Paulo Rossi/Diário Popular
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Pesquisadores brasileiros resgatados de base na Antártida desembarcam em Pelotas

Na viagem, que prosseguiu rumo ao Galeão, estavam funcionários do Arsenal da Marinha do Rio de Janeiro, um alpinista e representantes do Ministério do Meio Ambiente

Letícia Schinestsck / PELOTAS, Especial para o Estado

26 Fevereiro 2012 | 23h52

O avião da Força Aérea Brasileira (FAB), C-130 Hércules, aterrissou em Pelotas na noite deste domingo noite para desembarcar quatro pesquisadores que estavam presentes no incêndio que destruiu cerca de 70% das instalações da Estação Comandante Ferraz, na Antártica, no último sábado. Na viagem, que prosseguiu rumo ao Galeão, no Rio de Janeiro, estavam funcionários do Arsenal da Marinha do Rio de Janeiro, um alpinista e representantes do Ministério do Meio Ambiente.

 

No Aeroporto Internacional de Pelotas o clima era de expectativa. Por volta das 20h30min os curiosos começaram a chegar ao local para acompanhar o desembarque dos sobreviventes. Às 21h, o avião da FAB aterrissou e os pesquisadores desceram. Braços cruzados, semblante fechado e caminhar acelerado. César Rodrigo dos Santos,36, biólogo pela Unisinos e a mulher, Gabriela Werle, ambos da cidade de São Leopoldo contam com sentimento o que presenciaram no momento do acidente. "Eu fui o primeiro que viu quando tudo começou. Entramos rápido para chamar o grupo, mas o fogo estava tão alto que não teve o que fazer", conta Santos. Eles e a mulher perderam tudo, só restaram a câmera fotográfica que estava em mãos e o notebook. Só soube dos militares quando os outros comentaram sobre a morte. A convivência entre eles era constante, colegas de trabalho que trocavam experiências diariamente. Segundo ele, as perdas científicas foram inestimáveis, pois os dados coletados neste ano, agora estão incompletos.

 

Erli Costa, 33, foi outra sobrevivente. Gaúcha de Herval Grande, ela mora há sete anos no Rio de Janeiro com o marido que conheceu em uma de suas visitas à Antártica. "Escutei o barulho do pessoal falando, achei que fosse brincadeira. Mas não era", conta. Ela estava calma, até receber a notícia de que os companheiros tinham morrido. A última vez que viu os militares foi quando eles colocaram a máscara para entrar na casa das máquinas para tentar inibir o fogo. Erli acompanhou até o último minuto e saiu profundamente triste pelas perdas. "Não tentei salvar nada. Tentei ajudar o pessoal", diz.

 

O Contra Almirante e secretário da Comissão Interministerial de Recursos do Mar (CIRM) e gerente do Proantar, Marcos José, desceu da aeronave para prestar depoimento à imprensa. Afirmou que o militar ferido passa bem, mas que teve queimaduras nas mãos. No avião estavam 30 pesquisadores e 12 servidores da Marinha. Todos estavam presente na hora do ocorrido. "Não é simples ver aquilo tudo destruído. A estação era considerada como a segunda casa dos pesquisadores", afirma. Ele fez questão de salientar que, em breve, a estação será reconstruída e de forma melhor do que antes. Os corpos, segundo o almirante, devem regressar ao Brasil amanhã, mas tudo depende da meteorologia.

 

A outra pesquisadora gaúcha que desembarcou foi Aparecida Basler, que não quis falar. De uma maneira geral, todos que desceram do avião estavam transtornados, tensos e sem muita vontade de conversar com a imprensa. Entre a tripulação que regressou para o Rio de Janeiro estava a carioca Adriana Rodrigues, estudante do último semestre de biologia, que desceu para descansar alguns instantes. Ela estava na Antártica desde o início do mês e sofreu ao ver que a estação ficou completamente distruída. "É difícil ver que o trabalho de um mês inteiro foi jogado fora. Pior é ver os amigos que perdemos", desabafa.

 

Na opinião do diretor do Museu Oceanográfico da Fundação Universidade do Rio Grande, Lauro Barcellos, o que se perdeu foi em termos de instalações, estrutura, materiais. As pesquisas que duram há anos certamente não foram por àgua abaixo. "Eles fazem backup. Provavelmente gravaram isto em outro lugar", explica Barcellos, que já esteve na Antártida em três situações. Mesmo que o levantamento preliminar da Marinha aponte 70% de perda nas instalações, o conteúdo das pesquisas não foi danificado. Ele se encontra nas universidades, livros, papers e publicações que eternizam a experiência relatada. Quanto a isso, não há porque se preocupar.

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