No Brasil, dois navios e pouca pesquisa

USP e Furg têm dificuldade para manter as embarcações no mar

Bruno Versolato, O Estado de S.Paulo

04 Junho 2009 | 17h29

O Brasil sofre com a falta de navios para pesquisa oceânica. Por isso, doutorandos em ciências do mar são obrigados a concluir estudos com dados colhidos na costa. "Nunca tivemos três navios pesquisando ao mesmo tempo na costa brasileira", afirma Luiz Eduardo Maia Nery, reitor de pós-graduação da Universidade Federal do Rio Grande (Furg).

 

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Os navios Professor W. Besnard (da USP) e Atlântico Sul (da Furg) são os dois únicos dedicados integralmente à pesquisa oceânica no País. O da USP está parado com problemas mecânicos e o da Furg se vira como pode, levando também alunos de outras universidades.

 

Para colocar o Atlântico Sul em condições de atender todas as nossas pesquisas, precisaríamos de R$ 10 milhões por ano", afirma Nery. Segundo seus cálculos, com esse valor seria possível deixar o navio em operação oito meses por ano coletando dados para pesquisas em alto-mar e triplicando a produção acadêmica atual.

 

"Oceanografia é uma ciência que precisa de coleta de dados contínua e sistêmica por um longo período. Para conhecermos os efeitos do El Niño na costa do Rio Grande do Sul, foi necessária uma montanha de dados acumulados durante 15 anos de pesquisa", explica Nery.

  

Oceanólogo de formação, Nery foi o organizador do 1º Fórum da Amazônia Azul, realizado no último mês na cidade de Rio Grande (RS). "Um dos pontos mais discutidos do fórum foi a pesquisa oceanográfica no Brasil. Temos de definir a necessidade de mais navios, verba para manutenção mecânica, para manter tripulação ativa", diz.

 

Ele afirma que a Furg está prestes a concluir um ciclo que se iniciou em 1969 com sua fundação e com a contratação dos primeiros professores para o curso de oceanologia, único no País à época.

 

Hoje, muito desses docentes, alguns vindos de outros países, estão se aposentando e a universidade enfrenta um problema de renovação das cadeiras. "Há doutorandos que foram obrigados a adaptar suas pesquisas para coletar amostras próximas à costa por saber que não teriam horas necessárias para embarcar", afirma Maurício Mata, coordenador da pós-graduação em Oceanografia Física da Furg.

 

No fórum foram apresentados os primeiros resultados do 4º Ano Polar da Antártida, o primeiro de que o Brasil participou como membro efetivo. "Os pesquisadores estavam animados. Os resultados iniciais foram ótimos, mas todos estavam temerosos. Ninguém sabe ainda se haverá investimento para dar continuidade às pesquisas", diz Nery.

 

"A questão do aquecimento global passa pelo entendimento do mar", afirma Alexandre Turra, professor do Instituto de Oceanografia da USP. "Os problemas que estamos causando no mar tendem a durar mais tempo do que se fosse em terra."

 

Turra explica que o papel que o mar desempenha na questão do aquecimento global só foi levantado mais tarde, quando já havia um entendimento de qual era o problema. "Primeiro se disse que a Amazônia era o pulmão do planeta. Não é. Depois eram os oceanos. Também estava errado. Os oceanos são na verdade os grandes aspiradores de CO2. E assim controlam o clima mundial. E isso tudo com alguinhas microscópicas e extremamente frágeis", afirma.

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