Os desejos dos homens e das plantas

Ao aumentar quantidade de CO2 e nitrogênio, população de cada ser vivo se altera e biodiversidade diminui

Fernando Reinach,

14 Janeiro 2010 | 11h57

O desejo íntimo de uma planta é o mesmo de todo animal: crescer e reproduzir. Mas se você perguntar à planta o que falta na Terra para ela crescer mais eficientemente, a resposta virá rapidamente. "Nitrogênio e CO2", retorquirá o vegetal. "A água e o nitrogênio que minhas raízes retiram do solo, o CO2 capturado pela minhas folhas e a luz são tudo de que necessito para crescer. E você, humano, do que precisa para crescer?" Sincero, você vai responder: "Te comer".

 

Mas, se é essa a lógica que move plantas e seres humanos, por que toda a preocupação com o gradual aumento da quantidade de CO2 na atmosfera (40% em 60 anos) e do nitrogênio nos rios e oceanos (100% em 60 anos)? Todos os experimentos confirmam que se você aumentar a quantidade de nitrogênio no solo as plantas crescem mais rápido (é o milagre dos adubos) e se você colocar uma planta em uma estufa e aumentar a quantidade de CO2 ela também vai crescer mais rapidamente. Não bastaria deixar as plantas se encarregarem de remover o CO2 que nossos carros movidos a derivados de petróleo despejam na atmosfera?

 

O problema é que as interações entre os milhares de seres vivos que convivem em cada metro quadrado do planeta evoluíram em um ambiente carente de nitrogênio e CO2. Quando aumentamos a quantidade de CO2 ou de nitrogênio, a população de cada ser vivo se altera. Algumas plantas e animais se aproveitam dessa abundância para crescer, outros deixam de ser competitivos e desaparecem. O resultado é que a biodiversidade diminui.

 

Sabendo que o aumento de cada um desses compostos reduz a biodiversidade, os ecologistas suspeitavam de que a combinação do aumento da quantidade de nitrogênio e da concentração de CO2 poderia ter um efeito devastador na biodiversidade. Mas medir esses efeitos na natureza não é fácil. É preciso comparar quatro áreas: uma em que nada foi alterado; uma em que somente o nitrogênio foi aumentado; outra em que somente o CO2 foi alterado; e, finalmente, a quarta área, em que CO2 e nitrogênio foram aumentados. Além disso, é necessário esperar pelo menos dez anos para que as mudanças se estabilizem.

 

A sorte é que existem cientistas com paciência. Um grupo deles iniciou, na década de 1980, o famoso LTER (Long Term Ecological Research), em Cedar Creek, Minnesota, nos EUA. Nesse experimento, 60 quadrados de uma área de campo nativo foram equipados com centenas de tubos capazes de liberar CO2 de modo a alterar a atmosfera em cada quadrado e tubos de irrigação que permitem controlar a presença de diversos fertilizantes no solo.

 

Durante o governo Clinton, quando o experimento foi iniciado, a biodiversidade de cada quadrado foi analisada cuidadosamente antes de se alterar as condições de cada quadrado. Depois, durante o governo Bush, o desfio foi conseguir verba por dez anos para manter os experimentos. Agora, 12 anos depois, a biodiversidade de cada quadrado foi reavaliada.

 

O resultado demonstra que o aumento do CO2 diminui em 2% a biodiversidade e o aumento do nitrogênio reduz a biodiversidade em 16%. Mas o que surpreendeu os cientistas é que não foi observado um efeito aditivo ou multiplicativo na presença do CO2 e do nitrogênio. Nos quadrados em que os dois foram aumentados simultaneamente, a diminuição da biodiversidade foi de somente 8%. O aumento do CO2 contrabalança o efeito negativo do nitrogênio.

 

Esse resultado demonstra o quão pouco sabemos sobre o comportamento dos ecossistemas. Isso não é de se estranhar, já que a ecologia é uma ciência que ainda não celebrou seus 200 anos. Se por um lado nossa ignorância é um bom argumento para que sejamos cautelosos ao alterar o ambiente, por outro lado ela justifica um certo ceticismo em relação a muitas das previsões catastróficas divulgadas nos últimos anos.

 

* Fernando Reinach (fernando@reinach.com) é biólogo.

 

Mais informações: Elevated CO2 reduces losses of plant diversity caused by nitrogen deposition. Science, vol. 326, pág. 1.399 (2009)

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