Issei Kato | Reuters
Issei Kato | Reuters

O desafio social e os dilemas ambientais da Indústria 4.0

Má capacitação técnica dos trabalhadores no futuro e o baixo índice de reciclagem de materiais são algumas das preocupações da Quarta Revolução Industrial

Leonardo Pinto, Especial para o Estado

03 Novembro 2017 | 18h11

Desde o período de Aristóteles, o conceito de mecanizar a mão de obra era incutido como uma bandeira para acabar com a escravização e exploração de trabalhadores. Atribuía-se ao maquinário uma forma de alívio à força física e exaltação à capacidade intelectual humana. “Se cada instrumento pudesse executar a sua função própria sem ser mandado, e se, por exemplo, as rocas dos fiandeiros fiassem por si sós, o dono da oficina não precisaria mais de auxiliares, nem o senhor, de escravos”. A frase foi usada no século 19, na década de 1880, para compor o manifesto Direito à Preguiça, do escritor franco-cubano Paul Lafargue (genro do filósofo socialista Karl Marx), que pregava contra o trabalho na sociedade capitalista e titulava a máquina como “redentora da humanidade”, por substituir o trabalho braçal.

A ideia parece antiga, mas países desenvolvidos e economias emergentes como o Brasil já estão adotando medidas para tornar as máquinas autossuficientes, deixando a atividade humana para outras funções que demandam maior complexidade. É o início da Quarta Revolução Industrial, a chamada Indústria 4.0, termo criado em 2013 pelo governo alemão em um estudo divulgado pela Academia Alemã de Ciência e Engenharia (Acatech) para designar a integração de sistemas de produção onde quase não há intervenção humana. Por meio de tecnologias como inteligência artificial (IA), internet das coisas (IoT), armazenamento em nuvem e big data, sensores inteligentes conversam entre si e ditam como as máquinas devem produzir. Mas esse novo panorama industrial, devido ao seu impacto em vários setores, dá espaço a dilemas que vão desde educação e desemprego à questão da sustentabilidade.

No Brasil, o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic) está por trás dos investimentos na Indústria 4.0. Ligada à pasta, a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) é o braço estratégico que vem fazendo reuniões e programas para tentar levar ao governo políticas públicas e direcionar a indústria de transformação brasileira à tecnologia da 4.0. “No Brasil não se discutia isso e não havia nenhum tipo de projeto. Nossa economia é baseada em commodities, enquanto os países desenvolvidos investem e atualizam suas indústrias. Por isso apresentamos um plano de modernização da nossa indústria ao Ministério”, diz o presidente da ABDI, Guto Ferreira, jornalista de 37 anos nomeado no ano passado pelo ministro do Mdic, Marcos Pereira. Ferreira, afirma, sem dar mais detalhes, que o presidente Michel Temer fará um anúncio ainda este ano traçando as diretrizes nacionais em relação ao programa Brasil 4.0.

Educação e Desemprego

O principal dilema que acompanha o tema da Indústria 4.0 é a futura ocupação dos trabalhadores nesse novo conceito de indústria. De acordo com o Fórum Econômico Mundial, realizado em janeiro, na Suíça, haverá um saldo de desemprego de aproximadamente cinco milhões de pessoas (7 milhões de postos perdidos e 2 milhões de novos empregos) por causa da iminente automatização.

Segundo o presidente da ABDI, Guto Ferreira, é “completamente incorreta” a avaliação de economistas que preveem um largo desemprego futuro instaurado pela Indústria 4.0. “Não haverá um boom de empregos perdidos porque haverá uma troca na indústria. Sim, postos serão extintos, mas a tecnologia permite a contratação de novos trabalhadores. A proporção de qual lado vai ser maior ainda não dá para calcular porque depende de educação e capacitação”. A declaração de Ferreira expõe o problema que será definitivo para reduzir as chances de desemprego: o sistema educacional.

O presidente da ABDI diz que, em paralelo ao programa da Indústria 4.0. no Brasil, o Mdic está em negociação diretamente com o Ministério da Educação (MEC) para tentar incluir conteúdos de programação e análise de dados no ensino básico brasileiro. “Estamos em conversa com o MEC para que códigos, programação e eletrônica sejam obrigatórios em alguma fase do currículo escolar”, diz o jornalista. A ideia, segundo Ferreira, é que se crie Pronatecs específicas para a indústria 4.0 e que haja uma conscientização de que as crianças já nascem conectadas, então é impossível que não exista professores e disciplinas ligadas ao tema em todas as escolas brasileiras”.

A professora Tereza Cristina Carvalho, coordenadora do Laboratório de Sustentabilidade (LASSU) e docente da Escola Politécnica (POLI), na Universidade de São Paulo (USP), diz que se a educação, especialmente em relação à tecnologia, não for prioridade para as gerações futuras, a implementação de uma indústria como essa terá impactos negativos. “Essa revolução tecnológica pressupõe que temos que nos adaptar e educar ainda mais as pessoas. Na realidade, o ser humano continua sendo essencial, mas de uma maneira muito mais inteligente”, diz a pesquisadora. “A máquina serve para coisas repetitivas. Mas para pensarmos nisso é preciso reeducar as pessoas. Hoje não dá para aprender só o básico”, complementa. 

A indústria 4.0 será mais sustentável?

De acordo com o pesquisador alemão Grischa Beier, do Instituto de Estudos Avançados de Sustentabilidade (IASS), de Postdam, na Alemanha, há uma encruzilhada quanto à sustentabilidade no campo da indústria 4.0. Enquanto a atividade industrial é a mais eficiente em termos de produtividade, reduzindo falhas durante o processo e gerando menos resíduos sólidos industriais, o maquinário - responsável por toda essa eficiência - ainda terá como fonte as matérias-primas e a demanda por essas tecnologias só vai aumentar, conforme a Indústria 4.0 for se estabelecendo.

“Haverá menos desperdício de material na indústria, portanto, menos resíduos sólidos. Por outro lado, as tecnologias da Indústria 4.0 serão muito mais abundantes e necessitarão de mais recursos naturais para serem produzidas. O uso dos recursos terá que ser muito mais sustentável se a indústria quiser compensar”, prevê o cientista, ouvido pelo Estado.

A professora Tereza Cristina Carvalho, da USP, está inserida no contexto da Indústria 4.0 em parceria com o setor de calçados. Ela atua como uma consultora de produção, desenvolvendo dois conceitos da Indústria 4.0, que, segundo ela, são essenciais para o crescimento do setor, que sofre com a concorrência chinesa. Tereza oferece aporte técnico para otimizar a linha de confecção - que ainda depende da importação de tecnologia para ser mais eficiente - e padroniza ecologicamente os materiais dos sapatos. “Do ponto de vista da sustentabilidade a indústria 4.0 permite gerar bem menos resíduos porque a chance de erro é muito menor. Ela aumenta o nível de automatização e pressupõe a customização”, diz. Aliado a isso, Tereza diz que temos que tornar os produtos mais biodegradáveis e reutilizar matéria-prima. "É necessário mudar toda a lógica, implementando reuso dos materiais com a economia circular”.

No entanto, a logística reversa é cara para as empresas e ainda é um mercado pouco explorado. “A inteligência na hora de produzir poderia, teoricamente, identificar quais dejetos podem ser ou não reutilizados na linha de produção e, assim, definir a economia circular, evitando mais desperdícios. Mas esse debate ainda é muito raso na Indústria 4.0”, ressalta o pesquisador alemão Grischa Beier.

Um outro dilema ambiental, também relacionado à lenta adoção da economia circular no mundo, é a maior velocidade da produção na Indústria 4.0, disponibilizando mais produtos ao mercado. “Isso é realmente um problema. O consumo vai aumentar e a indústria vai acompanhar esse consumo porque quer vender. É um ciclo vicioso em que algumas iniciativas vão ter que começar a achar saídas para que esse consumo não vire um grande lixão”, afirma Guto Ferreira. A professora Tereza também mostra preocupação quanto à larga produção que prevê a Indústria 4.0. Apesar de o erro humano ser minimizado com a mecanização dos serviços, o consumo desenfreado ainda será o grande problema. “Na verdade, as empresas não estão preocupadas com isso, e sim com o lucro. A indústria vai ser desenfreada se o consumo também for”.

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