Agliberto Lima/AE
Agliberto Lima/AE

O Tamar agora é ‘trintão’

O projeto que começou com jovens oceanógrafos indignados porque nenhum ninho de tartaruga dava filhotes completa 30 anos com o mérito de ter restabelecido o ciclo de desova das espécies da costa brasileira

Karina Ninni, especial para O Estado

29 Janeiro 2010 | 00h01

Tartarugar. Carebar. Verbos que, graças aos 30 anos de existência do Projeto Tamar, mudaram de significado ou foram banidos do dicionário de muitas comunidades litorâneas.

 

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Assista entrevista com Berenice Gomes, coordenadora do Tamar em SP

 

Quando os então recém-formados em Oceanologia Catu (José Catuetê de Albuquerque) e Guy Marcovaldi começaram a coleta de dados para a implementação do projeto, o termo tartarugar era utilizado no litoral de Sergipe para designar a prática de pegar os ovos dos ninhos sem matar as fêmeas. Já os carebeiros – como eram chamados no Espírito Santo – matavam as tartarugas (carebas) durante a desova na praia, para comer a carne e usar o casco.

 

“Quando começamos, nenhum ninho de tartaruga dava filhotes. O ciclo estava interrompido”, relembra Neca Marcovaldi, hoje presidente voluntária da Fundação Pró-Tamar, que coadministra o projeto. “Se não fosse pelo Tamar, essas tartarugas não teriam tido nenhuma chance”.

 

Os números comprovam. Em seus 30 anos, celebrados este mês, o projeto está prestes a atingir a marca de 10 milhões de filhotes nascidos sob sua proteção. O Tamar – hoje vinculado ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) – monitora cerca de 20 mil desovas todos os anos, em mais de mil quilômetros de litoral e ilhas oceânicas. E libera 900 mil filhotes no mar.

 

Mas a tarefa de proteção esbarra em desafios. Um deles é a necessidade de parceria com países vizinhos, já que as tartarugas migram milhares de quilômetros por ano. Podem, por exemplo, se alimentar em um país e desovar em outro. Sem essa cumplicidade, a conservação é impossível.

 

Até 1979, o Brasil não sabia nada sobre tartarugas marinhas. Foi quando o IBDF (Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal) participou de uma reunião em Washington, a convite da OEA (Organização dos Estados Americanos). A então representante do órgão federal voltou envergonhada, pois, diferentemente do Brasil, países como a Costa Rica e o Suriname apresentaram trabalhos sobre o tema. E resolveu agir, montando uma equipe.

 

Chamou jovens oceanólogos formados pela Universidade Federal do Rio Grande (RS), que em 1977 haviam presenciado a matança de 11 tartarugas no Atol das Rocas (RN). De praia em praia, viajando em barcos pequenos, monitorando as areias a pé ou a cavalo, recolhendo dados com as comunidades, os pesquisadores foram mapeando a presença das tartarugas e definindo locais para as primeiras bases de apoio.

 

Descobriram que, das sete espécies existentes no mundo, cinco estavam presentes no Brasil. Dessas cinco, quatro desovam no litoral e uma nas ilhas oceânicas. Descobriram ainda que a desova ocorria de setembro a março, no litoral, e de janeiro a junho, nas ilhas. E que daria trabalho convencer as populações costeiras a abandonar o hábito de consumir os ovos e a carne.

 

“Encontramos resistência no início. Mas contratamos os melhores tartarugueiros e carebeiros para trabalhar no projeto, o que foi crucial para o sucesso do Tamar”, afirma Neca.

 

Conscientização

Atualmente com 23 bases de pesquisa, o projeto mantém um banco de dados e 11 centros de visitantes, que recebem 1,5 milhão de pessoas ao ano.

 

Nos tanques, aquários e piscinas de toque, elas aprendem sobre as tartarugas e o ecossistema em que vivem. Em alguns centros há cinema e teatro.

 

A conscientização deu certo. Hoje, somente 30% dos ovos encontrados precisam ser transferidos para cercados de incubação. O restante pode ficar na praia. E o verbo tartarugar, agora, designa uma prática de monitoramento.

 

O que não quer dizer que as tartarugas marinhas estejam livres de risco. De cada mil filhotes, somente um ou dois conseguem atingir a maturidade.

 

Elas sofrem, por exemplo, com o lixo jogado no mar. Segundo o Tamar, a ingestão de plástico mata uma em cada quatro tartarugas encontradas sem vida e analisadas no projeto. Elas confundem os objetos com comida.

 

A outra ameaça é a pesca incidental, quando elas são capturadas junto com os peixes. O problema deu origem, em 2001, ao Programa de Interação Pesca e Tartaruga Marinha.

 

“Isso ocorre em todo o litoral. Elas são fisgadas por anzóis ou ficam enroladas nas redes”, explica Gilberto Sales, oceanógrafo e coordenador do programa. “Temos observadores monitorando os barcos de pesca e tentamos convencer os pescadores a trocar de anzol”, diz Sales, salientando que a mudança de anzol reduziu em 60% a captura incidental.

 

A prioridade, hoje, é garantir que as tartarugas consigam atingir a idade adulta. Isso demora 30 anos. O que significa que a primeira geração de filhotes lançada ao mar pelo Tamar está chegando à maturidade agora. Junto com o projeto.

 

Números do projeto

10 milhões de filhotes nasceram sob a proteção do Tamar

 

20 mil é o número de desovas monitoradas anulamente

 

900 mil filhotes de tartaruga são liberados no mar todos os anos pelo Tamar

 

Linha do tempo

O INÍCIO

1977: Os então estudantes de Oceanologia Catu, Guy, Neca, Nice e Lauro vão ao Atol das Rocas e presenciam a matança de 11 tartarugas de uma só vez.

1979: Começa, no IBDF, a montagem da equipe que dará origem ao Projeto Tamar.

1980: Início da pesquisa de campo, com o levantamento das espécies no litoral brasileiro.

1981: A primeira base do Tamar é instalada em Pirambu, no litoral de Sergipe.

 

A PESQUISA

1982: Início da marcação e avaliação de espécies. A equipe vai pela primeira vez à Praia do Forte (BA) e a Regência (ES), futuras bases do projeto. Realiza também uma grande expedição ao Atol das Rocas para observar e documentar os hábitos das tartarugas marinhas. Constrói o primeiro cercado de incubação, em Pirambu (SE). E monitora a primeira temporada de desova envolvendo as três bases, com a liberação de 8 mil filhotes.

 

EXPANSÃO

1983: Começa o trabalho na praia de Arembepe (BA), depois que veranistas presenciam uma desova, à tarde.

1984: O Tamar começa a operar em Fernando de Noronha.

1988: Criação da Fundação Pró-Tamar, que coadministra o projeto, ainda no âmbito do IBDF.

1989: Surge a primeira confecção de produtos Tamar. O Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis) substitui o IBDF.

 

MATURIDADE

1990: A portaria 043/90, do Ibama, cria o Centro Nacional de Conservação e Manejo de Tartarugas Marinhas - Tamar.

1991: É criada a base de Ubatuba (SP), a primeira em área exclusiva de alimentação, com captura incidental alta.

1992: São criadas as bases de Almofala (CE) e Atafona (RJ). A base de Almofala é a segunda em área exclusiva de alimentação. Criada a segunda confecção de produtos Tamar em Pirambu.

 

FRUTOS

1997: Prêmio J. Paul Getty - concedido anualmente pela WWF (World Wildlife Foundation) e considerado o “Prêmio Nobel” do Meio Ambiente.

2001: Início do Programa de Interação Pesca e Tartaruga Marinha.

2003: Prêmio Unesco na categoria Meio Ambiente.

2010: Comemoração dos 30 anos do projeto, com shows e o lançamento de um CD com canções sobre as tartarugas.

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