Ocupação pode ter piorado crise hídrica em Brasília

Cidade recebe Fórum Mundial da Água em meio a racionamento; entorno de reservatório teve aumento de 336% na urbanização

Giovana Girardi e André Borges, de Brasília, O Estado de S.Paulo

18 Março 2018 | 03h00
Atualizado 19 Março 2018 | 15h25

Mergulhada em um racionamento de água que não tem data para acabar, Brasília recebe a partir de hoje o 8.º Fórum Mundial da Água. O desafio será discutir um problema que atinge não somente a capital, mas vem assombrando o País nos últimos anos e é cada vez mais comum em vários cantos do mundo.

Enquanto cerca de 10 mil congressistas de 170 países debatem o tema “compartilhando água”, o País tem em grande parte do seu território – no Semiárido do Nordeste, há sete anos, e no Centro-Oeste, há três – um quadro de crise hídrica.

Paulo Salles, diretor-presidente da Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico (Adasa) do Distrito Federal, autarquia ligada ao governo distrital, diz não haver risco de faltar água no evento e que o racionamento, em vigor há mais de um ano, é “oportunidade” para discutir o problema.

Por via das dúvidas, porém, a Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb) decidiu suspender o rodízio de água na quinta-feira (22) na região do Estádio Mané Garrincha e do Centro de Convenções Ulisses Guimarães, onde ocorre o fórum. Pela programação do racionamento, quinta é o dia que a região teria interrupção do fornecimento de água por 24 horas. Nesta semana isso não vai ocorrer.

A informação foi divulgada neste domingo pela Folha de S. Paulo. De acordo com o jornal, toda a região central da cidade, que concentra a maior parte dos hotéis, seria beneficiada com a suspensão do rodízio durante toda a realização do fórum (de hoje a sexta). Ao Estado, a Caesb informou que isso era uma situação em estudo, mas que decidiu-se manter o fornecimento aberto apenas para o estádio e o centro de convenções. No total, incluindo visitantes, o fórum espera reunir 40 mil pessoas.

“A crise hídrica é mundial, não é um problema local. Todos enfrentam dificuldades. As variações atreladas ao clima estão se concretizando”, afirma.

Ele admite, porém, que obras previstas que podiam ter evitado o racionamento não foram realizadas. “O racionamento ocorre porque não executaram o que estava no papel. Além da falta de investimento, houve paralisia por órgãos de controle. Temos problemas de gestão.”

Um estudo feito pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) sugere que a escassez de água na capital federal vai além da falta de chuva ou da conclusão de obras de novos reservatórios.

O trabalho analisou a evolução, desde 2000, do reservatório do Descoberto, o principal da região, que atende 2/3 da população de Brasília – 2 milhões de pessoas. Com imagens de satélite, o trabalho constatou redução de 37% da área de espelho d’água do reservatório no período de 2016/2017 na comparação com 2013/2014, início da crise. A análise considerou o chamado ano hidrológico, que vai de outubro de um ano (início da temporada de chuvas) a setembro seguinte (fim da seca).

De 2000 a 2014, mesmo em momentos de menos chuva, a área do espelho nunca ficou abaixo dos 1,1 mil hectares. A partir de então, com uma redução mais intensa das chuvas, a área começou a diminuir, batendo um recorde atrás do outro, até chegar a 773,2 hectares no último ano hidrológico, de outubro de 2016 a setembro de 2017. O volume de chuva no período foi o menor desde 2000.

Mas os pesquisadores do Ipam observaram outra mudança – a redução da cobertura vegetal na Área de Proteção Ambiental (APA) no entorno do Descoberto. A cidade cresceu na região. Houve um aumento de 336% de infraestrutura urbana de 2000 a 2016.

Fatores

“É um efeito sinérgico entre o avanço da especulação imobiliária na região da APA e a consecutiva falta (de chuva). De fato tivemos períodos de seca expandidos, mas já tinham ocorrido outros momentos de pouca chuva no passado e nem assim o reservatório ficou tão baixo”, comenta a pesquisadora Ane Alencar.

Para ela, a combinação da mudança do uso do solo com ondas de calor e de seca pode ter criado um ponto de não retorno. “Tem chovido recentemente e o reservatório está se recuperando (chegou a 66,6% na sexta-feira), mas não quer dizer que o problema acabou”, diz.

Para André Lima, que foi secretário de Meio Ambiente do DF até novembro passado, houve ao longo do tempo um descaso com a questão ambiental. “Sempre se viu a questão como um problema de engenharia. Deixou-se a cidade crescer de forma desordenada, com ocupação em cima de nascente, em área de manancial. E chegamos a um limite.”

Lima defende que haja um programa de longo prazo para recuperar o entorno do reservatório a fim de mantê-lo como uma bacia produtora de água. “Ainda é uma área prioritariamente rural. É preciso investir em tecnologias para um uso mais sustentável. Sem isso, tem muito produtor vendendo parcelas de sua terra. Sem esse cuidado, vai virar tudo urbano.”

Ele diz que vai ser lançado, durante o fórum, um programa, com financiamento do programa da ONU para o Meio Ambiente para avaliar como pode ser feita essa recuperação.

“A ideia é identificar  ações estratégicas que precisam ser tomadas para garantir a manutenção da produção hídrica na bacia: regularização fundiária, novas tecnologias de irrigação para reduzir o consumo e recuperação das nascentes. E dizer quanto isso vai custar e quais são as formas possíveis de pagar.”

Lima lembra, porém, que a saída que vem sendo buscada para a crise é a construção do reservatório Corumbá 4, em Goiás, a cerca de 100 km da capital federal. “Vamos gastar com isso cerca de R$ 1 bilhão, para buscar água longe, quando ainda há espaço para reduzir a demanda de água e conter a degradação do entorno do reservatório. É um raciocínio que deveria se aplicar a todas as metrópoles do País.”

 

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