ONG usa navio contra crime ambiental

Construindo com padrões ambientalmente corretos, Rainbow Warrior, do Greenpeace, inicia navegação no Rio Amazonas

Giovana Girardi, Enviada Especial, MANAUS,

28 Março 2012 | 22h30

 Tão logo se embarca no Rainbow Warrior, a primeira orientação que se recebe é de segurança. Sete apitos seguidos de um longo, peguem o colete salva-vidas e corram para o convés; um apito longo, contínuo, significa incêndio, corram imediatamente para o mesmo local. Agora, quando a sinalização vier seguida de uma mensagem, avisando que há piratas, tranquem-se na sala de refeições. Piratas, sério?

Apesar de o recado soar um tanto dramático, a precaução tem lá sua razão de ser. Um dos objetivos do novo navio do Greenpeace, que iniciou sua navegação pelo rio Amazonas na segunda-feira, a partir de Manaus, é denunciar crimes ambientais. E, historicamente, nem sempre essas ações foram bem-vindas. Até porque, mesmo a ONG pregando a não-violência (a tal paz verde do seu nome), algumas vezes as campanhas ocorrem em clima de confronto.

A primeira versão do "Guerreiro do Arco-Íris", em uma ação contra testes nucleares na Nova Zelândia, foi bombardeada e afundada pelo serviço secreto francês em 1985, causando a morte de um fotógrafo.

Mais recentemente, em território nacional, na mesma Santarém (PA) onde atracamos na manhã desta última quarta, 28, um outro navio da organização, o Artic Sunrise, foi invadido e apedrejado (sem danos maiores) em 2006 após bloquear o porto da Cargill em ação contra a expansão da soja.

Curiosamente, aportamos agora na cidade bem ao lado do terminal da empresa.

A bordo de uma nova embarcação, feita sob encomenda pela ONG seguindo padrões ambientalmente corretos (veja infográfico nesta página), a ideia, segundo o diretor-executivo da entidade, o sul-africano Kumi Naidoo, é "chegar a lugares na Amazônia onde não é possível chegar sem um navio para destacar crimes ambientais que estiverem ocorrendo e mostrar soluções de usos sustentáveis da floresta" para mostrar na conferência de desenvolvimento sustentável da ONU, a Rio+20, em junho, quando o Greenpeace também completa 20 anos de atuação no país.

A viagem mira ainda a coleta de assinaturas para a criação de um projeto de lei de iniciativa popular que estabeleça o desmatamento zero no País. Durante o trajeto até o Rio, em vários portos o Rainbow Warrior será aberto à visitação, e a expectativa dos ambientalistas é atrair as pessoas tanto pela curiosidade sobre a ONG quanto sobre o navio verde e colher a adesão.

Casa e escritório flutuante. De fato há uma curiosidade, que moveu também a reportagem, em tentar entender qual é o papel do navio para a ONG e como é a convivência dos ativistas com esta que se torna a casa-flutuante de muitos deles por até três meses seguidos. A relação do Greenpeace com barcos vêm de sua origem. Já em 1971, quando a ONG internacional nascia, um pequeno pesqueiro foi alugado para uma campanha de combate a testes nucleares nas ilhas Aleutian, entre Alasca e Rússia.

Segundo Paulo Adario, diretor da campanha Amazônia da organização, este navio atual funciona como um escritório ambulante e uma base de investigação, documentação e comunicação. "E é uma plataforma de interação. A questão não é só juntar as 1,4 milhão de assinaturas (o número, que representa 1% do eleitorado, é o necessário para pedir uma lei popular), mas aproveitar essa oportunidade para interagir com as pessoas. Não só agora no barco, como depois, ao longo da campanha."

Juntar tamanha adesão de fato não é exatamente difícil. No final do ano passado, um abaixo-assinado pedindo para a presidente Dilma Rousseff vetar a mudança do Código Florestal também juntou mais de 1 milhão de assinaturas, mas não teve muito impacto. Para Adario, apesar de bem-vindo, esse tipo de apoio ainda é difuso no País. "As pessoas se dizem contrárias, mas não estão exatamente mobilizadas. A luta contra a mudança do CF conta com enorme simpatia dos brasileiros pelas florestas, mas ela está longe, a 7.000 km de distância, não tá no dia a dia dessas pessoas."

Símbolo. Para ele, uma campanha como essa pode alcançar esse tipo de mobilização. E é no navio que ela começa, onde tripulantes e voluntários dividem suas tarefas de ativistas com as de marinheiros e todas as demais atividades necessárias para transformar esta ferramenta de trabalho uma casa. Há regras de boa convivência e segurança, horários rígidos de alimentação, esquema de limpeza, no qual as 35 pessoas embarcadas são convocadas a ajudar. E cai muito bem junto à tripulação pegar uma vassoura e sair limpando.

Os mais jovens não têm muitos pudores de dizer que são meio "megalomaníacos" - nas palavras deles -, no sonho de salvar o planeta.

Gente como a jovem advogada Bárbara Ferreira Viegas Rubim, de 22 anos, que começou como voluntária na organização aos 16 e não se importa de passar algumas horas na cozinha para deixar os outros livres para agir.

Ou a já experiente engenheira agronôma Tatiana de Carvalho, de 35 anos, que atua como campaigner da ONG e participou de outras expedições. Para ela, essa campanha tem um ponto fundamental, que é o de provocar um certo constrangimento. "Na reforma do Código, todo mundo que é a favor, a senadora Kátia Abreu, os ruralistas, têm dito que ela não vai aumentar o desmatamento. Ótimo, então vamos aprovar essa lei. Vai cair algumas máscaras."

O mais simbólico a bordo, porém, é o próprio capitão, o norte-americano Peter Willcox, no Greenpeace há 30 anos. Ele era o líder do Rainbow Warrior 1, que afundou, e viu nesse período a ONG crescer e mudar. De bermudão e camiseta, lembra que as coisas mudaram desde que a ONG tinha só umas 200 pessoas e os barcos eram pesqueiros.

"Se fosse há 30 anos, provavelmente nossa campanha seria ir para o meio da floresta e tentar parar o corte de árvores. Mas hoje propomos uma nova lei para tentar afetar as políticas públicas."

Apesar da mudança que ele menciona, uma coisa é meio sagrada na organização, o vegetarianismo. Maleável, no entanto, o capitão pediu para que tenha carne somente em uma refeição do dia. A outra sempre é totalmente vegetariana.

Em sua quarta campanha no Brasil, Willcox fala com empolgação sobre a possibilidade de navegar a maior parte do tempo com velas. Mas se no mar isso é bem mais fácil, porque é possível adaptar a rota para ficar sempre na direção do vento e assim economizar combustível, em rio isso é mais complicado, e no começo da viagem foi preciso navegar com o motor hibrido, que funciona com diesel e a energia elétrica de uma bateria alimentada pelo próprio movimento do motor.

As condições só ficaram favoráveis ao içamento das velas depois de passarmos por Parintins e entrarmos no Estado do Pará, na altura de Serra de Santa Júlia, após quase 22 horas de viagem. E aí a brincadeira fica divertida. O motor é silencioso, mas sem ele, só temos o vento e o barulho do rio Amazonas, largo, caudaloso e muito marrom.

* A jornalista Giovana Girardi viaja a bordo do Rainbow Warrior a convite do Greenpeace.

 

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