EPITACIO PESSOA/ESTADÃO
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No Dia do Tietê, rio amarga 'mancha morta' de 130 km

Monitoramento anual da SOS Mata Atlântica da qualidade da água do rio mostra que a mancha recuou apenas 7 km entre setembro de 2016 a agosto deste ano na comparação com o período anterior

Giovana Girardi, O Estado de S. Paulo

22 Setembro 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Hoje é Dia do Tietê. Mas, entra ano, sai ano, e o rio continua sem ter muito o que comemorar. Em 22,5% do seu curso de 576 km ele está morto. Por 130 km, entre Itaquaquecetuba e Cabreúva, uma mancha de poluição, onde praticamente não há oxigênio, domina o rio.

O alerta é da Fundação SOS Mata Atlântica, que divulga nesta sexta-feira, 22, a nova edição do monitoramento anual da qualidade da água do rio. O índice é um pouco menor que do ano passado – no período de setembro de 2016 a agosto deste ano, a mancha recuou 7 km na comparação com o período anterior. 

A expectativa, no entanto, é que a situação deveria estar melhor, visto que houve investimentos de tratamento de esgoto em algumas cidades e a crise hídrica chegou ao fim.

No auge da estiagem, e com a diminuição no ritmo das obras de coleta, a mancha dobrou de tamanho, chegando a 154,7 km em 2015, contra os 71 km de 2014, seu menor nível desde o início do monitoramento. No ano passado, com a volta das chuvas, a mancha recuou para 137 km e se esperava que o ritmo seguiria neste ano, mas isso não se confirmou.

“O clima se estabilizou, choveu muito, o que ajuda a dispersar os poluentes. E houve um aumento do trecho com qualidade de água boa e regular entre Salesópolis e Itaquaquecetuba, por causa de investimentos em tratamento de esgoto. Mas tudo isso acabou sendo mascarado ou impactado por causa de outros problemas”, afirma Malu Ribeiro, coordenadora da Rede das Águas da SOS.

Por “problemas” ela se refere a um aumento de desmatamento nas margens do rio e de ocupações irregulares em áreas de manancial, em especial na região de Guarulhos. “Foi o município que mais desmatou na Bacia do Alto Tietê e é também o que ainda menos trata o esgoto. Se não fosse isso, acho que teríamos um aumento maior da faixa em que a qualidade da água é boa”, afirma Malu.

A ambientalista destaca ainda um problema antigo com as barragens ao longo do rio, que acumulam toneladas de carga de poluição e, quando são abertas, acabam mandando lixo rio abaixo. Em geral, quando chove na Bacia do Alto do Tietê, para evitar enchentes entra em funcionamento um sistema que bombeia a água do Tietê para o Pinheiros. Este tem seu sentido invertido e a vazão vai para a represa Billings. 

“Mas quando o temporal é muito grande, abrem-se todas os reservatórios e a água vai direto Tietê abaixo, levando a poluição a Salto, como vire e mexe vemos em fotografias. Pirapora acumula sujeira arrastada da bacia inteira. Era preciso ter algum tratamento ali, como o uso de tecnologia para retirada de resíduos sólidos antes da abertura das barragens”, sugere.

O estudo fez um cálculo sobre quanto custaria toda a poluição do Tietê se fosse aplicado à risca o princípio do poluidor/pagador. “Os 34 municípios da Bacia do Alto Tietê lançam por dia uma carga de 591 toneladas de poluição. Isso é medido no Cebolão, no encontro do Pinheiros com o Tietê. Para diluir tudo isso, se não houvesse nenhuma medida de tratamento, precisaria de toda a extensão do rio.

Ele ficaria morto até Barra Bonita. O valor total bruto para tratar isso é de R$ 76 millhões, que deveria ser cobrado de quem polui”, defende.

Outro lado

A Empresa Metropolitana de Águas e Energia (EMAE), que gera as barragens, disse por meio de nota que elas “são operadas de forma a respeitar os limites de armazenamento de seus reservatórios e mantê-los dentro de suas respectivas faixas operativas normais.

Essas estruturas dispõem de dispositivos de descarga de superfície e de fundo que são utilizados não só nos eventos de cheias, como também para o escoamento das vazões regularmente afluentes a esse sistema hidroenergético.”

A empresa afirmou também que remove em média dessas barragens e destina para aterros sanitários 9.800 m³/ano de lixo. “No entanto, são inúmeras as fontes de poluição que afluem, de forma difusa, aos cursos d’água da Região Metropolitana de São Paulo e que acabam se concentrando no rio Tietê a partir da sua confluência com os rios Tamanduateí e Pinheiros, sendo que, ao longo do seu percurso, vão se somando outras cargas poluidoras oriundas de outros córregos contribuintes ao rio. Ademais, a ausência de uma política pública “de fato”, aplicada nesse sentido, impede que haja evolução positiva da resolução do problema apresentado, sendo que a reversão dessa situação depende de atuação direta na raiz do problema, ou seja, a cessação do lançamento de esgotos e lixos em corpos d’água.”

A Prefeitura de Guarulhos informou, também por meio de nota, afirmou que o índice de cobertura em coleta de esgoto em Guarulhos é de 85,96%, citando dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), de 2014.

“No entanto, o esgoto doméstico não chega às Estações de Tratamento (ETEs), sendo despejado in natura nos córregos da cidade. No início deste ano, a atual administração apurou que Guarulhos tratava apenas cerca de 2,5% do seu esgoto. Nove meses depois, esse índice chega próximo a 6% devendo terminar este ano próximo aos 8%. No entanto, o SAAE reconhece e já informou ao Ministério Público Estadual que não será possível cumprir um Termo de Ajuste de Conduta, que determinava 80% de esgoto tratado até o final de 2017, já que não há recursos para a construção imediata de redes coletora”, afirmou a administração.

A nota também informa que a Secretaria Municipal de Meio Ambiente realiza fiscalização permanente na região de várzea do rio Tietê (bairro Várzea do Palácio) e que tem emitido diversas notificações sobre danos ambientais. 

A Sabesp informou que seu posicionamento sobre os dados se deu com o lançamento, nesta quinta, 21, do Projeto Tietê. Trata-se de um pacote de obras, orçadas em R$ 624 milhões, para ampliar o tratamento de esgoto na capital e na Grande São Paulo. O projeto inclui a instalação de tubulações e estações de bombeamento para atender o centro e as zonas leste, norte e oeste da capital, além das cidades de Barueri, Cotia, Itaquaquecetuba, Osasco e Suzano. A expectativa é que, com essas obras, o esgoto gerado por 2,2 milhões de pessoas passe a ser enviado para estações de tratamento.

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