociedade. Nós faremos a nossa parte.

 

E qual foi a impressão da visita ao Brasil?

Eu vi o bom, o ruim e o feio. O bom foi mágico. No primeiro dia vimos uma área que não havia sido desmatada e para mim foi um dos lugares mais especiais em que já estive em toda a minha vida. O ruim e o feio foi realmente ruim e feio. Ver o desmatamento causando para a produção de soja e de gado foi devastador. Na produção de gado há um dos mais improdutivos usos da terra, muitas vezes com invasões ilegais. Na Amazônia, onde 80% da área deve ser protegida e 20% pode ser usada, vimos exatamente o oposto. Saí de lá com a sensação de que devemos intensificar a luta pelo desmatamento zero, assim como assegurar que o Código Florestal seja fortificado, solidificado e implementado. A não ser que isso seja feito, o Brasil não será capaz de atingir sua meta de desmatamento ou o compromisso de cortar as emissões, feito em Copenhague.

 

Quando voltar ao País o que gostaria de ver?

Gostaria de ver o desmatamento chegando ao fim e uma revolução energética real, com grande investimento em energias renováveis. Isso seria bom não só para o mundo, mas para o Brasil ficar mais competitivo.

 

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