Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Pato raro tem a 1ª ninhada em cativeiro

Quase extinto, o pato-mergulhão nunca se havia reproduzido antes em um zoológico no mundo

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

06 Agosto 2017 | 03h00

ITATIBA - Eles têm penugem cinza e preta e assim devem ficar quando crescerem. São quatro filhotes monitorados 24 horas por dia por câmeras e pela vigilância de tratadores. Tanto trabalho se explica pelo fato de eles serem os primeiros de sua espécie, o pato-mergulhão, a nascer no mundo em cativeiro. Foram três anos de trabalho envolvendo diversos centros de pesquisa, sob a coordenação do Instituto Chico Mendes da Conservação da Biodiversidade (ICMBio), até que os ovos de um casal mantido no Zooparque Itatiba (SP) se rompessem anteontem.

O pato-mergulhão (Mergus ostosetaceus) é uma ave aquática das mais raras no mundo. Ameaçada de extinção - ela já sumiu da Argentina, do Paraguai e do Uruguai -, é hoje encontrada em apenas quatro lugares no Brasil: na Serra da Canastra (MG), na Chapada dos Veadeiros (GO), no Jalapão (TO) e em Patrocínio (MG). 

Ao todo, os pesquisadores estimam que existam cerca de 200 exemplares na natureza. "Essa é a espécie de pato mais ameaçada do hemisfério ocidental", afirmou Luís Fábio Silveira, curador da seção de aves do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP).

Esse tipo de pato precisa de águas límpidas com corredeiras e vegetação na margem para viver. Alimenta-se de insetos e de peixes capturados durante o mergulho. "A poluição, a mineração e a caça são os principais vilões da espécie", disse Robert Frank Kooij, gerente-geral do Zooparque Itatiba.

Fazia pouco mais de um mês quando os tratadores recolheram os ovos de dois casais de patos-mergulhões - o Zooparque mantém cinco deles, que nasceram depois que pesquisadores apanharam ovos na Serra da Canastra e no Jalapão para começar a criar a espécie em cativeiro.

Kooij participou da equipe que foi buscar os ovos na natureza. "Quando seus filhotes crescem, os pais os expulsam da área para que, no ano seguinte, tenham uma nova ninhada. Cada casal precisa de um território de cerca de 6 a 9 quilômetros de extensão." Normalmente, o pato-mergulhão vive perto de nascentes. A fêmea põe de cinco a seis ovos, mas o casal cria apenas três filhos.

Vigilância

Os patos nascidos dos ovos recolhidos na natureza levaram dois anos para atingir a maturidade e formar os casais, hoje mantidos em viveiros separados e sob vigilância de seis câmeras. Tudo ali é gravado e assistido pelos tratadores, que chegam ao lugar por volta das 7 horas. Eles fazem relatórios diários sobre tudo o que acontece com os animais e sobre o comportamento dos bichos. "Conhecemos muito pouco essa espécie", disse Kooij.

Os pesquisadores conseguiram que eles se reproduzissem - ao todo, oito ovos foram recolhidos. Os primeiros quatro filhotes estão em um recinto pequeno, de cerca de 1 m², onde comem uma ração feita à base de peixe e dispõem de uma pequena piscina e de um aquecedor.

A cada dia, os bichos ganham de 5 a 10 gramas de peso. Por enquanto, os patinhos dividem a sala com um filhote de ararajuba, outra ave ameaçada de extinção. Mais tarde, devem ser encaminhados para outro setor, conhecido no Zooparque como creche, antes de serem colocados em recintos ao ar livre, como seus pais.

Quatro ovos ainda estão na incubadeira e são examinados diariamente. Os novos filhotes devem nascer nos próximos dias. O plano de Kooij é criar mais cinco viveiros no parque para atingir um total de dez casais reprodutores. "Creio que em dois anos podemos ter cerca de 40 a 50 indivíduos."

Em um prazo de cerca de cinco anos, os pesquisadores querem começar a reintroduzir os patos na natureza, aumentando sua população e levando-os para outros lugares, além dos que eles ocupam hoje.

Além do Zooparque, outros zoológicos do País, como os de São Paulo e de Foz do Iguaçu (PR), devem entrar no Plano de Ação Nacional para a Conservação do Pato-Mergulhão, do ICMBio.

Visitas

Por enquanto, os visitantes do Zooparque - o maior zoológico privado do País, com 189 espécies e cerca de mil bichos - não podem ver os patos. Kooij espera que até 2018 isso seja possível. Além do mergulhão, o Zooparque trabalha com outras espécies ameaçadas de extinção, como o mico-leão-da-cara-dourada.

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