Pré-sal pode tirar Brasil do rumo certo, diz Lester Brown

Para guru ambientalista, País deve montar aposta em energias renováveis

29 Outubro 2009 | 23h31

O americano Lester Brown, um dos principais pensadores da chamada economia ecológica, é um homem de fala mansa e semblante sério. E gosta de dar conselhos. Para o Brasil, onde esteve na semana passada para divulgar seu novo livro, Plano B 4.0 - Mobilização para Salvar a Civilização, o recado foi claro. O País não deve se perder nas brumas das promessas do petróleo do pré-sal e manter firme sua aposta nas energias renováveis, opção que deve ganhar peso depois da Cúpula do Clima de Copenhague, em dezembro."Encontrar mais petróleo agora pode ser um indicador de progresso. Mas, até conseguir tirá-lo do fundo do mar, talvez ele já faça parte da história."

 

Fundador do Worldwatch Institute (WWI), em 1974, e atual presidente do Earth Policy Institute, entidade de pesquisas interdisciplinares com sede em Washington, Brown deu a seguinte entrevista ao Estado.

 

Qual é o plano B para a humanidade?

 

A razão para pensarmos em um "plano B" é que o "plano A", o business as usual, não está funcionando muito bem. Se continuarmos no mesmo caminho econômico, o destino será o colapso climático. Isso porque, com o objetivo dar sustentação à atividade econômica, estamos destruindo os sistemas naturais. Para manter a agricultura, estamos destruindo as florestas; as savanas, levando os solos à erosão. Estamos colocando os oceanos em colapso, acabando com os estoques pesqueiros, e por aí vai. O "plano B" é uma resposta a essa situação, uma oportunidade para que o mundo reconheça o colapso que vem sustentando a civilização.

 

E quais seriam os ingredientes desse plano B?

 

Ele é feito de quatro propostas: estabilizar a população; estabilizar o clima; erradicar a pobreza e restaurar os sistemas naturais que dão suporte à economia: as florestas, os solos, a biodiversidade, as reservas de água. É um plano ambicioso, mas temos que nos movimentar rápido. Em vez de perguntar aos líderes políticos se eles vão reduzir as emissões de carbono, temos que perguntar em que percentual e com que agilidade eles o farão. Em vez de dizer que os países ricos devem cortar suas emissões de gases estufa em 80% até 2050, o que é muita coisa, vai ser preciso uma movimentação de guerra para fazer com que isso aconteça na velocidade necessária.

 

Então o sr. parte do pressuposto de que os países assumirão metas mais agressivas de redução do CO2?

 

A questão central não é o quanto difícil será fazê-lo, e sim o quão difícil as coisas se tornarão se não fizermos nada. Eu me refiro aos níveis do mar, por exemplo. Os últimos estudos a que tivemos acesso mostra que o nível dos oceanos pode subir dois metros. Imagine o impacto disso. Estamos criando um mundo que não vamos reconhecer mais.

 

E os custos da adaptação às mudanças climáticas serão gigantescos.

 

Sim. Pense na agricultura, por exemplo. A agricultura que conhecemos hoje é baseada na estabilidade climática. Basicamente, ela é pensada para maximizar sua produção dentro do atual sistema climático. Se ele mudar, a agricultura mudará de uma forma sem precedentes. Essa é uma ameaça muito real. Então temos que acordar e agir a tempo para responder a esses desafios, ou então chegaremos ao ponto sem retorno. A natureza é a senhora do tempo, mas não podemos ver o relógio. Não sabemos quanto tempo nos resta, na prática, para reduzir as emissões de CO2.

 

O sr. acredita que estamos perto do ponto sem retorno?

 

Penso que estamos perigosamente perto. E muitos, muitos cientistas do clima pensam que estamos perigosamente perto. Se o nível do mar subir sete metros, teremos que redesenhar o mapa do mundo. O Brasil, por exemplo, seria um país muito menor do que é atualmente. Imensas porções da Amazônia teriam de ser convertidas em agricultura. Praias como Ipanema podem desaparecer.

 

Em seu livro, o sr. sugere uma revolução tributária com o objetivo de colocar um preço sobre o carbono. Qual seria o caminho? É um cenário realista para o pós-Copenhague?

 

O problema é que o mercado não diz a verdade. O mercado incorpora os custos de produção de uma mina de carvão, por exemplo, e os custos de transportar e queimar esse carvão. Mas não incorpora os custos da mudança climática causada por esse carvão. O mercado incorpora os custos de bombear petróleo, levá-lo à refinaria, depois ao posto de gasolina. Mas não inclui os custos da poluição causada pela gasolina e o efeito disso para o aquecimento global. Não podemos confiar no mercado para ter acesso a esse tipo de informação.

 

Então se o mercado não mudar, nada muda?

 

Sir Nicholas Stern, ex-economista chefe do Banco Mundial, fez, a pedido do governo britânico, uma análise dos custos para o mundo das mudanças climáticas, documento que ficou conhecido como Relatório Stern. Lá ele descreveu a mudança climática como uma grande falha do mercado. E como o mercado falhou ao não incorporar esses custos da mudança climática na gasolina, na eletricidade gerada a partir de carvão. Então a chave agora é obrigar o mercado a nos dizer a verdade. Nos Estados Unidos, por exemplo, em vez de a gasolina custar US$ 3 o galão, custaria US$ 12 se incorporasse esses custos. Custaria muito mais caro, mas seria o preço honesto.

 

Dessa forma, o preço dos combustíveis passaria a incorporar os custos que eles trazem no longo prazo? Poluição, danos à saúde pública. Estamos no caminho para que isso ocorra? Não é impopular?

 

Sim, estamos no caminho. Se você perguntar aos economistas o que seria mais eficaz para reduzir as emissões, se um sistema de captura e comércio de emissões (cap and trade) ou se uma reestruturação nos impostos, 95% deles provavelmente diriam que é a mudança nos impostos. Porque é mais fácil de entender, mais transparente, todos saberão exatamente o preço sobre o carbono. E isso vai permitir uma mudança de comportamento, em resposta ao alto preço dos combustíveis fósseis. Isso significa, entre outras coisas, banir a construção de usinas a carvão, e nos voltaremos à energia solar, eólica e geotérmica, em grande escala.

 

Como estabilizar a população?

 

O que precisamos entender é o significado de crescimento exponencial, e a relação entre o número de pessoas que habitam o planeta e suas necessidades por água, terra, recursos naturais. Acho que não estamos entendendo bem essa equação. Metade da população do mundo hoje vive em países onde as reservas subterrâneas de água estão sendo bombeadas além da conta, os aquíferos estão baixando. E 80 milhões de pessoas são adicionadas à população diariamente, justamente nos países onde os solos estão em processo avançado de erosão, os aquíferos estão baixando, o que torna a situação ainda pior. Então, controle populacional é um fator chave, especialmente nos Estados não democráticos, como Somália e Afeganistão, onde o acesso à educação é precário.

 

O sr. é um dos pioneiros em tecer uma relação entre economia e ecologia. Nós estamos sendo hábeis em conectar as duas coisas?

 

Estamos começando a fazê-lo. Temos nomes emergindo, como o já citado Nicholas Stern, que olhou economicamente a questão da mudança climática e disse "olha, temos problemas". Uma das dificuldades é que os indicadores que usamos, que os governos usam na suas decisões, quase todos são indicadores econômicos. Todos os dias, todos os meses, recebemos dados sobre investimentos, emprego, produção, etc, e as decisões são tomadas. Mas nós não temos algo similar a respeito de erosão dos solos, as espécies que estão disaparecendo, ou sobre o que está ocorrendo com os aquíferos ao redor do mundo. Esses dados não estão disponíveis, e são muito mais importantes para o futuro da civilização. A exceção é a concentração de CO2 na atmosfera, temos essa informação diariamente. Então, a mentalidade ainda é governada pela economia. Mesmo na administração Obama. Eles ainda pensam só em termos econômicos, e nós precisamos de um modelo muito mais sofisticado.

 

Recentemente o governo brasileiro está bastante entusiasmado com as descobertas de petróleo na camada do pré-sal. Como o sr. vê isso? Um país reconhecido por uma matriz renovável mas que pretende explorar mais óleo no futuro. Não soa contraditório, no atual momento?

 

Descobrir petróleo, para um país, soa como um símbolo do sucesso. No caso do pré-sal, não será fácil tirá-lo do fundo do mar, será um processo custoso e dispendioso em energia. Além disso, com o tempo, o petróleo estará saindo de cena, será parte da história. Outro ponto a ser observado é a eletrificação dos sistemas de transporte, com mais veículos híbridos e elétricos entrando em cena. E a matriz renovável já está verificando um grande salto, a China está dobrando sua produção de energia a partir de fontes limpas. A Europa está montando um consórcio de empresas, como Munich Re, Deustche Bank, Siemens e ABB, que estão desenvolvendo uma usina de geração solar de grandes proporções no Norte da África. A luz do sol que atinge a Terra naquele ponto durante uma única hora é suficiente para fornecer energia para toda a economia global, por um ano.

 

E os negócios? As empresas estão realmente fazendo mudanças em seus modos de fazer negócios para alcançar a sustentabilidade?

 

Há algumas companhias que estão realmente planejando se tornar neutras em emissões de carbono, muito poucas. O obstáculo é que as indústrias vivem pelo mercado, num ambiente de mercado, e usam suas regras. Mas o varejo dá informação ruim aos consumidores. O mercado nos diz que combustíveis fósseis são baratos, mas na realidade eles são caros. Então, para que as indústrias se tornem de fato sustentáveis e para que a economia se torne sustentável, temos que fazer com que o mercado nos diga a verdade. E o modo de fazer isso é calcular o real preço da energia fóssil e incorporar esses custos.

 

Vivemos em um padrão de produção e consumo claramente insustentável. A era do descartável, da obsolescência programada. O sr. acha que iremos em algum momento sobrepor esse paradigma?

 

Estamos começando a mudar, mas a questão é: podemos mudar na velocidade necessária? Estamos em uma corrida entre pontos de inflexão, no campo político e natural. Podemos cortar as emissões rápido o suficiente para salvar as geleiras e o Himalaia? Começamos a nos mover nessa direção, mas ainda não na velocidade suficiente.

 

Como o sr. vê o papel do Brasil nesse cenário?

 

O Brasil está em uma situação única. Tem a grande riqueza de ter uma matriz onde mais de 40% da energia vem de fontes renováveis. Vocês fizeram a transição primeiro. O Brasil tem vasto litoral, ideal para parques eólicos, reservas de água, sol o ano todo. É o território ideal para uma economia de baixo carbono, e se mantiverem nesse caminho, atrairão muitos investimentos.

 

Veja também:

 

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