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'Não tenho como definir com palavras o que aconteceu', diz sobrevivente da tragédia na Antártida

Sergio Torres, de O Estado de S. Paulo

26 Fevereiro 2012 | 10h 03

Grupo de 30 pesquisadores resgatados da base está muito abalado; Há crisses de choro e depressão

Ainda não há data prevista para o retorno dos cientistas brasileiros salvos do incêndio que destruiu na madrugada de ontem a Estação Antártica Comandante Ferraz, base científica e militar brasileira na ilha Rei George, no continente antártico.

 

O avião da Força Aérea Brasileira (FAB) que chegou de madrugada à cidade chilena de Punta Arenas, para onde os sobreviventes foram levados, terá, antes do retorno ao Brasil, de recolher na base antártica chilena os corpos dos dois militares mortos na tentativa frustrada de combater as chamas. Os corpos foram recuperados ontem.

 

O grupo de 30 pesquisadores está muito abalado. Há crises de choro e quadros de depressão. O suboficial Carlos Alberto Vieira Figueiredo e o sargento Roberto Lopes dos Santos eram muito queridos na base. Antes da viagem, os cientistas passaram por treinamentos físico e de comportamento diante de situações de emergência, ministrados durante oito dias na restinga da Marambaia, no litoral do Estado do Rio de Janeiro. Os militares mortos eram instrutores.

 

Por telefone, o biofísico João Paulo Machado Torres, de 46 anos, veterano de duas excursões à base do Brasil na Antártica, relatou, com voz embargada, alguns dos momentos de desespero vividos pelo grupo durante a madrugada.

 

"Não tenho como definir com palavras o que aconteceu. Nem escrevendo consigo. A gente vê que só tem a vida e Deus. Os dois militares eram pessoas admiráveis. Integravam a frente de combate ao fogo, não fugiram ao cumprimento da missão, mesmo sabendo que a chance de não sobreviverem era muito grande", contou Torres, professor do Instituto de Biofísica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenador do projeto "Pinguins e Skuas (gaivotas de rapina típicas da Antártida)".

 

No momento da explosão que deu início ao fogo, ele estava acordado em um local próximo à praça das máquinas, de onde o incêndio se propagou. Eram 2h. No grupo havia 60 pessoas, dos quais 30 cientistas (entre eles a especialista em aves Begoña Gimenez, espanhola que tem pesquisas em parceria com cientistas da UFRJ), 12 funcionários civis do Arsenal de Marinha, um representante do Ministério do Meio Ambiente, um alpinista e 16 militares da Marinha.

 

"Alguns dormiam, outros estavam acordados. Pouca gente conseguiu salvar alguma coisa dos alojamentos. Só salvei o computador porque consegui chegar à biblioteca, mas não fui até o camarote, que ficava muito lá no fundo, era muito arriscado", contou o biofísico.

 

Do lado de fora, onde as pessoas acompanhavam o incêndio, a temperatura era negativa, em torno de menos 5 graus Celsius. Havia quem escapara com roupa de dormir. A sorte é que alguns pesquisadores mantinham fora da estação estoques de roupa de frio, que foram distribuídas.

 

"Como saio muito de barco, sempre levo roupas de frio extras, como garantia. Como volto molhado, troco de roupa e deixo as que tirei do lado de foram para secar. Isso ajudou muito, porque esses agasalhos puderam ser compartilhados", disse Torres.

 

O grupo se refugiou em dois módulos da estação isolados da estrutura destruída pelo fogo, de onde acompanhou por rádio a atuação dos militares empenhados em combater as labaredas.

 

"A gente perdeu muito mais do que material. Perdeu vidas. Minha pesquisa foi toda perdida, e era uma das mais baratas. Havia algumas, também perdidas, de milhões de reais. Acho que não tem que buscar culpados. O trabalho da Marinha é valoroso, graças a ela a base existe. O compromisso de reconstrução pela presidente Dilma foi a única boa notícia que tivemos até agora", afirmou ele.

 

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