Ongs aproveitam crise para comprar terras para conservação

Movimento ambientalista consegue "barganhas" com o declínio do mercado de construção civil

Reuters

14 Janeiro 2010 | 18h29

Quando o proprietário de um enorme terreno desistiu da construção de uma casa com 65 cômodos em Portland, no estado de Oregon, por conta da crise, um grupo conservacionista viu ali uma oportunidade.

 

O grupo sediado em São Francisco, uma organização não governamental chamada Trust for Public Land (TPL), comprou o terreno de 27 acres por US$ 4,4 milhões – muito abaixo do preço de mercado, que era de US$ 6,2 milhões.

 

A área foi, então, adicionada a um parque já existente nos arredores. “As pessoas estão querendo desovar essas propriedades e a conservação é a grande beneficiária”, disse o presidente da TLP, Will Rogers.

 

 “Nesse mercado, com a demanda no ponto em que está, muitos empreendimentos não saem do papel. Em vários lugares temos visto propriedades nas quais se havia planejado algum empreendimento voltando ao mercado para venda”, disse Rogers.

 

A aquisição do terreno em Portland é apenas uma das muitas que o TLP fez – assim como outros grupos conservacionistas, que viram oportunidades no colapso provocado pela crise e pela recessão.

 

A comunidade ambientalista está chamando essa tendência de “green lining”, enquanto o mercado de construção civil nos EUA permanece em estado de desolação.

 

A Associação dos Construtores da América disse no início do mês que os empregos na construção civil diminuíram nas áreas metropolitanas do país entre novembro de 2008 e novembro de 2009.

 

De acordo com a associação, os gastos com projetos de construção civil caíram mais de US$ 137 bilhões em novembro.

 

 Entre as montanhas de projetos adiados ou descartados pelos empreendedores e investidores, os grupos ambientalistas estão encontrando barganhas.

 

Nas encostas de Serra Nevada, na Califórnia, a TPL está comprando 595 acres de terras não colonizadas ao longo do Bear River. Segundo a ONG, o proprietário planejava construir pequenos ranchos  mas os planos mudaram por causa da crise.

 

Do outro lado do país, em Connecticut, outro empreendimento adiado deu aos grupos ambientalistas a chance de negociar um terreno de 42 acres que inclui o habitat natural do chamado “pardal do pântano”, uma espécie vulnerável ao aumento do nível do mar associado ao aquecimento global.

 

A cidade de Madison votará um referendo no próximo dia 26 para tentar aprovar a compra da terra, que custará mais de US$ 9,7 milhões. Uma coalizão que inclui ongs como TPL e The National Audubon Society, além de produtores agrícolas locais, irá contribuir com recursos.

 

 “Não há dúvida de que a crise econômica nos colocou em condições de negociar... Se a propriedade não for adquirida pelo município de Madison como um parque costeiro, é sinal de que o proprietário tem recursos para mantê-la até que o mercado volte a ficar favorável”, reflete a Diretora de Assuntos Governamentais da Audubon Society, Sandy Breslin.

 

Há ainda outras oportunidades se abrindo para os ambientalistas, na esteira da crise do mercado. Laura Huffman, diretora da The Nature Conservancy (TNC) do Texas, que trabalha para proteger espaços verdes e nascentes de água, diz que, além de aquisições, existe um processo chamado compensação pela conservação.

 

Os proprietários de terras que participam desses programas podem se beneficiar com redução de impostos, por exemplo.  Huffman disse que esse processo tornou-se uma opção atrativa para muitos proprietários. Essas compensações permitem que alguns proprietários possam manter suas terras e, em contrapartida, preservá-las (deixando de construir, por exemplo, ou desenvolvendo-as de forma menos impactante).

  

Por outro lado, o tempo de vacas magras também significa menos doações e declínio de financiamentos para as ONGs, o que, obviamente, interfere na possibilidade de compra de terras por elas.

 

A TNC viu seu financiamento cair de US$ 1,1 bilhão, em 2008, para US$ 547 milhões em 2009.

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