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Porto ameaça santuário de golfinhos em SC

Herton Escobar, enviado especial - O Estado de S.Paulo

23 Março 2014 | 02h 00

Ambientalistas temem que a construção de terminal marítimo tenha impacto sobre as toninhas da Babitonga; empresas negam

SÃO FRANCISCO DO SUL (SC) - Mais de meio século vivendo às margens da Baía da Babitonga, dona Sônia ainda se emociona ao ver um pôr do sol. Sentada ao lado do marido em um banquinho de praça à beira mar em São Francisco do Sul, no norte de Santa Catarina, ela assiste ao disco amarelo desaparecer por trás das montanhas e lamenta quando a bateria da máquina fotográfica acaba, justamente no momento em que os últimos raios de luz pintam a água da baía de dourado. "Agora, imagine esse cenário maravilhoso com um monte de navio de carga passando no meio", diz ela.

É o que muita gente está imaginando em São Francisco do Sul hoje em dia, diante da possibilidade de construção de mais um porto - e talvez outros - no interior da baía. "Vai ter poluição com certeza, ambiental e visual", prevê Sonia Rocha, de 54 anos, moradora "nativa" da cidade, como faz questão de dizer.

O empreendimento, chamado Terminal Marítimo Mar Azul, é da Companhia de Navegação Norsul. O projeto, de R$ 250 milhões, prevê a instalação de uma ponte de quase 1,5 quilômetro sobre as águas da baía, com dois píeres para atracação de barcaças e navios cargueiros. Sua principal função, conectada a um novo Centro de Distribuição de Cargas, será o transporte de bobinas de aço para a empresa Arcelor Mittal, siderúrgica que tem uma unidade industrial bem próxima ao local, do outro lado da BR-280.

O projeto recebeu licença prévia do Ibama em outubro de 2012, com uma lista de condicionantes que precisam ser atendidas para obtenção da licença de instalação. Entre elas, a eliminação do píer mais externo, dedicado a navios de maior calado, reduzindo assim a extensão da ponte em cerca de 300 metros e restringindo o tráfego de embarcações às barcaças usadas no transporte das bobinas.

Ambientalistas, porém, contestam o licenciamento e questionam a viabilidade do empreendimento. A maior preocupação ambiental refere-se ao impacto do porto sobre as toninhas, uma espécie de golfinho ameaçada de extinção.

Segundo a bióloga Marta Cremer, as toninhas da Babitonga formam a única população residente em baía conhecida dessa espécie, que normalmente habita áreas costeiras. São cerca de 50 a 80 animais apenas, que circulam por uma região inferior a 20% da área total da baía (de 134 km²). Estudos de rastreamento via satélite mostram que elas ficam concentradas no entorno de algumas ilhas, localizadas no meio do canal da baía. E é justamente nesse trecho que o porto deverá ser instalado.

"Haverá um impacto direto sobre as toninhas, tanto por causa da estrutura física do porto quanto da área de manobra dos navios", avalia Marta, professora da Universidade da Região de Joinville e coordenadora do Projeto Toninhas, dedicado ao estudo e conservação da espécie. Outros animais ameaçados que seriam possivelmente afetados incluem o boto-cinza, a tartaruga-verde e o mero.

Além da poluição acústica causada pelos navios, ambientalistas temem que o porto exija dragagens do leito marinho, cuja profundidade não passa de 12 metros. "Eles insistem em dizer que não vai haver dragagem, mas é claro que vai. Não existe porto dentro de baía que não precise dragar", diz Marta.

O píer externo foi vetado pelo Ibama justamente por deduzir-se que "não será possível operar navios com 12 metros de calado a plena carga sem necessidade de dragagens".

"Nunca se falou em dragagem, nem para o primeiro nem para o segundo píer", reforçou ao Estado Herbert Markenson, diretor-superintendente da Mar Azul Logística, Armazenamento, Terminais e Transporte S/A, subsidiária da Norsul responsável pelo projeto.

Segundo ele, a empresa ainda trabalha com a perspectiva de construção do píer externo. "Por enquanto só foi autorizado um, mas o que a gente quer no final são os dois píeres", disse. "Continuamos trabalhando com o objetivo do projeto original." A meta é obter a licença de instalação ainda neste ano.

Por enquanto, as barcaças da empresa continuam a descarregar as bobinas de aço por um terminal privado dentro do porto público de São Francisco do Sul, localizado a 8 km da Arcelor Mittal. Com o novo porto, essa distância cairia para 2 km, e os caminhões não precisariam mais passar por dentro da cidade, destaca Markenson.

O mais importante, segundo ele, seria ter um terminal exclusivo para as operações da empresa. "O terminal (atual) é privado, mas o porto é público; se tem outro navio na frente, a gente entra na fila e espera como todo mundo", justifica.

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