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País melhora o ar, mas descaso com as águas continua

Valéria França - ESPECIAL PARA O ESTADO

29 Agosto 2014 | 18h 48

O investimento na expansão do saneamento diminuiu nos últimos 14 anos, deixando o Brasil entre os piores índices do mundo

SÃO PAULO - Em apenas cinco anos o Brasil conseguiu mudar totalmente a imagem entre os ambientalistas ao redor do mundo ao alcançar um inesperado patamar de 80% de redução de CO2. Ao poluir menos, virou modelo, mas deixou questões importantes de lado. Não vem cuidando da fauna e muito menos de seu potencial hídrico – o que é ainda mais preocupante.

“Urgente hoje não é a poluição do ar, mas a das águas dos rios e mares”, diz a bióloga Adriana Gonçalves Moreira, especialista em meio ambiente do Banco Mundial. “Do ponto de vista de conservação de todos os biomas nacionais, o marinho é o que recebeu menos atenção.” Das áreas protegidas no continente, 30% são de florestas e 10%, de cerrado.

Já o mar tem apenas 2% de área protegida. “Isso é um problema mundial.”Os EUA também demarcam apenas 2% de território marítimo protegido, e Índia, 5%, por exemplo. Calcula-se que 77% dos poluentes despejados no mar acabem se concentrando na região costeira, que reúne o habitat marinho mais vulnerável. Os acidentes com cargueiros, principalmente os que levam petróleo bruto, são responsáveis por 10% da poluição dos mares do globo.

No Brasil, 87% do lixo encontrado nas águas do Atlântico vem do território costeiro e impactam diretamente 267 espécies. Há muitos registros de tartarugas e golfinhos que morrem pela ingestão de plásticos, confundidos com algas. O Brasil também fica devendo em saneamento básico. Segundo estudo realizado pelo Instituto Trata Brasil e pelo Conselho Empresarial Brasileiro pelo Desenvolvimento Sustentável, apenas 37,5% de todo o esgoto gerado no País recebe algum tipo de tratamento.

O estudo também levantou o nível de saneamento em 120 países, estabelecendo um ranking, no qual o Brasil fica em 112º lugar. Desde 2000, houve redução no processo de expansão do setor de 4,6% para 4,1% ao ano. Outro problema são os pesticidas – o País é campeão mundial do uso na agricultura – , um tipo de poluição invisível, que também impacta o ecossistema marinho.

Soluções. Falta política de uso racional. “As águas devem ter uso múltiplo”, diz Marcos Thadeu Abicalil, arquiteto e urbanista especializado em águas e saneamento do Banco Mundial. “O esgoto tratado pode ter um reaproveitamento indireto.” Um bom exemplo disso, segundo o arquiteto, é o Aquapolo Ambiental – que nasceu de uma parceria entre a Odebrecht Ambiental e a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) – , um centro de tratamento e fornecimento de água de reúso industrial para o Polo Petroquímico do ABC, em São Paulo.

O projeto transforma o esgoto previamente tratado em água para atividades industriais, como o resfriamento de turbinas. O método gera economia de água potável equivalente ao consumo de 500 mil habitantes. “Temos de diversificar e ser mais limpos”, diz a economista Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS). “Precisamos ter uma cadeia limpa do início ao descarte.”

Ícone do descaso com o meio ambiente, o Rio Tietê atinge nível zero de O2 no trecho entre Suzano e São Paulo. “O despejo direto de esgoto doméstico e empresarial acaba com o potencial de uso, que poderia até ser de abastecimento”, diz Abicalil, referindo-se à seca que a maior capital do País está atravessando, Do total de água tratada no Brasil, 36% é perdida em vazamentos. Em São Paulo, 30% dos investimentos vão para a reposição da rede, que está envelhecida.

“O Brasil não resolveu problemas de acesso a água, que são do século passado, e agora tem que lidar com as questões das mudanças climáticas.”